Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [No fear]

    [No fear]

    Do contra ao verso
    Nada mais lhe peço
    Nem que acertes meu nome
    Ou que andes certo
    Pelas ruas mortas
    Sem sobrenomes 

    Nem que passes perto
    Do meu peito aberto
    Because I know, my dear
    The end is near
    And I have no fear
    Do teu jeito avesso

    But you droped a tear
    No meu lenço seco
    I turned the wheel
    E apertei o passo
    Amarrei nós mil
    Num eterno abraço

    Segunda-feira a frio
    Alivia o cansaço
    Vem tomar banho de rio
    Vem me amar no espaço
    Mas nada mais lhe peço
    Nada mais lhe faço 

    Se esse arrepio
    Assusta teu vazio
    Amplie o compasso
    E olhe de novo
    Tudo o que você já viu
    Louco pássaro 

    — 

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: tatuagem no estilo aquarela publicada em galeria do site Catraca Livre.

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  • [Desprendimento]

    [Desprendimento]

    Se não consegues sentir o sabor da chuva nas uvas que colhes, procure comê-las enquanto ainda forem flores e carreguem no ventre minhas lágrimas circenses.

    Se queres um dia te tornar, perdidamente uma rosa, desista de tentar perfumar e aprenda a aquecer, só aquecer, indiscriminadamente o luar. Livra-te em mim, banha-te com meu néctar, embriaga-te. Descubra-te de todos os teus desprazeres e desvenda-te em mim. Carrego o perfume do jasmim por tudo o que jaz em mim.

    Sem corpo, sem crença, teu fogo me alimenta e a segunda-feira me tormenta, arrebenta, ostenta e fere os pecados com flechadas de porquês. Queria agora um gole de saquê pra chorar sobre as nuvens enquanto os vaga-lumes dançam sobre teus costumes.

    Queria agora desvendar todos os teus “ses”.

    Se a vida é breve, me carregue. Se o corpo pede, seja leve. Se o tempo tarda, não seja fogo de palha. A fala falha e a segunda-feira chega feito navalha.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The bloody Chamber, by Roberto Lanznaster.

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  • [Sobre chegadas e partidas]

    [Sobre chegadas e partidas]

    Flua, ele disse

    Na hora pensei em derreter

    Na hora pensei em desistir

    Na hora, na verdade, nem pensei 

    — Rua! — Foi o que ouvi, em riste

    Demorei a responder

    Agora não tem vez

    Lá fora a lua chora, eu sei 

    Tire o sapato ao entrar, por favor

    Ocarina sopra tempo, ardor

    Coração de chuva dança tango, meu amor

    Flua, ele disse

    Mas da caixa-de-música só vertia mel

    Segunda-feira em fúria, vendaval cruel  

    Doce guardado no guardanapo de papel

    Não vejo lua, não vejo céu 

    Derreti ao meio-dia

    Do dia que não veio

    Fluí em devaneio

    Porém, ainda receio

    Que a chuva no meu seio

    Seja o choro da lua

    Dançando feito bailarina nua

    No dia que me partiu ao meio 



    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: pintura especialmente criada por Fernando José Karl para este texto.

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  • [Mergulho]

    [Mergulho]

    Gotas de céu despencam

    no teu peito rarefeito

    feito chuva na vidraça

    tua aventura disfarça
    tua luta contra as algas

    segunda-feira sem graça

    angústia, pudor, demora

    o infinito dos teus olhos me molham

    Rochedos de águas impuras

    requebram almas capturas

    colidem pedras formosas

    lavam a carne cansada

    encontro nascente e atroz

    saudade sozinha de ti

    angústia, pudor, demora

    nos unem num corpo de chora


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: click de Tina Teresa by Luciano Sievers

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  • [Fantasia]

    [Fantasia]

    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda rima
    Et cétera e tal
    Tudo bem, eu vou por cima
    Apoteose surreal

    Hirtos lábios
    Momentos nulos
    Fantasia especial
    Apetrechos fulos
    Gula, fogo, folguedo sábio

    Vicissitude simulada
    Ninfas enlaçadas
    Calafrio de vozes sombrias
    Salivas arredias
    Guelras frias

    Guerras minhas
    Segunda-feira colossal
    Curvatura tua
    Destroços sem igual
    Meus ossos chiam

    Então dance
    Deixe que o corpo balance
    Acabou o carnaval
    Be panic, acabou o romance
    Marchinha infernal

    Então, vem, me contamina
    Darei-te tudo, não me cobres
    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda me consome
    Não precisa fechar a cortina

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Basée en République Tchèque, la photographe Bara Prasilova possède un univers féminin, pastel et empli de doux rêves. C’est avec une bonne dose de surréalisme et d’inspiration qu’elle met en scène des femmes pourvues de longues tresses dans des situations renversantes. Elle alterne entre ce genre de mise en scène loufoques et des images poétiques en pleine nature.

