Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Exangue]

    [Exangue]

    (e.xan.gue) [z]
    1. Adj. Que perdeu todo ou quase todo o sangue.
    2. Fig. Desprovido de forças; EXAUSTO; débil, fraco.
    [F.: Do lat. ex-sanguis]

    Ouvi Zeca Baleiro ao chegar. Entrei deslizando.
    “…triste, tristinho…” Desapontado. Sombreado.
    Riscado num tempo suspenso pela pausa entre os adjetivos que cobria a vastidão das emoções. Num silêncio devastador compartilhado apenas por aqueles que já se conhecem.

    Então te vi ali. Desenhado. Caído. Apagado.
    Exangue. Bumerangue. Esgotado. Entregue. Contornado.
    Transfigurado pela falta de cor por conta do sangue que se esvaiu. Rebuscado pelo abandono de um lápis sem dono que tão perto do deserto dos teus sonhos assim caiu.

    Mais AMOR por favor. Mais carinho, menos dor, mais sorrisos, mais abraços, mais rasantes descompassos, mais aromas, mais calor…

    Mais segundas-feiras intensas, mais virtudes sem sentenças…

    Mais desenhos temperados, mais projetos revisados, menos tensão, mais vapor. Menos desesperos, mais começos, entremeios com fervor.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    *

    Arte by @erradonet

  • [Fadiga]

    [Fadiga]

    Que espécie de carinho é esse
    Que me irrita e ao mesmo tempo me intriga…
    E me convida a te provar

    Que agonia louca é essa
    Que aparece e some
    E me consome
    Em espasmos insondáveis

    Nem caminho, nem destino

    Esse seu olhar sozinho
    Me enerva
    Me irradia
    E me fadiga em sua companhia

    Esse seu andar mansinho
    Me apressa
    Me tropeça
    E me fadiga antes do raiar do dia

    E eu me canso
    E lanço um sorriso invertido
    Pra confundir esse seu querer dividido

    Então eu danço
    De olhos fechados, sem sentido
    De braços abertos e passos aflitos

    Dispenso os galanteios
    Evito a despedida
    Segunda-feira maldita
    Viro a cara pra monotonia
    Mas me perco na fadiga
    Do seu carinho ácido
    Que me irrita
    Que me intriga
    Que me agonia
    Que me convida
    E me consome
    Que me enerva
    E me irradia
    Que me apressa
    E me tropeça
    Que me cansa
    E me abocanha
    Que me inverte
    E me divide
    Que me pede
    E me decide
    Que me abriga
    E me fadiga


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Poesia quebrada]

    [Poesia quebrada]

    A Poesia caiu da janela
    Poesia quebrada
    Uma vida inteira machucada
    Coração apertado
    Tão apertado que até para
    Foi um anjo que chorou por ela?
    Quando me debrucei e chorei na janela,
    Não imaginei que a poesia pudesse escorregar
    Nas minhas lágrimas de desespero
    Ah, como eu queria que a calçada
    Fosse feita de algodão
    Um anjo chorou na janela
    E todas as penas de suas asas caíram na calçada
    E a Poesia caiu da sacada
    Despedaçada
    Tão frágil
    Tão amada
    Tão bela
    Tão mansa
    Por que agora ela não dança?
    Por que seus olhos de criança bailam no ar?
    Porque a Poesia, na lembrança, pensou que podia voar
    Mas escorregou na janela e tentou flutuar
    Sim, eu fico muda
    Poesia esparramada em queda livre
    Sonhou ter as asas do anjo caído
    Que chorou na janela, distraído
    Fé em prantos
    Planta que perde encanto
    Nada do que a gente manda faz sentido
    Passa direto pelos ouvidos
    Quem diria
    Lágrima escorregada
    Tanta vida num único dia
    Tantos planos pra um voo plano
    Intervalo de uma dança surda
    Uma pernada curta
    Murcha
    Hoje é domingo, vem comigo
    Na segunda tudo muda


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Vertigem]

    [Vertigem]

    Teu gosto me embriaga

    Mas quando não te tenho

    Meu corpo padece

    e eu durmo numa prece 

    Teu abandono me dá sono

    Me dá náuseas,
    me dá dor de estômago

    Presentes? Não me traga

    Apenas se faça presente

    Ou então não faça nada:
    aconteça, pertença, tente 

    E não pense que não guardo mágoa

    Meu coração pode até parecer pequeno

    Mas, de gigante, quer teu aconchego

    Teu cheiro, teu chamego

    Mesmo que essa vertigem seja um exagero

    Na segunda-feira sem apego

     –
    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte by Os Gêmeos; obra sem título exibida na exposição “vertigem”.

  • [Aceito]

    [Aceito]

    Aceito convites pra sair ou pra ficar regados a cavalheirismo, água com gelo, gengibre e hortelã, pedaços de madrugadas e recheio de manhãs.

    Aceito chamego na nuca e na cintura, doçuras e travessuras, gargalhadas desbotadas, cachoeiras de ternura e queijo com goiabada.

