Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Pulga ninja]

    [Pulga ninja]

    Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

    Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

    Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

    Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

    Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

    Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

    Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

    Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

    Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

    Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

    No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

    Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

    Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

    Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

    Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Photo by Tina Teresa

  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Photo by Débora F. da Cunha

  • [Paraíso]

    [Paraíso]

    Para quem? Paraíso
    Para mim, apenas riso
    Seria mesmo tudo isso?

    Para tudo! Vem me acordar…

    Cochicha no meu ouvido que o café tá pronto
    Ajeita meu cabelo que ainda tá no sonho
    E beija minha boca enquanto eu durmo mais um pouco
    Então me ama num suspiro morno
    Na segunda-feira sem retorno

    Para com isso, tem pão com manteiga no forno
    Vem me dar um banho
    Lava o meu cabelo que ficou suado
    Você tinha até ajeitado o cabelo pro lado
    Mas do sonho só sobrou gemido
    Beijo teu no meu paraíso
    Segunda-feira tem arrepio

    Para quem? Não para não!
    Seca o meu cabelo que ficou molhado
    Amassa bem pra ficar ondulado

    Me amassa, meu bem, te quero jogado
    Aqui do meu lado, atravessado, entregue, caído
    Me deixa morder tua orelha, faz de conta, distraído

    Deixa eu me apaixonar pela rotina que você não tinha
    Deixa eu beber a mágoa que você não apaga
    Deixa eu te convencer que minha urgência é surreal
    E que meu paraíso não é artificial

    Espalha meu cabelo que você acabou de ajeitar
    Deixa eu me acostumar com teu bom-dia, todo dia
    Puxa meu cabelo que você acabou de espalhar
    E me ama com a saudade que bate na manhã fria
    Na segunda-feira ao raiar do dia

    Beija meu cabelo que você acabou de puxar
    Morde meu desejo que você acabou de matar

    Para quem? Para mim, só pra mim
    Paraíso insuficiente que eu acabei de inventar
    Paraíso verve em qualquer idioma
    Universo ferve enquanto a pressa me abandona
    Segunda-feira já era, paradise inflama

    Torce meu cabelo que você acabou de puxar
    Realiza o meu desejo que você acabou de beijar
    Combina tua rima com esse clima que acabou de surgir
    Escreve comigo uma nova estrofe pra gente cantar
    Uma estrofe que não deixe esse mundo ruir

    Para quem? Para-raio
    Pra qualquer coisa séria virar amenidade frágil
    Ou qualquer outra esfera me embriagar fácil

    Arruma o meu cabelo que você acabou de torcer
    Enquanto sobrevivo entre a desconfiança das aparências
    E o confronto da convivência
    Enquanto decido se me entrego ou me arrependo
    Se me insiro na fotografia e te surpreendo
    Ou se procuro o que não entendo

    Paraíso etéreo me recicla
    Acaso timbrado enamorado

    Para quem? Para tudo
    Pare o tempo, fique surdo
    Fique comigo, meu abismo
    Tempo desnudo
    Paraíso parado no mundo

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Art ‘PARADISE’ by INSA x ROIDS, Painted for POW!WOW! Hawaii, Honolulu 2014.

  • [Acho]

    [Acho]

    Sua vida não é um caso raro, muito pelo contrário.

    Você não quer incomodar, não quer interromper meu sono, não quer tomar meu tempo.

    Porém, só o que você faz são trapalhadas: vem quando não deveria, diz algumas bobagens, fica um pouco nervoso…

    Você diz que sou linda, agradece a acolhida, e então, no seu ímpeto de pensar demais, de viver uma utopia, de tentar apressar o dia-a-dia, você espera não ter me decepcionado “de alguma forma”.

    Espera equivocada, pois você decepcionou sim. Não foi a aparência, tampouco a insistência ou a falta de eloquência.

    Foi por pensar demais. Por não se deixar levar. Por não ser pontual, por não ser honesto, por achar que meu discurso era só resto de uma história que você não ouviu.

