Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Achados e perdidos]

    [Achados e perdidos]

    Potes, bolsas, mochilas, bags,
    sacolas, necessaires, copos, chicletes,
    xícaras, cálices, pacotes, não me esquece
    Caixas, contêineres, garrafas, calhambeque…
    Recipientes me perseguem
    Aconchego me apetece
    Mais uma bolsinha pra minha coleção
    de crochê, matelassê, couro ou papelão
    Chita, papel machê, popeline ou macarrão
    Prometo que guardo junto ao coração
    ou aguardo um “até breve”
    pra não perder a razão

    O que cabe aqui dentro
    não tem desculpa, nem perdão
    Brinco, afinco, corrente ou cordão,
    concorrentes, memórias, pulseiras, incensos,
    pretendentes, histórias, rimas, bocejos,
    fofices, achados, perdidos, apreços
    Fica tudo fechado a laço, a zíper ou a botão
    Fica tudo fechado a fita
    Enquanto a lua fita meu vício
    meu suplício, desperdício
    segunda-feira, que aflição
    Fica tudo guardado num beijo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Zippers as Mouths by Fernando Lessa. These cosmetics photography shots take an avant-garde twist by incorporating wild accessories, hypercolor skin and ridiculously long eyelashes.

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  • [Azul ciano]

    [Azul ciano]

    Seria ansiedade?
    Ou pura adrenalina?
    Fuga da verdade
    Suco de tangerina
    Sem alarde
    Sem rotina
    Liberdade
    Na próxima esquina
    Tua vontade
    Minha sina
    Segunda à tarde
    Através da neblina
    Teu contraplano
    No reflexo da minha lamparina
    Teu assombro
    Minha morfina
    Azul ciano
    Ventania
    Só minha
    Cristalina


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Fotografia do céu azul by Tina Teresa

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  • [Bruxaria]

    [Bruxaria]

    Janela de vento que preenche luz
    Disfarça… vidraça de tápia
    vento em prosa, andaluz
    olhos adormecidos, azuis

    Rabiscos se entrelaçam entre nuvens radiantes
    troco versos, persiandas divididas
    cortinas frágeis, murmurantes
    mistério de bruxa escondida

    …segunda-feira dividida

    Poções mágicas
    vidraça embaçada
    bruxa curiosa, peripécias na janela enferrujada

    alquimia, trovoada inusitada
    espelho de ardor, gritos de noite
    magia inacabada


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: “Barasingha” – White charcoal drawing by Kris Kuksi .

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  • [Quem me dera]

    [Quem me dera]

    Quem me dera
    Repousar teu olhar 
    Na minha janela

    Pois se existe
    Algum lugar mais lindo
    É onde te vejo sorrindo
    De mansinho 
    Só pra mim

    Visita singela
    Vou pendurar uma arandela
    Aqui no alto
    Da minha janela 

    Só pra ver se teu olhar
    Vem me visitar

    Ah, quem me dera
    Se você ficasse quietinho
    E ouvisse o sussurro
    Do meu coração
    Que chora apertado
    Bem baixinho
    Que chora disfarçado
    Pelas penas que você perde pelo caminho
    Pelas cenas dos próximos capítulos 
    Pelas primeiras
    Pelas segundas-feiras 
    Pela delícias ligeiras
    E pelas carícias derradeiras

    Quem me dera
    Te amar sem medo
    Fazer do teu olhar
    Meu exclusivo luar
    Minha canção de ninar

    Quem me dera
    Teu ouvido na minha janela
    Confundindo pouso de mosquito
    Com pudim de canela

    Sei que não sou a mais bela
    Pra você ser minha fera
    Vociferando conclusões
    De sonhos esparsos 
    Falando ao relento
    Sobre o tempo e o espaço
    Falando sem parar
    Do futuro ao passado 
    Entre o dormir e o acordar
    Sem sequer esperar
    Meu coração descansar

    Ah, quem me dera
    Mas nem dormindo
    Você fica quietinho

    Irá você um dia
    Traçar um mapa de empatia
    Do meu talvez ao teu bom dia?

