Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Marionete]

    [Marionete]

    Retalhos vividos, memórias tímidas

    Fale baixo, aqui no meu ouvido

    Embale minha poesia única

    Fale uma letra de música colorida 

    Cada cor que meu cérebro promete

    Traz dó, traz dor, traz pó

    Do pó ao poema, ao dilema

    À carta que você me escreve 

    Qualquer que seja o pranto

    Teu nome em minhas costas

    Assombra o entretanto

    Faz sombra, faz cócegas 

    E o peso de um amor cantado
    Espera uma última obra

    Um desenho torto, borrado

    Uma migalha sem tinta que sobra 

    Marionete nos teus braços

    Danço um passo

    Retalho no retrato

    Segunda-feira eu faço
    Um risco?
    Um traço?

    Será que arrisco um suspiro?

    Ou um morango

    Permito-lhe ser vampiro

    Sorvo-lhe o vinho e danço tango

     –
    by Tina Teresa

  • [Mais um dia a menos]

    [Mais um dia a menos]

    Segunda-feira acordou vazia
    Sem presença, sem sentença
    Mas cheia de memórias
    Cheia de bom-dias

    Ontem foi um dia a mais
    Hoje é mais um dia a menos
    Quando menos é mais
    Um pouco mais nunca é de menos
    Um pouco de história nunca é demais
    E um futuro incerto nunca é de menos

    Será que passa o tempo mais rápido
    Se eu esquecer de acordar?
    Será que um lance de uma noite
    Vai nos levar a algum lugar?

    Só mais um pouco
    Soluço rouco
    Falta muito?
    É coisa de louco

    Sim, um pouco mais
    Um dia a mais, uma vida a mais
    Dia menos dia
    É pura fantasia

    Logo menos, nunca mais
    Logo, logo, muito mais
    Seremos nós daqui pra frente?
    Logo mais nunca é demais
    Deixa ser surpreendente
    Deixa ser muito mais

    Quanto mais dias a menos
    Mais dias pra muito mais
    Mais boas-noites pra novos dias
    Mais bom-dias pra outras noites a mais


    by Tina Teresa

  • [Chuva Prata]

    [Chuva Prata]

    Não tinha motivo para não ir,
    mas rolava um receio,
    um aperto no estômago,
    não tinha explicação. 

    Desculpas pra ficar surgiam a todo instante.
    A chuva poderia ser a culpada.
    A pontinha de dor de cabeça, também.
    Assim como o trânsito, a preguiça,
    o desconforto no pescoço,
    a vontade de ficar debaixo das cobertas
    assistindo seriado atrasado… 

    Mas de repente
    a gente tinha hora marcada.
    E daí era pra valer.
    E o vidro do carro embaçado,
    o café adocicado,
    as voltas na quadra procurando vaga,
    a fruta trocada,
    o fone sem estéreo
    e o adaptador da tomada
    eram motivos de sorrisos. 

    A chuva nem atrapalhava.
    Eu fazia que nada era nada,
    que não tava nem aí,
    que pouco me importava.
    Mas a verdade me esmagava.
    A segunda-feira vai chegar atrasada.
    Eu não precisei falar nada,
    porque você já sabia de tudo. 

    Fosse preto ou fosse prata,
    não rolava mais medo de dar mancada.
    Mentira, rolava sim.
    Fosse mesmo você mesmo.
    Venha o que vier, seja o que for,
    se falei demais, se o que li foi muito,
    se duvidei um pouco,
    se entreguei o jogo… Foi. 

    E que seja o que tiver de ser.
    E que seja o que a gente quiser,
    haja o que houver, chova o que chover. 

    Porque existe um sol dentro da gente
    que brilha docemente,
    intensamente.
    Um sol eloquente.
    Que me faz ver estrelas
    no céu da tua boca.
    E que traz o aroma do mar
    para os seus olhos
    enquanto a chuva prata
    desenha arco-íris
    nos meus cabelos dourados. 

    E daí se estava nublado?
    Apenas sinta, não minta.
    O tempo tem a cor que a gente pinta
    quando estamos com os olhos fechados.


    by Tina Teresa

  • [Não sei lidar]

    [Não sei lidar]

    Com seus medos

    E seus desejos

    Com seus bom-dias

    E suas nostalgias

    Com suas palavras

    E suas almofadas

    Com sua fome

    E como soletra meu nome

    Com seu cheiro

    Importa quem chegou primeiro?