    Então você resolve fazer um relato. Mesmo já avisando que o acha irrelevante, desnecessário e indiferente.

    Tão indiferente quanto sua visita atrapalhada, sua presença atrapalhada, meu abraço frouxo.

    Sim, você errou em tentar explicar o inexplicável e apontar o invisível a alguém que sabe que está lá mas finge não existir nem em si corrompido pelo conforto de uma suposta permissão encontrada na passividade para analisar, subjugar, ignorar.

    Então você se lembrou da sua história, do mundo, do sistema, do marketing, da teoria da evolução, do ateísmo, do cristianismo, da hipocrisia, da mentira, da verdade, da realidade.

    Você se lembrou que não deve fazer isso novamente, e a razão é simples… você também analisa, subjuga, ignora.

    E por tudo isso é que eu acho que você é poeta numa segunda-feira discreta.

    Acho que você vê o mundo (e as pessoas) de uma maneira única e até um pouco doentia.

    Acho que você pensa demais. Sim, eu já disse isso, e continuo achando. E inclusive acho que é isso que te cega.

    Acho que você perde tempo demais tentando julgar, tentando entender, tentando justificar, tentando encontrar motivos que lhe abram os olhos ou os caminhos ou os sorrisos ou os braços para que o abraço seja apertado e não frouxo.

    Acho que você tem razão em tudo justamente por apenas pensar e na verdade não saber de nada.

    Acho que você vive em busca ao invés de ser. Ao invés de existir. Ao invés de acontecer.

    E eu também acho que você me inspira com sua incrível filosofia engatada. Com seu discurso “eu não devia” mas tentando. E ainda assim buscando. E não sendo.

    E eu acho que você mais diz do que faz.

    E também acho que seu relato não existe.

    No seu discurso há desabafo, sim. Há peso. E até há alma. Mas não há vida.

    Acho, ainda, que você treme enquanto pensa.

    E que você se sente obrigado a sorrir porque se você tem vencido todos os obstáculos que surgem em seu caminho, você deveria ser feliz, mas não é.

    Eu acho que é isso que você acha. Mas eu não sei. Eu apenas acho. Só acho.

    E também acho que você está mais preocupado em mostrar quem você é (ou quem você pensa que é, ou quem você gostaria de ser) e imaginar quem eu sou (ou quem você gostaria que eu fosse) a me perguntar quem eu imagino ser, quem eu quero ser, me ouvir, me conhecer.

    Você me dá informação demais, escolhas demais, opções demais, definições demais, conclusões demais, lamentações demais, decisões demais, trapalhadas demais.

    E eu também acho que você se precipita. Ok, eu só acho. Porém se eu só acho, você definitivamente não sabe de nada.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Art: Hug me by Chuck-tan.

  • [Pulp]

    [Pulp]

    Falei demais
    Brinquei com as palavras
    Poupei o pranto

    Dei de comer aos versos
    Sem querer, confesso,
    amei all the time…

    Sabe, the days of me forgetting are over
    And the days of me remembering have just begun
    I can enjoy the silence with a smile
    But if you play with my matches, you’ll get burned

    Como é que as coisas funcionam?
    Mocinhos nem sempre ganham no final
    De vez em quando as palavras nos abandonam

    If my answers frighten you…
    Then you should cease asking scary questions
    Don’t you think? Vamos rechear todo nosso resto?

    Não existe riso redondo, perfeito, completo
    Existe riso repleto de palavras escondidas
    Você fala a minha língua?

