Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Inércia]

    [Inércia]

    Vamos parar o tempo
    No template do meu prato
    No tempero do teu vento
    No pedaço do nosso cansaço

    Vamos parar o tempo
    Na cadência do compasso
    Na ternura do momento
    No aconchego de um abraço

    Vamos parar o tempo
    Na batida do teu ato
    No frame do meu jeito
    No sorriso de um pensamento

    Vamos parar o tempo
    Na neblina da estrada
    Na pressa do efêmero
    Num sincero lamento

    Vamos parar o tempo
    Na aspereza de um beijo lento
    No mergulho de um fundo raro
    No suor de um passatempo

    Vamos parar o tempo
    Na maciez do amanhecer na praia
    Na palidez do outono pleno
    Na escassez da saudade

    Vamos parar o tempo
    Porque a vida pede um tempo
    Porque o tempo pede um tempo
    Porque esse é o nosso momento

    Vamos parar o tempo

    Na poesia das coisas todas

    No tic-tac das bodas

    Na inércia dessa segunda-feira tonta

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Vida urbana]

    [Vida urbana]

    ubiquidade
    sobriedade
    facilidade
    autoridade
    finalidade
    virilidade
    intimidade
    prioridade
    solenidade
    fatalidade

    modalidade

    segunda feira sem idade

    sonoridade
    felicidade
    quantidade
    imensidade
    tempestade
    serenidade
    mobilidade
    dificuldade
    austeridade

    amenidade

    perenidade
    na cidade

    segunda feira em sociedade

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    Capa da revista do The New York Times criada através de uma composição fotográfica de 62 pedaços, montados por uma equipe de 20 pessoas que chegaram ao local às 4 da matina do dia 11 de Abril e ficaram ali durante 3 horas e meia preparando essa imagem de 45 metros, que ocupa praticamente toda a superfície da praça. Um gigante que só pode ser visto do alto e que é invisível para os pedestres.

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  • [Details]

    [Details]

    São detalhes, mas dizem muito
    São frases soltas que saem da tua boca
    E até me convencem, atônitas
    Mas não por mais de um minuto
    Porque eu vejo, ah, eu vejo
    Eu vejo à medida que sinto
    Eu tenho à medida que brinco
    Tenho certeza até quando minto
    Infinito enquanto vinco
    Segunda-feira eu findo
    Tão lindo, tão lindo, tão lindo
    Não sei até quando insisto… 

     –
    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: 3D fractals created by scotland-based laser physicist-turned-artist and web developer Tom Beddard, aka subBlue. “They are truly fractal in the fact that more and more detail can be revealed the closer to the surface you travel. The fascinating aspect is where combinations of parameters can combine to create structural ‘resonances’ of extraordinary detail and beauty—sometimes naturally organic and other times perfectly geometric. But then like a chaotic system it can completely disappear with the smallest perturbation”, said the artist.

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  • [Sobre aniversário, velas, vento e fogo]

    [Sobre aniversário, velas, vento e fogo]

    Mais uma idade me engole
    À luz da metrópole
    Meus ouvidos dormem
    Numa canção de ninar
    Teu abraço me recolhe
    Antes que eu me apavore
    Quem sabe o dia demore
    Quem sabe a segunda-feira chore
    Tudo vai passar

    Talvez o vento sopre
    E as velas se apaguem
    Antes que eu deseje
    Meu desejo de aniversário
    Talvez eu mesma assopre
    As velas do meu bolo
    Antes de pedir socorro
    Ou de me impedir que falhe
    Talvez eu te fale

    Ou talvez eu grite
    Mesmo que seja involuntário
    A segunda-feira engoliu meu aniversário
    Foi até delicado
    Mas me virou ao contrário
    Seria cômico
    Se não fosse trágico
    No fundo, todo aniversário
    É um pouco solitário

    Meu suspiro é meu assopro
    Nas velas, belas
    No etéreo fogo
    Que se fazem de rédeas
    E iluminam meu bolo
    Calma lá, eu chego logo
    Valorizo o esforço
    E torço
    Pro fogo ser eterno


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

  • [Notícias molhadas]