    Quem me dera
    Tua rebeldia
    Na minha janela
    Tua utopia
    Na tela pintada
    Na parede da sala
    No desenho que eu fiz
    Pra gente ser feliz

    Quem me dera
    Teu nariz
    No faro do meu triz


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: UK-based artist Robin Wight uses stainless steel wire to form stunning, dramatic sculptures of winged fairies dancing in the wind.

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  • [Vento]

    [Vento]

    Talvez o vento exista
    Pra dizer no teu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    E fazer no teu umbigo
    Uma parada extendida

    E então provar tua mordida,
    Anunciar a próxima rima
    E desenhar teu destino. 

    Talvez o vento exista
    Pra trazer a segunda-feira
    De mansinho, pelos cabelos
    Disfarçada de carinho
    Doce-de-leite no pão de centeio

    E então te alimentar,
    Adoçar teus pedidos
    E avisar o mundo…

    Que você já chegou
    Com os olhos sorrindo
    Tão confuso, tão menino
    Tão gigante, tão perdido
    Você chegou tão lindo

    E então me pediu que eu te levasse
    Daquele lugar tão tenso
    Seria você o vento?

    Ou um barquinho de papel?
    Esperando um impulso novo
    Um abraço apertado
    Uma segunda-feira alheia
    Uma brincadeira

    Pra então você navegar
    Sair zarpando desse cercado
    Dessa cidade invisível 
    De concreto armado
    E recitar no meu ouvido
    Uma prece, uma cantiga
    Uma promessa tão linda
    Que te desdobre no tempo
    Te transforme no meu vento
    Pra então você me levar
    E me bastar
    Me ganhar
    E me flutuar


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Série de ilustrações chamada de Trazo do artista mexicano com base no Rio de Janeiro Christopher Guzman Hernandez que, inspirado pelas belezas da cidade maravilhosa, resolveu dar um toque pessoal à paisagens clássicas do Rio de Janeiro desenhando cenas surreais sobre algumas fotografias.

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  • [Se vira]

    [Se vira]

    A gente se vira
    Na medida da pedida

    A gente se torce
    E torce pra dar certo
    No meu abraço eu te aperto
    No meu colo eu te espero

    E te protejo 
    Do sol, da chuva, do trovejo
    De tudo o que não prevejo
    Mesmo que teu tropeço
    Te escape do meu beijo

    Segunda-feira eu acordei
    E não te encontrei aqui
    Do meu lado, jogado
    Meu amor, vem ser meu rei
    Te quero sorrindo
    Com o cabelo zoado
    Te quero pedindo
    Pra eu virar pro teu lado

    Meu amor, tentei ser lei
    É segunda-feira, eu sei 

    Se chover a gente espera
    Ou se joga pelas beiras
    A gente reinventa uma arandela
    Uma calçada, uma ruela 
    Uma casinha amarela

    A gente se vira
    Segunda-feira a gente vira
    A página, a lágrima, a formiga

    Eu que o diga

    Vem deitar na minha barriga
    Pra espantar o frio que me intriga

    Vem deitar na minha vida
    Me tirar da rotina

    Tudo bem, a gente se vira
    Eu te protejo e você me abriga 
    Ou vice-versa 
    Não tenho pressa

    Na próxima segunda-feira 
    A gente faz festa


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: reinventing the ubiquitous garden chair, by Bert Loeschner.

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  • [Futuro desdobrado]

    [Futuro desdobrado]

    Eu quero um mundo perfeito
    Todo mundo tem esse direito
    Mesmo que o pânico nos teus olhos
    Deixe meu absurdo rarefeito

    Do fugaz ao plural
    Strawberry fields
    Borbulham sem igual

    O que naquele dia não podia
    Se transformou em rebeldia
    Contaminado por velhas juras
    Eu to aqui, eu te queria

    Dobras ralas se perdem
    Obras raras se encontram
    Encontro marcado não se mede
    Feliz pra sempre não se pede
    A nossa vida a gente monta

    Tenho um sonho dormente, no entanto
    Assim, bem do meu tipinho:
    um pacote de coisas boas e outras nem tanto
    E por isto mesmo interessantes
    E por isto mesmo nem me espanto
    Com teu sorriso em pranto
    Pois no meu peito te recolho
    Enquanto seco teu olho