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  • [Achados e perdidos]

    [Achados e perdidos]

    Potes, bolsas, mochilas, bags,
    sacolas, necessaires, copos, chicletes,
    xícaras, cálices, pacotes, não me esquece
    Caixas, contêineres, garrafas, calhambeque…
    Recipientes me perseguem
    Aconchego me apetece
    Mais uma bolsinha pra minha coleção
    de crochê, matelassê, couro ou papelão
    Chita, papel machê, popeline ou macarrão
    Prometo que guardo junto ao coração
    ou aguardo um “até breve”
    pra não perder a razão

    O que cabe aqui dentro
    não tem desculpa, nem perdão
    Brinco, afinco, corrente ou cordão,
    concorrentes, memórias, pulseiras, incensos,
    pretendentes, histórias, rimas, bocejos,
    fofices, achados, perdidos, apreços
    Fica tudo fechado a laço, a zíper ou a botão
    Fica tudo fechado a fita
    Enquanto a lua fita meu vício
    meu suplício, desperdício
    segunda-feira, que aflição
    Fica tudo guardado num beijo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Zippers as Mouths by Fernando Lessa. These cosmetics photography shots take an avant-garde twist by incorporating wild accessories, hypercolor skin and ridiculously long eyelashes.

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  • [Azul ciano]

    [Azul ciano]

    Seria ansiedade?
    Ou pura adrenalina?
    Fuga da verdade
    Suco de tangerina
    Sem alarde
    Sem rotina
    Liberdade
    Na próxima esquina
    Tua vontade
    Minha sina
    Segunda à tarde
    Através da neblina
    Teu contraplano
    No reflexo da minha lamparina
    Teu assombro
    Minha morfina
    Azul ciano
    Ventania
    Só minha
    Cristalina


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Fotografia do céu azul by Tina Teresa

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  • [Bruxaria]

    [Bruxaria]

    Janela de vento que preenche luz
    Disfarça… vidraça de tápia
    vento em prosa, andaluz
    olhos adormecidos, azuis

    Rabiscos se entrelaçam entre nuvens radiantes
    troco versos, persiandas divididas
    cortinas frágeis, murmurantes
    mistério de bruxa escondida

    …segunda-feira dividida

    Poções mágicas
    vidraça embaçada
    bruxa curiosa, peripécias na janela enferrujada

    alquimia, trovoada inusitada
    espelho de ardor, gritos de noite
    magia inacabada


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: “Barasingha” – White charcoal drawing by Kris Kuksi .

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  • [Quem me dera]

    [Quem me dera]

    Quem me dera
    Repousar teu olhar 
    Na minha janela

    Pois se existe
    Algum lugar mais lindo
    É onde te vejo sorrindo
    De mansinho 
    Só pra mim

    Visita singela
    Vou pendurar uma arandela
    Aqui no alto
    Da minha janela 

    Só pra ver se teu olhar
    Vem me visitar

    Ah, quem me dera
    Se você ficasse quietinho
    E ouvisse o sussurro
    Do meu coração
    Que chora apertado
    Bem baixinho
    Que chora disfarçado
    Pelas penas que você perde pelo caminho
    Pelas cenas dos próximos capítulos 
    Pelas primeiras
    Pelas segundas-feiras 
    Pela delícias ligeiras
    E pelas carícias derradeiras

    Quem me dera
    Te amar sem medo
    Fazer do teu olhar
    Meu exclusivo luar
    Minha canção de ninar

    Quem me dera
    Teu ouvido na minha janela
    Confundindo pouso de mosquito
    Com pudim de canela

    Sei que não sou a mais bela
    Pra você ser minha fera
    Vociferando conclusões
    De sonhos esparsos 
    Falando ao relento
    Sobre o tempo e o espaço
    Falando sem parar
    Do futuro ao passado 
    Entre o dormir e o acordar
    Sem sequer esperar
    Meu coração descansar

    Ah, quem me dera
    Mas nem dormindo
    Você fica quietinho

    Irá você um dia
    Traçar um mapa de empatia
    Do meu talvez ao teu bom dia?

    Quem me dera
    Tua rebeldia
    Na minha janela
    Tua utopia
    Na tela pintada
    Na parede da sala
    No desenho que eu fiz
    Pra gente ser feliz

    Quem me dera
    Teu nariz
    No faro do meu triz


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: UK-based artist Robin Wight uses stainless steel wire to form stunning, dramatic sculptures of winged fairies dancing in the wind.

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  • [Vento]

    [Vento]

    Talvez o vento exista
    Pra dizer no teu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    E fazer no teu umbigo
    Uma parada extendida

    E então provar tua mordida,
    Anunciar a próxima rima
    E desenhar teu destino. 

    Talvez o vento exista
    Pra trazer a segunda-feira
    De mansinho, pelos cabelos
    Disfarçada de carinho
    Doce-de-leite no pão de centeio

    E então te alimentar,
    Adoçar teus pedidos
    E avisar o mundo…

    Que você já chegou
    Com os olhos sorrindo
    Tão confuso, tão menino
    Tão gigante, tão perdido
    Você chegou tão lindo

    E então me pediu que eu te levasse
    Daquele lugar tão tenso
    Seria você o vento?

