Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Interfone]

    [Interfone]

    Depois da chuva, vapor no asfalto
    Não ouvi direito, fale mais alto
    Ou não, não fale não
    Não toque o interfone
    Deixe que eu me viro com o jantar
    Caso contrário, caio do salto
    E deixo o tornozelo torcido no passado
    Só pra matar essa fome
    Será que vou ou falto?
    Você disse o meu nome
    Eu digo “presente”
    Não pense que sair incólume
    É o mesmo que afundar sorridente
    Penso alto
    Já é segunda-feira de novo
    Alguém abaixe esse volume
    Cada história, cada vida, eu não pedi para ouvir
    “Sou eu”
    “Posso entrar?”
    “Abriu?”
    “Sobe aqui”
    “Vamos caminhar”
    Cada tecla, cada som, cada pedaço de pão
    Cada entrada, cada porta destravada
    Impossível insensatez
    Será que chove outra vez?


    by @DiaboliqViolet

  • [Fragmentos]

    [Fragmentos]

    Pode o coração mudar de lugar?
    Depois do sol, depois da chuva,
    do primeiro olhar, do primeiro beijo… 
    Pode o coração mudar de lugar?
    Eu sei, não era pra divagar
    sobre apertos no peito,
    mas seu olhar cor de champagne
    todos os dias pela manhã
    todas às segundas… devagar
    segunda-feira a divagar
    você joga a pergunta no ar:
    pode o coração mudar de lugar? 

    Depois de um carinho altruísta,
    depois de uma rasteira egoísta,
    depois de o outono chegar… 

    Não me diga que é mentira,
    essa tua fala vazia
    esconde uma melodia. 

    E as asas prateadas
    camufladas no sótão
    daquela casa abandonada?
    Eu vi.
    Teu olhar arrefecido e vermelho
    Teu olhar seguiu meu rasante
    e tuas asas brilharam.
    E meu coração mudou de lugar. 
    Passou a bater descompassado, 
    queria fugir, virar faísca, 
    nunca mais vislumbrar. 

    Isso sim parece mentira.
    Mas se eu acredito no faz-de-conta,
    do not panic, it’s organic!
    Não chore, foi apenas um pesadelo. 

    Pode uma mesma casa
    reunir tantas entradas?
    Enquanto uma passagem serve de lar
    seu olhar cor de champagne
    no degrau da escada a descansar,
    outra paisagem esquece
    as correspondências no chão
    por dias
    e as folhas das revistas
    que alguém um dia assinou
    entortam-se e colecionam serenos. 

    Não me destile teu veneno
    porque eu passei e você não me seguiu.
    Nem meu cheiro você sentiu. 

    Mas a faísca…
    Ah, a faísca você viu.
    Só que você não vai me encontrar…

    Porque meu coração mudou de lugar.
    Ele está onde você menos imagina,
    não o procure na esquina
    dos meus sonhos…
    Lá, sabe o que você pode achar?

    Fragmentos de paisagem.

    Liberdade.

    Decolagem.


    by @DiaboliqViolet

  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by @DiaboliqViolet

  • [Desempate-me]

    [Desempate-me]

    Aparte-me

    Aperte-me

    Reparta-me 
    Segunda-feira à tarde
    antes que seja tarde,
    covarde

     –
    by @DiaboliqViolet

  • [Restos]

    [Restos]

    Restos de domingo assombram a segunda-feira
    Dia sem fim, noite sem beira
    Prefiro um pedaço de caqui

    Choveu e eu nem vi
    A luz dos postes brilha na rua molhada
    Mas o piso da sacada continua quente
    Silêncios que só eu ouvi

    Nos pés descalços gruda o cheiro gorduroso
    Que vem pelo ar sem avisar
    Algum vizinho fez festa, será?
    Orvalho misturado com pedaços de almoço

    Criei minha própria tempestade
    Numa taça de cristal tão frágil, tão limpa
    Trincada por raios e trovões, sobrevivi

    Nem me dei conta que meus pés não estavam no chão
    Boiei em bolhas de champagne
    E esperei o arco-íris surgir


    by @DiaboliqViolet

  • [Prazo de validade]

    [Prazo de validade]

    Será que tudo tem prazo de validade? Se sim, será que é o grau de intensidade o que determina esse prazo? Don’t panic! A segunda-feira está quase no fim e a música que embala minha preguiça conversa comigo. Aliás, é comum músicas conversarem comigo.

    Ah, se essa e outras canções tivessem o poder de transformar comportamentos. E então daí as atitudes teriam prazos de validade. Teria valia? Quanto vale uma nota musical? Uma nota, certamente. E um adágio? Um pedágio?

    Outro dia me disseram que o sentido da vida depende da relação que estabelecemos com as pessoas. Enquanto cantamos sentimentos debaixo do chuveiro ou detrás do volante do carro, percebemos que cada relação depende da admiração que temos por essa ou por aquela pessoa.