    Palavras consumidas fade away
    Esvaziando a memória que habita
    …ora densa, ora delicada…
    Na cortina da sua mordida

    I can’t count all the ways I’ve died for you
    All I can say is “my words’ got blue”
    Pra não desgastar, pra não afastar ou apagar
    Pra não consumir o seu sentido próprio

    Don’t let them make up your mind
    Minhas palavras cheias de intensidades
    São sinceras atmosferas
    Na melhor combinação

    Nem sempre simples, nunca óbvio
    Palavras são telescópios
    Que recheiam nosso pódio

    Dança comigo?
    Por uma manhã, uma tarde, uma noite, dois dias…
    Quero mais intensidade do que duração
    Sem obsessão ou possibilidade de frustração

    Não quero que a saudade roube a felicidade
    Quero somente o que a gente já tem
    Uma liberdade a dois cheia de depois
    Cheia de palavras imperfeitas
    Recheada de segundas-feiras

    Tudo bem? O quê que foi?
    Falei demais?
    Foi por amor


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Artwork by Genie Melisande

  • [Ao redor]

    [Ao redor]

    Sigo petiscando saudade
    Ao final de cada estação
    Na vibe entre o sim e o não

    Se o instante feliz vira desejo
    Choro diante do espelho
    (Ao redor) do meu sossego

    Lembro do timing que nos aproxima
    Tento enxergar a saudade na colina
    São seus braços misturados à neblina?

    O que temos em comum
    é o que nos diferencia
    (Ao redor) da luz do mesmo dia

    Deixo que as lágrimas levem
    Todo o traço, todo o cheiro
    Cicatriz de apego derradeiro

    Tão longe, tão perto
    Desalinha o meu deserto
    (Ao redor) do meu avesso

    Do outro lado da linha,
    a mesma lua, o mesmo teto
    O mesmo tempo incerto

    A nossa valsa, o nosso samba
    Na corda bamba a gente dança
    (Ao redor) da volta-e-meia da ciranda

    Cedo demais ou depois de horas?
    Andar pra trás te traz de volta?
    Atrás da porta eu guardo a bossa

    Essa demora faz bagunça
    Lambuza as noites, esfria os dias
    (Ao redor) das asas da alegria

    Cozinho o sono num banho morno
    Afogo a fome numa nuvem de espuma
    Atraso o sonho no edredom de outono

    Haja fôlego pra essa espera instável
    Até a segunda-feira pula a cerca
    (Ao redor) da mesma dúvida inefável

    Então a ressaca da resposta azeda,
    abandona na esquina da lembrança
    a vontade esmagada feito folha seca

    Quero cores, amores e beijos sem fim
    Vê se não esquece de ligar pra mim
    (Ao redor) do aroma do meu chá de jasmim

    Senão a saudade vira aperitivo, vira estopim
    Porque você escolheu meu jardim
    pra plantar suas flores de cetim

    Eternal sunshine, confunde a mente
    Difunde o brilho do sol ao ventre
    (Ao redor) da vida, bem na sua frente

    Onde será que guardei a memória
    Do nosso passo colorido na calçada
    Foi nessa spotless mind iluminada?

    Por isso deixo o dia à luz da noite
    Hipnotizo a liberdade absorta
    (Ao redor) de cada pétala solta

    Sobrevivo, sobrevoo, sinto, pouso
    Deixo todo meu destino envolto
    Pelo brilho do sorriso no seu rosto

    A mesma lua, o mesmo teto
    Petisco saudade até acabar o inverno
    (Ao redor) da lembrança deste brilho eterno


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Photo by @leodorio_

  • [Talvez, carpe diem]

    [Talvez, carpe diem]

    Talvez seja melhor você não pagar suas dívidas comigo
    Talvez meu pânico vire sonho se pairar dúvida sem brilho
    Toda vez que eu sinto frio ou quando eu me viro

    Talvez seja melhor essa sensação ilusória de certeza
    A permitir que a mente crie cenários dementes na aspereza
    Na tentativa de evitar que o bom humor vire tristeza
    Na defesa dos sorrisos, dos abraços, dos suspiros
    Toda vez que seu momento coincide com meu abrigo