    [Notícias molhadas]

    Vago pelas calçadas
    Largas passadas
    Estou tão cansada 

    Trago notícias molhadas
    Com vista para o mar

    Abra as cortinas
    Pro sol sair da esquina

    Abra os braços
    Pros atrasos
    Espaços

    Abra os pedaços
    Descalços

    Abra o passo
    Saia do asfalto

    Quero um abraço
    Estou tão cansada
    Segunda-feira passou num traço
    E sentou na calçada

    Minhas notícias molhadas
    Afogaram as mágoas
    Na praia

    Abra as cortinas
    Mas feche a janela
    O sol brilha na esquina
    E a chuva se faz bela

    Sente aqui comigo
    Na calçada sossegada 

    Que tal esperar o próximo domingo?

    Notícias molhadas
    Na vidraça
    Na ressaca
    Segunda-feira não basta

    Notícias molhadas
    Despedida encharcada


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    be panic…
    panicmonday.com.br
    panicmday@gmail.com

  • [Sobre o dia que queria ser noite]

    [Sobre o dia que queria ser noite]

    Só no mundo diluído
    quando o céu é distraído
    que eu consigo
    transformar o inferno cativo
    em pleno meio-dia
    esquecido

    Pesco afagos aturdidos
    colho asas de vagalumes perdidos
    e recito cânticos imaginários
    descubro defeitos encalhados
    e transformo tudo ao contrário

    Falo sem pensar
    pra quebrar o silêncio
    mesmo sem ninguém perguntar
    ou nem preparar o momento
    com certa prudência mental
    frente à tamanha impulsividade verbal 

    Mal a segunda-feira chegou
    meu sonho enfadonho evaporou
    enquanto o sol tropeçou
    nos teus calcanhares
    e você desmoronou
    de todos os meus andares

    Se a estrada é esburacada
    vamos construir uma escada
    que nunca se acabe
    meu amor, tudo ainda cabe
    na segunda-feira guardada
    da noite que se abre

    – 

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Magical long exposure photographs of fireflies parading about the forests of Nagoya City by Yume Cyan.

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  • [Poema puro, às vezes]

    [Poema puro, às vezes]

    Às vezes tenho vontade
    de adotar aquela frase
    que saiu inacabada
    da tua boca desenhada

    Às vezes, só às vezes
    tua saliva bordada
    parece ora um poema sedento
    ora uma prece, ora um segredo

    Ora um pranto lento

    Às vezes a segunda-feira chega
    como vírgulas no teu sorriso
    e me convidam ao abismo

    Às vezes eu nem ligo
    se teus cílios curvos
    são muros

    Ou se teu coração duro 
    quer me escrever no escuro

    Não precisa gritar, eu te escuto
    vamos fazer como da última vez?

    Pode cair, eu te seguro
    e às vezes até juro
    que este poema puro
    foi você quem fez


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The pencil on paper drawings of Julia Randall from Lick Line Collection: a series of disembodied mouths floating in space. “Rendered in exacting detail, the tongues protrude and beckon the viewer to come close. The mouth is the body’s critical site, where we eat, speak, kiss and bite; it is both ferocious and tender. We see the mouth and tongue all the time, yet they are highly intimate. Seen as a group the mouths undulate and bounce. Like many voices talking at once, they strangely invade our space with humor and perversity”.

    **

  • [No fear]

    [No fear]

    Do contra ao verso
    Nada mais lhe peço
    Nem que acertes meu nome
    Ou que andes certo
    Pelas ruas mortas
    Sem sobrenomes 

    Nem que passes perto
    Do meu peito aberto
    Because I know, my dear
    The end is near
    And I have no fear
    Do teu jeito avesso

    But you droped a tear
    No meu lenço seco
    I turned the wheel
    E apertei o passo
    Amarrei nós mil
    Num eterno abraço

    Segunda-feira a frio
    Alivia o cansaço
    Vem tomar banho de rio
    Vem me amar no espaço
    Mas nada mais lhe peço
    Nada mais lhe faço 

    Se esse arrepio
    Assusta teu vazio
    Amplie o compasso
    E olhe de novo
    Tudo o que você já viu
    Louco pássaro 

    — 

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: tatuagem no estilo aquarela publicada em galeria do site Catraca Livre.