    Aceito até o ciúme do vento se for pra te ter de escudo enquanto ganho o mundo, enquanto arranho o fundo e viajo no tempo.

    Aceito sorvete com caramelo assim, de vez em quando, assim enquanto espero você pra mim com um abraço deste tamanho.

    Aceito cetim gelado de madrugada, estrada de areia e terra molhada, cabelo ao vento, orvalho ao relento na praia e gotas de noz moscada.

    Aceito café cremoso com cheiro de chuva, geleia de amora e travesseiros de plumas, e um amor que me invada feito cachoeira em plena segunda-feira.

    Aceito ombro macio, sorriso sincero, massagem forte e mordida leve. Antes que o dia amanheça e o sol me carregue numa brisa breve.

    Numa trilha leve que não se mede, numa vida que a gente escreve do jeito que a gente pede, do jeito que a gente cria na malícia do dia a dia.

    To pronta, me leve. Não espere a noite cair nem a chuva passar, não espere o mar te levar. Sozinha eu não sei remar.

    To tonta, não negue. Apenas me pegue. E deixe que o medo leve embora toda ponta solta. Pra que a bagunça tome conta e que o riso nos entregue.

    Aceito toda a forma, toda a queda, todo peito aberto em paraquedas. Aceito coração transparente. Chocolate quente e beijos calientes.

    Aceito o universo em cascata, de braços abertos e alma lavada. De olhos fechados, sem motivos velados, apenas o mundo inteiro do nosso lado.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Arte: ‘My Love Flows Out Like a Waterfall’ by Tara McPherson available here. 16” x 24” Giclee Print on Canvas.

  • [Espelho maldito]

    [Espelho maldito]

    Não sei se consigo
    Outra paz aqui comigo
    Coração aflito
    Encontro fictício

    Foi amor ou feitiço?
    Armadilha do destino
    Diálogo tremido
    Abraço merecido

    Não sei se ainda vivo
    Se sou prece ou alívio
    Futuro dividido
    Passado atravessado

    Caminho bagunçado
    Poema despedaçado
    Pensei em você no sábado
    E no domingo escondido 

    Você ainda lembra de mim?
    Sinceramente, eu duvido
    Segunda-feira eu grito
    E troco seu sorriso

    Por um beijo coagido
    Atrás do espelho maldito
    Enquanto eu reflito
    Nosso desejo destemido

    Tenho um sonho contido
    Um segredo adormecido
    Uma vontade insana
    De fazer amor contigo


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday 

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    Photo by Tina Teresa

  • [Futuro faminto]

    [Futuro faminto]

    Sobre
    Voando
    Sobrando
    Vazando
    Volátil
    Nobre
    Sono
    Trono
    Abandono
    Dano
    Dono
    Segunda-feira de pano
    Plano, flano
    Sabe
    Sobe
    Voando
    Varando
    Bradando
    Dando
    Desdobrando
    Andando
    Voltando
    Futuro
    Faminto
    Minto
    Sinto
    Brando
    Brado
    Dobro
    Formo
    Firmo
    Finito
    Furo
    Vindo
    Vivendo
    Movendo
    Mudando
    Muro
    Volando
    Bailando
    Livrando
    Lavrando

    Livro
    Te livro
    Te leio
    Lindo
    Lendo
    Limando
    Amando
    Lambendo
    Banhando
    Bebendo
    Babando
    Sorvendo

    Vendo
    Sonho
    Novo
    Devendo
    Revendo
    Devolvo
    Remendo
    De novo
    Revolvo
    Revivo
    Sorrindo
    Indo
    Partindo
    Parindo
    Rindo
    Sentindo
    Tinindo
    Querendo
    Crescendo
    Sendo
    Tendo
    Sofrendo
    Tentando
    Tem tanto
    Tem tudo
    Tramado
    Trama
    Derrama
    Me ama
    Me chama
    Chamego
    Logo chego
    Dobrando
    Vertendo
    Sobrevoando


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    *

    Arte: Colorização by Patty Stazak sobre fotografia de Juliana Mozart | Casamento decorado com borboletas de origami.

  • [Tatuagem]

    [Tatuagem]

    Palavras na pele
    Letras, cortes
    Cicatrizes escolhidas
    Encolhidas
    em tortas linhas,
    tontas tintas,
    dobras de vida

    Rasuras
    Pedaços de guardanapos
    Travessuras codificadas
    Sonhos formatados
    Desenhos inventados

    Momento suspenso
    Segunda-feira tensa
    Talvez por insistência
    Talvez por existência

    Meus dedos doem

    Sinto dor de desenhar
    Dor de existir
    De aguardar o tempo cravar
    em meu corpo
    um desfecho absorto
    uma moldura dura
    dura de amargura

    Desenhos emoldurados
    feito pacotes dourados
    percorrem cada pedaço de pele meu
    Seriam presentes embrulhados
    por serpentes descontentes?