    Talvez seja melhor sobreviver me lambuzando com geleia de amora
    A esperar seu bom-dia entorpecido num buquê de “onze-horas”
    A sonhar com seu desejo esquecido misturado com saliva
    Ou ouvir o que você me diz com suas palavras mofadas
    Toda vez que sua escolha coincide com minha alvorada

    A vida não é um teatro com tudo ensaiado e combinado
    Não tenho ideia do que é certo (ou errado?)
    Não tenho ideia do que é estar sempre por perto (ou do lado…)

    Não gosto de esperar. Nem de soluçar…
    Talvez seja melhor eu lembrar de respirar fundo
    Pra aliviar a voz ao falar contigo, toda vez que você ligar

    Paciência nunca foi meu forte
    I love and hate monday in panic
    Encontrar você foi um gole de sorte
    Uma vírgula sortida na delícia da despedida
    Na malícia da segunda-feira bandida

    Talvez seja melhor dizer o que se quer dizer
    Com palavras certas em frases incertas
    Ditas sem pensar no que se quis permitir
    Ditas sem pedir o que ficou prometido
    Do que calar e deixar o sonho fluir

    Será?

    Talvez seja melhor falar sem medir
    A fingir palpável o alcance frágil
    Toda vez que você me invade

    Talvez seja melhor aguardar a segunda-feira
    A esperar presença, sentença e aconchego
    Na crença de que sua alma me pertença

    Você pra mim é só isso e tudo isso
    Algo que ainda não defino
    Se é que algum dia ainda te sinto

    Talvez seja melhor carpe diem
    Mesmo que eu queira de segunda a segunda
    Por crer que momentos a gente aproveita ainda melhor
    Em companhia de quem nos incendeia
    Toda vez que amanhece uma nova segunda-feira

    Que te parece?

    Talvez seja melhor parar o mundo
    Toda vez, todo segundo
    Talvez eu queira existir, só existir
    Talvez eu queira partir
    Partir meu coração, abrir minha vida
    Dividir meu cheiro, meu caminho inteiro
    Pra ladear contigo e alardear sorrisos
    Talvez seja melhor beber um vinho
    Talvez seja melhor compartilhar seu limbo
    Toda vez que eu desafio
    A afinidade e a contrariedade nos nossos sons
    Que brincam entre ventos e marés
    Feito palavras que vêm e vão
    E ecoam e ressoam em modulações

    Talvez seja melhor…
    Secar o suor.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Photography by Josephine Sicad

  • [Intervalo]

    [Intervalo]

    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    The day I left behind was the day I lost in time
    No (con)fuso horário onde tudo é claro
    What’s yours? What’s mine?
    Não faz sentido, contudo eu calo
    E peço abrigo por onde passo
    Perdi um dia no fuso horário
    Segunda-feira virou relicário
    Você está perto do meu perigo
    Do meu silêncio, do meu castigo
    Do intervalo do meu dia perdido

    Tudo bem, querido…
    A despeito do meu cortejo
    Reflito de leve seu bocejo
    E lacrimejo meu soluço no seu umbigo
    Quem mora ao lado é o mendigo
    O que eu não falo é o que te mantém comigo
    O que eu sinto é o que te faz tão lindo
    Por tudo o que eu quero é que não brigo
    Tão distante, tão carente, tão latente
    Segunda-feira de bobeira eternamente
    Intervalo tão raro que persigo

    O que sustenta de repente
    Este dia tão quente que perdi na mente
    [Por permitir pairar feito um voo de parapente
    Todas as palavras que ficaram dormentes]
    É o que eu não digo e guardo discretamente
    No meu sorriso aflito
    No meu olhar decidido
    No meu abraço inerente
    No meu coração insistente
    Na segunda-feira impaciente
    No intervalo que inseri entre a gente

    O dia que perdi no tempo
    Deixou meu cabelo esquisito
    O tempero que ganhei ao relento
    Foi regalo ou foi evento?
    Foi angústia que ainda lembro
    Do dia que tornou-se antigo
    Da promessa que não necessito
    Da segunda-feira que esperei afinco
    Do que você acha que eu não consigo
    De tudo o que escrevo e não digo
    Do intervalo que perdi contigo