    Segunda-feira taciturna
    Ilumina nossas diferenças
    Encanta nossas igualdades
    Desenha novas tatuagens
    E nos cola um no outro
    Perto o suficiente para nos vermos,
    nos ouvirmos, nos sentirmos,
    nos torcermos, nos esvairmos…
    Perto o suficiente para
    tornar o mundo perfeito

    Sabe quelas expectativas triviais que fazem nossos olhos brilharem?
    Pois é, você me desdobra e me descobre e me cativa
    Me faz ver o mundo por uma outra perspectiva
    Me faz sonhar à deriva no espaço de um beijo
    Entre um gole de café e um bocejo

    Então agora a gente comemora
    Com recheio de doce de leite com amora

    Então agora a gente vai embora
    Pra nossa lua de mel embrulhada em papel

    Então agora a gente se devora
    E sente que o presente é entorpecente

    Então agora a gente se demora
    Pois quem namora também chora
    E que venha o futuro afora
    Desdobrado, zoado, embarcado
    Já é hora


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Strawberry fields, acrylic on paper 24″x18″ by Marcelo Daldoce, a painter from Minas Gerais who lives in and works in New York City. His work is focuses on the terrain beyond the conventional two-dimensional landscape of paper and canvas. In bringing to life a flat surface, he strives to create a puzzle between what is real and what is illusion, what is painted and what is manipulated, turning paint to flesh, paper to sculpture. The figures are trapped on the folds of paper, representing old habits we gather from our parents, experiences, traumas… He believes nothing is more challenging than painting the human figure: it carries expression, feeling, history, and his goal is to bring it to life and make it say something (without saying anything at all).

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  • [Assim, pendurada]

    [Assim, pendurada]

    Eu quero que você me leve
    Assim, pendurada
    Dentro desse teu oceano de histórias

    Quero contemplar cada aventura breve
    Sem que o tempo me enerve
    Ou me transcenda
    Enquanto a memória escapa
    Basicamente quase sem nexo
    Tentadamente do avesso
    Tudo começa com um beijo
    Até a (des)razão
    Ou as angúrias do coração

    Se tenho coragem na ponta da agulha
    Leve-me a lugares que me mudem
    Assim, pendurada
    Pra eu perfurar a mais sutil fagulha
    E para que teu oceano me inunde

    E se fatos diferem de escolhas
    Carregue-me antes que eu morra
    Assim, pendurada
    Desenhe-me nas suas bolhas
    …de sabão
    Eu juro que não
    Não te abandonarei jamais
    Mesmo que as alças do destino
    Fiquem pesadas demais
    Mesmo que esse teu desatino
    Te faça andar pra trás

    Talvez a segunda-feira sirva
    Pra te encantar
    E para que a poesia te siga
    E que teu oceano
    Que tanto me intriga
    Desague tudo o que te abriga
    E me carregue
    Assim, pendurada
    Mesmo que você negue
    O frio que te dou na barriga

    Segunda-feira, seja bem -vinda


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The Ocean of Story – Tote bag – by Ilovedoodle.

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  • [Alfaiataria]

    [Alfaiataria]

    Deixe-me costurar minha vida na tua
    E admirar a estrela vespertina
    Que ilumina meus sonhos de menina
    E me leva pra rua

    Deixe-me recortar as bordas do teu peito
    Até achei que eu não tinha esse direito
    Só que tem coisa que merece o meu bocejo
    E minha fé pura

    Fatos versus argumentos
    Padecem no firmamento
    A causa é nobre, eu entendo
    Mas a batalha é podre

    E muita coisa não tem preço
    Muita coisa é só apreço
    Muita coisa fica em segredo
    Muito se quebra feito gesso

    Se foi assim desde o começo
    Eu faço um ponto e te costuro todo
    Num novo ensejo
    Vem comigo, vem ser meu aconchego

    Só assim eu apareço
    E aparento costurar teu futuro
    No meu peito
    Saudade, te despeço

    Deixa que eu seja teu sossego
    Segunda-feira te desejo
    Enquanto padeço
    Em teus lábios desfeitos…


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Ukraine-based fine art photographer Oleg Oprisco’s imaginative photographs — featuring mysterious young women, fantastical props, and hazy, dreamy colors — evoke a strong sense of otherworldliness, as if they depict scenes from fairytales or ethereal realms.