    Ou um barquinho de papel?
    Esperando um impulso novo
    Um abraço apertado
    Uma segunda-feira alheia
    Uma brincadeira

    Pra então você navegar
    Sair zarpando desse cercado
    Dessa cidade invisível 
    De concreto armado
    E recitar no meu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    Uma promessa tão linda
    Que te desdobre no tempo
    Te transforme no meu vento
    Pra então você me levar
    E me bastar
    Me ganhar
    E me flutuar


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Série de ilustrações chamada de Trazo do artista mexicano com base no Rio de Janeiro Christopher Guzman Hernandez que, inspirado pelas belezas da cidade maravilhosa, resolveu dar um toque pessoal à paisagens clássicas do Rio de Janeiro desenhando cenas surreais sobre algumas fotografias.

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  • [Se vira]

    [Se vira]

    A gente se vira
    Na medida da pedida

    A gente se torce
    E torce pra dar certo
    No meu abraço eu te aperto
    No meu colo eu te espero

    E te protejo 
    Do sol, da chuva, do trovejo
    De tudo o que não prevejo
    Mesmo que teu tropeço
    Te escape do meu beijo

    Segunda-feira eu acordei
    E não te encontrei aqui
    Do meu lado, jogado
    Meu amor, vem ser meu rei
    Te quero sorrindo
    Com o cabelo zoado
    Te quero pedindo
    Pra eu virar pro teu lado

    Meu amor, tentei ser lei
    É segunda-feira, eu sei 

    Se chover a gente espera
    Ou se joga pelas beiras
    A gente reinventa uma arandela
    Uma calçada, uma ruela 
    Uma casinha amarela

    A gente se vira
    Segunda-feira a gente vira
    A página, a lágrima, a formiga

    Eu que o diga

    Vem deitar na minha barriga
    Pra espantar o frio que me intriga

    Vem deitar na minha vida
    Me tirar da rotina

    Tudo bem, a gente se vira
    Eu te protejo e você me abriga 
    Ou vice-versa 
    Não tenho pressa

    Na próxima segunda-feira 
    A gente faz festa


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: reinventing the ubiquitous garden chair, by Bert Loeschner.

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  • [Futuro desdobrado]

    [Futuro desdobrado]

    Eu quero um mundo perfeito
    Todo mundo tem esse direito
    Mesmo que o pânico nos teus olhos
    Deixe meu absurdo rarefeito

    Do fugaz ao plural
    Strawberry fields
    Borbulham sem igual

    O que naquele dia não podia
    Se transformou em rebeldia
    Contaminado por velhas juras
    Eu to aqui, eu te queria

    Dobras ralas se perdem
    Obras raras se encontram
    Encontro marcado não se mede
    Feliz pra sempre não se pede
    A nossa vida a gente monta

    Tenho um sonho dormente, no entanto
    Assim, bem do meu tipinho:
    um pacote de coisas boas e outras nem tanto
    E por isto mesmo interessantes
    E por isto mesmo nem me espanto
    Com teu sorriso em pranto
    Pois no meu peito te recolho
    Enquanto seco teu olho

    Segunda-feira taciturna
    Ilumina nossas diferenças
    Encanta nossas igualdades
    Desenha novas tatuagens
    E nos cola um no outro
    Perto o suficiente para nos vermos,
    nos ouvirmos, nos sentirmos,
    nos torcermos, nos esvairmos…
    Perto o suficiente para
    tornar o mundo perfeito

    Sabe quelas expectativas triviais que fazem nossos olhos brilharem?
    Pois é, você me desdobra e me descobre e me cativa
    Me faz ver o mundo por uma outra perspectiva
    Me faz sonhar à deriva no espaço de um beijo
    Entre um gole de café e um bocejo

    Então agora a gente comemora
    Com recheio de doce de leite com amora

    Então agora a gente vai embora
    Pra nossa lua de mel embrulhada em papel

    Então agora a gente se devora
    E sente que o presente é entorpecente

    Então agora a gente se demora
    Pois quem namora também chora
    E que venha o futuro afora
    Desdobrado, zoado, embarcado
    Já é hora


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Strawberry fields, acrylic on paper 24″x18″ by Marcelo Daldoce, a painter from Minas Gerais who lives in and works in New York City. His work is focuses on the terrain beyond the conventional two-dimensional landscape of paper and canvas. In bringing to life a flat surface, he strives to create a puzzle between what is real and what is illusion, what is painted and what is manipulated, turning paint to flesh, paper to sculpture. The figures are trapped on the folds of paper, representing old habits we gather from our parents, experiences, traumas… He believes nothing is more challenging than painting the human figure: it carries expression, feeling, history, and his goal is to bring it to life and make it say something (without saying anything at all).

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[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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