    Praticamente não distinguo
    Não percebo, não atinjo
    Não escolho, apenas colho
    Tuas palavras que repousam no meu sonho
    Palavras presas me chamam de princesa
    E se desprendem da alegria e da tristeza
    E encontram uma segunda-feira travessa
    Palavras disfarçadas de Fio Vermelho do Destino
    Palavras destinadas a tocar vidas ao vento
    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    Do intervalo do beijo que paralisei no tempo


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Art: cat yarn bowl by Felicia Nilson

  • [Amor, adorno, deslize ou abandono?]

    [Amor, adorno, deslize ou abandono?]

    Te cansastes de mim, foi isso?
    Preferistes o tempero ácido
    ao meu olhar nostálgico?

    Escolhestes a rebeldia
    ao meu abraço no final do dia?
    Te cansastes da minha poesia?

    Nas noites de anteontem
    Deparei-me com tuas pupilas brilhantes
    Mascando faíscas crocantes

    É evidente, ninguém é vidente
    Mas o que salta aos olhos dói no ventre
    E o que ecoa fica à toa, dormente

    Queria ser odalisca
    Orbitar tuas pupilas distantes
    Te cansar e te deixar ofegante

    Para que não me deixes
    Para que me desejes e me incluas nos teus planos
    Para que me convertas em momentos insanos

    Queria te gostar menos
    Pois se te cansastes de mim quando te recebi sempre contente
    Foi por tonta sintonia, por entrega, por magia

    Te cansastes de mim e não me avisastes
    Logo vi que a demora eram horas gastas em novos semblantes
    Everybody lies, não precisa me lembrar, não te quero petulante

    Te cansastes de escolher?
    Ou de pagar pra ver? Te cansastes do meu café?
    Te cansastes de querer que o mundo girasse em marcha à ré?

    Falando em passado…
    Na segunda-feira, do teu lado
    Notei que a gentileza era fachada

    Te esquecestes de manter a boca fechada
    Te entregastes nos comentários marcados
    E me perdestes num suspiro estalado

    Quantas vidas queres levar?
    Quantos sorrisos partidos ainda esperas ganhar com tuas investidas sortidas?
    Quantas figurinhas queres colecionar com esse discurso amassado?

    Queria tanto saber quem tu és
    Se é que algum um dia sabemos quem realmente somos
    Se é que algum dia entendemos se o que escolhemos é amor, adorno, deslize ou abandono

    Queria tanto entender por quê me perguntas tanto
    Se eu me largo aos cantos, se eu me esmago em prantos
    Eu te aguardo, por enquanto. Apenas por enquanto… Porque eu também me canso.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Sendo]

    [Sendo]

    Menina sendo moleca
    Pôr-do-sol sendo caminho
    Reflexo sendo menino
    Caminho sendo natureza
    Mar sendo destino
    Coruja sendo surpresa
    Estrada sendo certeza
    Destino sendo jipe
    Menina sendo gata
    Vontade sendo segunda-feira
    Natureza sendo poesia
    Pôr-do-sol sendo trilha
    Bagagem sendo janela
    Surpresa sendo cachorro
    Trilha sendo presente
    Reflexo sendo escolha
    Certeza sendo manha
    Viagem sendo tempo
    Hoje sendo mar
    Escolha sendo acaso
    Devaneio sendo viagem
    Cachoeira sendo abraço
    Manha sendo bobagem
    Companhia sendo paz
    Tatuagem sendo destino
    Panic sendo Monday
    Janela sendo surpresa
    Amigas sendo irmãs
    Acaso sendo destino
    Cenário sendo menino
    Vertigem sendo cachoeira
    Menina sendo princesa
    Segunda-feira sendo feriado
    Passeio sendo carinho
    Beleza sendo devaneio
    Areia sendo cenário
    Bobagem sendo companhia
    Princesa sendo bom-dia
    Ritmo sendo perfeito
    Música sendo coração
    Hoje sendo paisagem
    Tempo sendo vontade
    Carinho sendo pôr-do-sol
    Abraço sendo fé
    Paz sendo música
    Destino sendo beleza
    Cachorro sendo areia
    Paisagem sendo surpresa
    Reflexo sendo menino
    Menina sendo coruja
    Presente sendo música
    Feriado sendo natureza
    Presença sendo vertigem
    Coração sendo hoje
    Escolha sendo presente
    Poesia sendo trilha
    Surpresa sendo bagagem
    Cumplicidade sendo tatuagem