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  • [Onde o coração está]

    [Onde o coração está]

    Sempre duvidei da tua perfeição
    E do teu mundo paralelo
    Emoldurado por palavras
    Entre o coral e o amarelo

    Duvidei do coração
    Pelo quanto de nós que você esquecia
    Cada vez que o sono fugia
    E abocanhava tua podridão

    Duvidei das nossas prioridades mundanas
    Tantas vezes irônicas
    Julgamos ser o que mais desejamos
    E nos perdemos num ciúme insano

    Duvidei do nosso querer insaciável
    E das tuas fantasias eletivas
    Escolhi mudar o imutável
    Pra sentir aquele frio na barriga

    Te fiz nobre
    Te fiz rato
    Pensei ser forte
    Ardi no asfalto

    Duvidei que teus versos
    Trariam lágrimas
    A meus olhos decrépitos
    Sorvendo páginas e páginas

    Enquanto teus livros fétidos
    Ganhavam prateleiras
    E cabeceiras
    De amantes céticos

    Duvidei da segunda-feira
    E da minha vida alheia
    Sobrevivi, mesmo feia
    Senti na veia

    Porque se lar é onde o coração está
    Com você o meu não tinha onde morar

    Duvidei da verdade
    E da pseudo liberdade
    Que você me dava
    Encolhendo minhas asas

    Se foi timing ou desatino
    Tracei meu novo destino
    E aprendi a amar teu conflito
    Que hoje apenas admiro

    Eu sei, eu consigo

    Pois do teu talento
    Ah, do teu talento
    Deste eu nunca duvidei
    Cedi meu tempo
    Perdi um pouco do jeito
    Sambei na cara do respeito
    Aprendi na marra, bem feito
    Desenhei um mocinho
    Pra descasar do bandido…

    E foi então que me encontrei


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Desenho em garrafa do projeto Toka, da designer e ilustradora portuguesa Marta Carvalho, que seleciona e desenha em garrafas vazias usando uma caneta do tipo Posca.

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  • [Jardim]

    [Jardim]

    Você e seu jardim
    Um olho na terra
    Outro no jasmim
    Queria uma festa
    Pra bailar sem fim
    E fazer teus dois olhos
    Se virarem pra mim

    Fico aqui tão desmedida
    Tanta coisa borbulhando
    Ainda pra ser dita

    E você aí, todo enterrado
    Desde sei lá quando
    Desbravando raízes
    Descobrindo enquantos
    Talvez sonhando
    Com vivaz matizes

    Tenho ciúme das suas flores
    Que bebem suas lágrimas
    E mastigam minha dores

    Um dia ainda quero ser flor
    Assim, do nada e por tudo
    Pra ganhar o seu calor
    Me despetalar de amor
    E morrer dentro dos seus olhos

    Numa segunda-feira qualquer
    Seja como for


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: O JARDIM DO MONGE WU, uma pintura de Fernando José Karl.

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  • [Hipnotizada]

    [Hipnotizada]


    Olho o tempo

    E busco teu cheiro

    Olho o mesmo céu

    Que cobre

    Teu corpo inteiro

    Olho o muro

    Que esconde o mundo

    Olho o véu

    Sem fundo

    Olho o vento

    Coração atento

    Janela ao relento

    Sigo lendo

    Cada pensamento

    Olho o tempo

    E amo cada segundo

    Desse mundo surdo

    Que grita

    Tua ortografia erudita

    Pra dentro

    Sem tempo

    Do meu quarto

    E parto

    Pro teu abraço

    Enquanto reparto

    Cada réveillon

    Numa nova segunda-feira

    Fico assim de bobeira

    Entregue

    Absurdamente leve

    Então me leve

    Cante um reage

    Toque uma canção

    Pra me ninar

    E me hipnotizar

    Enquanto olho

    Esse mundo alho e óleo

    Enquanto choro

    E te decoro


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Street art d’une série nommée «Lock, Poster and Shutters». Lors d’une escapade à Istanbul, l’artiste Pejac a associé ses talents de dessinateur aux influences orientales du pays pour peindre des moucharabiehs et des mises en abîme de serrures sur les murs. Le résultat, très réaliste, crée une véritable illusion.

    **

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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