    **

  • [Desprendimento]

    [Desprendimento]

    Se não consegues sentir o sabor da chuva nas uvas que colhes, procure comê-las enquanto ainda forem flores e carreguem no ventre minhas lágrimas circenses.

    Se queres um dia te tornar, perdidamente uma rosa, desista de tentar perfumar e aprenda a aquecer, só aquecer, indiscriminadamente o luar. Livra-te em mim, banha-te com meu néctar, embriaga-te. Descubra-te de todos os teus desprazeres e desvenda-te em mim. Carrego o perfume do jasmim por tudo o que jaz em mim.

    Sem corpo, sem crença, teu fogo me alimenta e a segunda-feira me tormenta, arrebenta, ostenta e fere os pecados com flechadas de porquês. Queria agora um gole de saquê pra chorar sobre as nuvens enquanto os vaga-lumes dançam sobre teus costumes.

    Queria agora desvendar todos os teus “ses”.

    Se a vida é breve, me carregue. Se o corpo pede, seja leve. Se o tempo tarda, não seja fogo de palha. A fala falha e a segunda-feira chega feito navalha.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The bloody Chamber, by Roberto Lanznaster.

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  • [Sobre chegadas e partidas]

    [Sobre chegadas e partidas]

    Flua, ele disse

    Na hora pensei em derreter

    Na hora pensei em desistir

    Na hora, na verdade, nem pensei 

    — Rua! — Foi o que ouvi, em riste

    Demorei a responder

    Agora não tem vez

    Lá fora a lua chora, eu sei 

    Tire o sapato ao entrar, por favor

    Ocarina sopra tempo, ardor

    Coração de chuva dança tango, meu amor

    Flua, ele disse

    Mas da caixa-de-música só vertia mel

    Segunda-feira em fúria, vendaval cruel  

    Doce guardado no guardanapo de papel

    Não vejo lua, não vejo céu 

    Derreti ao meio-dia

    Do dia que não veio

    Fluí em devaneio

    Porém, ainda receio

    Que a chuva no meu seio

    Seja o choro da lua

    Dançando feito bailarina nua

    No dia que me partiu ao meio 



    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: pintura especialmente criada por Fernando José Karl para este texto.

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  • [Mergulho]

    [Mergulho]

    Gotas de céu despencam

    no teu peito rarefeito

    feito chuva na vidraça

    tua aventura disfarça
    tua luta contra as algas

    segunda-feira sem graça

    angústia, pudor, demora

    o infinito dos teus olhos me molham

    Rochedos de águas impuras

    requebram almas capturas

    colidem pedras formosas

    lavam a carne cansada

    encontro nascente e atroz

    saudade sozinha de ti

    angústia, pudor, demora

    nos unem num corpo de chora


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: click de Tina Teresa by Luciano Sievers

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  • [Fantasia]

    [Fantasia]

    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda rima
    Et cétera e tal
    Tudo bem, eu vou por cima
    Apoteose surreal

    Hirtos lábios
    Momentos nulos
    Fantasia especial
    Apetrechos fulos
    Gula, fogo, folguedo sábio

    Vicissitude simulada
    Ninfas enlaçadas
    Calafrio de vozes sombrias
    Salivas arredias
    Guelras frias

    Guerras minhas
    Segunda-feira colossal
    Curvatura tua
    Destroços sem igual
    Meus ossos chiam

    Então dance
    Deixe que o corpo balance
    Acabou o carnaval
    Be panic, acabou o romance
    Marchinha infernal

    Então, vem, me contamina
    Darei-te tudo, não me cobres
    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda me consome
    Não precisa fechar a cortina

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Basée en République Tchèque, la photographe Bara Prasilova possède un univers féminin, pastel et empli de doux rêves. C’est avec une bonne dose de surréalisme et d’inspiration qu’elle met en scène des femmes pourvues de longues tresses dans des situations renversantes. Elle alterne entre ce genre de mise en scène loufoques et des images poétiques en pleine nature.

    **

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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