    Talvez por isso as relações tenham prazos de validade. Será que só admiramos até onde a vista alcança? Se ‘ad mirar’ é ter próximo aos olhos, que dizer das canções que choram amores ou provocam sabores sem nada mostrar mas tudo revelar?

    As roupas que escolhi não vestir vão se amontoando do lado de fora do armário, criando um mundo à parte, solitário, que só eu vejo enquanto bocejo. Enquanto canto embalada e sinto sua presença velada disfarçada de lua cheia que invade minha sacada pedindo para ser admirada.

    Teria a luz que reflete a lua validade prorrogada já que o escuro toma conta quando fecho os olhos? Qual o futuro do infinito se o que percebo são defeitos sem efeito, sem reflexo, sem pó de pirilimpimpim? Cabe a lua no meu jardim? Ou prefere ela adormecer um sonho bonito?

    Cabe este canto no canto do seu encanto? Quanto tempo ainda tenho nesse tenso embalo intenso? Be yourself. E quem sabe eu te admire mesmo de olhos fechados. Mesmo que o prazo de validade expire. Mesmo que eu pire. E que aquele mundo à parte gire.


    by @DiaboliqViolet

  • [Bola de neve]

    [Bola de neve]

    Tão bola 

    Tão neve 

    Não demora 

    Não vá embora 

    Me leve 

    De leve 

    Na memória 

    Segunda-feira agora

     –
    by @DiaboliqViolet

  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.


    by @DiaboliqViolet

  • [Pronto. E ponto.]

    [Pronto. E ponto.]

    Se me apronto, é ponto?
    Se demoro, comemoro?
    Contra-ponto em prantos.
    Não, não choro, mas imploro…

    … por uma laçada, um alinhavo,
    um ponto.
    Inacabado, é claro. 

    Porque nada nunca está pronto.
     Porque agora eu me declaro…

    … amante de retalhos emendados.
    Ponto a ponto. Delicado.
    De cada lado encontro

    caracóis de linhas…

    … costurando amores temporários
    em corações imaginários.

    É tão tonto esse sonho
    que padeço pouco a pouco.
    Ponto a ponto. Quase pronto.
    De pronto.
    Segunda-feira eu conto. 

    Não me ame sem pesponto,
    não me abrace sem moldes,
    não me costure sem abraços apertados. 

    Só lamento, não aguento.
    É um tormento, falei, pronto.
    Agora chega?
    Teu dedo me dá choque
    e teu toque me dá medo,
     teu pelo me acorda
    e tua boca me dá corda.

    Não, não to morta.
    Não me morda.
    Pouco importa.
     Giro a chave, fecho a porta
    e logo adormeço. 

    É só o começo.
    Tô toda torta, mas nem ligo.
    Sei que apronto, volte logo
    que prometo mais um ponto. 

    Ou uma massagem.

    Teu leito comigo.
    Eu consigo.
    Teu acordo,
    meu abrigo.


    by @DiaboliqViolet

  • [Das coisas mortas pelo caminho…]

    [Das coisas mortas pelo caminho…]

    Da borboleta tenho dó:
    o desfrute das asas coloridas
    chega de repente, resplandecente. 

    Vê-la caída no chão reflete
    a fatia de tempo cortada
    pelo rasante final. 

    Da ratazana, que dizer?
    Pelos amassados, olhos esbugalhados.
    Fim trágico de uma corrida mal sucedida. 

    Da barata passo perto por mero descuido.
    O que realmente quero
    é que seu último suspiro fique longe
    ou sou capaz de plantar bananeira no muro. 

    Das formigas que pisoteio,
    melhor deixar de escanteio o pensamento
    antes que venha um morcego. 

    Do passarinho, exclamo: “Oh!”
    e fico imaginando
    se foi acidente de percurso ou atropelo. 

    Da aranha, que drama. 

    A cidade invade e muita coisa nela mais não cabe. 
    A segunda-feira chama e tudo se reparte.

    Be part. Not apart.


    by @DiaboliqViolet

  • [Violeta]

    [Violeta]

    Enquanto chove, floresço.
    Enquanto enquadro, anoiteço.
    Enquanto trago, violeta.
    Enquanto você não chega, percebo
    segunda-feira ainda é cedo  
    e cada paisagem que invento, borboleta.

    by @DiaboliqViolet

  • [Amarelinha]

    [Amarelinha]

    Depois você me diz
    se é mesmo verdade
    essa sua mania
    de pular amarelinha
    em toda calçada quadrada
    encontrada no seu caminho,
    seja na segunda-feira ou
    no meio da madrugada.

    Se fosse você,
    eu desenhava com giz
    e tornava real
    essa brincadeira banal. 

    Eu pintava o céu e o inferno
    com fagulhas de cristal
    e esperava brilhar
    tua poesia no meu carnaval. 


    by @DiaboliqViolet

[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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