    Se o tempo presente é um presente
    Que dizer do futuro
    que atordoa e afoga de repente?

    Passado estampado na pele


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Não sei fazer conta]

    [Não sei fazer conta]

    Carrossel dividido
    Chuva de setes
    Quanto custa
    um olhar arrependido?

    Meu cálculo se repete
    Por que você foi embora?
    Na matemática do seu retorno
    É onde eu conto as horas

    Conto, conto e o tempo não passa
    Ou será que o tempo para
    Segunda-feira fica pronto
    Segunda-feira me dispara 

    Conto, conto e faço de conta
    Que eu não sei fazer conta
    Só pra ver se você volta
    Enquanto o vento se demora


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Arte de Sônia Menna Barreto chamada Enxuta e feita em glicée, palavra francesa usada nos EUA para nomear o processo de microjato de tinta, a uma determinada pressão, usado na impressão desta nova geração de gravuras. É feita na máquina “Giclée Printer”, que jateia aproximadamente 4 milhões de microscópicos pingos de tinta por segundo, em papel (100% algodão, 220 g) ou tela. Podem ser usadas até 16 milhões de cores numa só giclée.
    *

  • [Solidão]

    [Solidão]

    Pra te esquecer, te escrevi
    Quando você partiu, me encontrei
    Lembranças jazem num instante
    E a grama cresce verdejante
    Não importa se é solidão ou saudade
    Somos eternos enquanto vivos
    E nos confundimos com a liberdade

    Pra te cantar, escolhi
    Uma sinfonia inacabada
    Mas as palavras me perseguem
    E não entendo essa urgência em provocar
    Em cutucar o destino desmaiado
    Em tentar te bater com luvas de pelica
    Com spikes nas pontas dos dedos mofados

    Não vou lembrar de nada disso
    Nem agora, nem na próxima Segunda-feira
    O modelo sempre simplifica a realidade
    E o que sobra é o meu coração indeciso
    Que amortece o soluço da vontade
    E desenha um poema de improviso


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Ferida alada]

    [Ferida alada]

    Acordo alada
    Ao seu lado
    Levo o fardo
    De ser amada

    Sua amada
    Boicotada
    Recortada
    Recitada
    Empodeirada
    Empoleirada
    Escondida
    Temida
    Com frio na barriga
    Enquanto cores ganham vida

    Me testo e me descubro
    Só mais uma mordida
    Acordo alada
    Perdida
    Ladeada
    Perseguida
    Rapunzel adormecida
    Ferida
    Decidida
    Alada amada
    Amordaçada

    Ledo engano
    pedaço de pano
    Retalho amassado
    Sonho rasgado
    Paixão noturna
    Céu estrelado
    Acordo alada
    Ao seu lado

    Mas durmo nua
    Sob o beijo da lua
    E brilho enquanto
    Engulo o pranto

    Carne crua
    Lá fora, na rua
    Alada acordo
    Apenas concordo

    Seu soslaio
    Invade minha janela
    Um dia caio
    Um dia saio
    De maio a maio
    E desmaio

    Você cabisbaixo
    Entende o drama
    Prepara a cama
    Enquanto encaixo
    Meu disfarce
    Meu olhar amassado
    Você vem manso
    Sem descanso

    Seu solstício
    É meu destino
    Um dia eu finjo
    Um dia eu minto
    Um dia eu sinto
    Muito
    Um dia eu fujo
    Segunda eu junto
    Você faminto
    Troco mordida
    Por despedida
    E acordo de lado
    Com asas partidas


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Rock me]

    [Rock me]

    Pisei no rabo da gata
    E levei uma dentada
    Dedilhei sua guitarra
    De madrugada

    Rock me now, it’s Monday
    Prolongue o fim de semana
    Around the clock
    Come back to Sunday

    Encoste seus lábios no meu ouvido
    Mas não grite, nem sibile
    Suas sílabas amargas me enjoam
    Suas promessas povoam
    Minhas entranhas
    E eu duvido

    A trilha escolhida
    Despedida
    Rock me now
    Festival
    Desdobre-me em cifras
    En-cante-me
    Mas não cante
    Senão eu cedo
    Sua voz é meu placebo
    Entre o bem e o mal

    Foi tão cedo
    Foi tão lento
    E intenso
    Na velocidade do pensamento
    Que tormento
    Música muda
    Tudo muda
    Quando a noite surta

    E por mais que eu sonhe
    What did rock me there
    Will never rock me again
    Tudo o que foi dito
    Foi apenas uma música surda
    Que entrou por um ouvido
    E saiu por uma curva torta
    E eu duvido
    De cada estribilho
    Do brilho do meu brinco
    Que caiu mal criado
    Criado mudo, suor lavado
    Rock me then
    Again and again
    Segunda-feira, vem!
    Mesmo que eu peça
    Outra semana começa
    E não há nada que impeça
    Refrão mordido
    É, eu duvido


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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