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Arte by @yugi

  • [Enquanto eu respiro]

    [Enquanto eu respiro]

    Cada vez que você vai embora, nossos corpos ficam entrelaçados no meu pensamento. 

    Enquanto minha pele esfria, a lembrança do tom da tua voz me anestesia. 

    Não quero só na próxima segunda-feira, eu quero todo dia, eu quero agora.

    Cada vez que você me namora, tua mordida me ensina uma rima nova que me renova. 

    Enquanto a noite se esvazia, minha alma macia se abastece dos teus sonhos risonhos. 

    Durante o dia, apenas conto. Apenas guardo cada cheiro solto. E aguardo seu retorno morno. 

    E percebo que o ensaio torto fez efeito. Se foi placebo, não me lembro. Se foi momento, não tenho medo. 

    Ainda há tanto pra descobrir, pra inventar, pra sorrir. Ainda o muito vai fazer visita por aqui. 

    Então fecho os olhos e permito. Não demoro, não reflito. Apenas sinto tua presença sincera enquanto eu respiro. 


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday 

  • [Sob a orelha do elefante]

    [Sob a orelha do elefante]

    Sempre muda alguma coisa
    Passo manco
    Solavanco
    Toda a culpa
    Todo encanto
    Fico muda
    Fico estanque
    Guardo o pranto na estante
    Sinto passos de elefante
    Engulo seco e desço
    Do alto do meu tropeço
    Engulo sangue e esqueço
    Que grito não mata sede
    Que lacre não prende alma
    E corrente não acalma
    Rasgos de memória
    Nem remendos de história 

    O sagrado é degradado

    A cor nublada ganha sardas

    Duchas de saliva com terra

    De mordidas com treva

    Despedidas a ingressos contados

    Cada golpe, cada trote

    Cada pose, cada toque…
    grava um marco no meu ventre 
    Enquanto sopro de trás pra frente 
    E sua voz me faz demente 

    Então na lenda onde existo

    Penso no fino e leve cisco

    Que adentra meu sonho apertado

    E pousa no meu olho fechado

    Assim eu choro quando te vejo

    E me curvo ao teu desejo…
    de montar minha pança torta 

    E dançar feito gelatina

    E sentir-se maior que qualquer esquina

    Com o orgulho na retina

    Mas com o estômago encolhido

    E o coração ferido 

    Eu sei

    Eu sinto 

    Mesmo que eu já não ande

    E que o sol misture meu nome

    Com tua beleza radiante

    Sempre muda alguma coisa

    O depois é pra sempre

    Nunca mais é o que era antes

    Se orelhas fossem asas

    Não haveriam elefantes 

    … 

    Nem deuses, nem preces

    Nem causas despedaçadas

    Nem passeios deslumbrantes

    Ou rastros verdejantes

    Nem razão ou prosperidade

    É essa a sua prioridade?

    Segunda-feira por liberdade

    Ou vaidade por alma lavada? 
    …Deixe que te levo 

    Eu sei

    Eu sinto 

    Eu enxergo colorido

    Eu salto agora e já não minto

    Infinito largo meu passo

    Grito surdo no teu abismo 


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

    Arte by Robert Jahns.
    ..

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
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