    Com sua cama

    E a palavra na sua boca

    Achando que me ama

    Achando que me acha

    Me chamando de louca

    Achando que logo passa

    Não sei lidar com essa sede

    Tampouco com a parede

    Nem com o recado

    Ou o retrato falado

    Já é segunda-feira
    E eu tenho sede

     –
    by Tina Teresa

  • [Colo]

    [Colo]

    Não é só a chuva que cai do céu
    Cai formiga, cai mel
    Cai gelo que fere e queima a pele
    Cai canivete
    Cai balão na minha mão
    Cai folia, cai folha seca
    Qual a previsão?
    Se o céu no outono balança
    Quem concede a dança
    Rapunzel, jogue-me suas tranças!
    Cai confete e serpentina
    Cai o coração da menina
    No meio da escuridão
    Será que a chuva mansa
    Que ensopa a segunda-feira
    Faz o sonho vira lambança?
    E no meu colo
    To chegando, não demoro
    No precipício a mercê
    No meu colo cai você


    by Tina Teresa

  • [Segunda-feira num segundo]

    [Segunda-feira num segundo]

    Tão derradeira, tão assim, tão mundo
    Olhar noturno, luar soturno
    Que protege? Ou promete
    Uma freada brusca
    Vem aqui, me busca
    Traga confete
    A estrada segue em frente
    Nada mais se repete
    Tudo muda num acorde de trompete
    Tudo permanece
    No submundo


    by Tina Teresa

  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by Tina Teresa

  • [Que feio]

    [Que feio]

    Que feio
    Cadê o compromisso?
    Cadê o devaneio?

    Segunda-feira fria
    Combina com vinho e poesia
    Combina com sinfonia

    Que feio
    Deixar na mão a rebeldia
    Largar a conversa no meio

    Segunda-feira arredia
    Presente ausente inconsequente
    O brinde virou nostalgia

    Que feio
    Esperei na tempestade
    Uma taça de vontade

    Segunda-feira sem malícia
    Traga um gole de liberdade
    Leve um trago de saudade

    Que feio
    Se tivesse bebido o presente
    Não teria vinho no meu seio


    by Tina Teresa

  • [Palavras cortadas]

    [Palavras cortadas]

    Cada palavra recortada
    É um pedaço de madrugada
    Nesta segunda-feira imaginada

    Uma fala inacabada
    Um desejo de…

    Porque a flor que você não trouxe
    Trouxe nós sobre nós
    Trouxe notícias de papel
    Trouxe palavras de fel

    Trouxe palavras cortadas
    Retiradas do peito
    Recortadas meio sem jeito

    Meias palavras
    Meio duras
    Meio gastas
    Talvez um pouco devassas
    E escassas
    Recortadas
    Sem sentido
    Ah se eu tivesse mantido
    Minha boca fechada


    by Tina Teresa

  • [Doer, dói sempre]

    [Doer, dói sempre]

    A cada dia fazemos escolhas.
    Da camisa amassada
    ao sapato embolorado,
    da calça que não serve mais
    ao futuro embriagado. 

    Ir ou não ir,
    comer ou não
    aquela torta recheada,
    beijar ou não
    aquela boca safada. 

    Pois é, do sabão a gente faz bolha.
    Da brincadeira de bombeiro ou astronauta
    surgem desenhistas, advogados, jornalistas. 
    Da segunda-feira nascem trapezistas.

    E, sabe de uma coisa?
    Crescer é colecionar sonhos.
    Decidir o que ser quando crescer é tão relativo.
    Fugir pode ser repetitivo.
    Seja em casa, na escola,
    no parquinho ou no trabalho.
    Seja desenhando tratores
    ou rufando tambores.
    Esteja o céu trovejando
    ou o sol brilhando. 

    Crescer é escolher viver.
    E crescer dói,
    já disse Raquel de Queiroz:
    “Doer, dói sempre.
    Só não dói depois de morto.
    Porque a vida toda é um doer.” 

    Entre passos no asfalto
    ou com barro no sapato,
    de moto ou de charrete,
    o que nos aguarda não tarda,
    de repente vem voando num tapete.


    by Tina Teresa

  • [Lua crescente]

    [Lua crescente]

    Desafios, dias,
    noites frias, arrepios

    Cores se confundem,
    maquiagem escorre pela pia…

    Expectativas explodem em desejos

    Lua crescente

    Sorriso recente

    Segunda-feira quente
    Planos, sonhos, ciclos

    Momento

    Monumento

    Amor? Tormento

    Tempo corrente

    Água corrente

    Desprenda-me, corrente

    Lua crescente

    O bolo de ontem, comi hoje

    Para festejar
    o aniversário de amanhã

    Que nunca chega

    Que nunca acaba

    Pra sempre latente

    Lua crescente

    Lua de Abril

    Estado febril

    Grama cortada

    Roupa amassada

    Cheiro de fogo

    Eu sei, foi um jogo

    Mesa empoeirada

    Canela dormente

    Lua crescente

    Segunda-feira em frente

     –
    by Tina Teresa

  • [Catatonic]

    [Catatonic]

    Segundas intenções
    Segundas-feiras
    Segunda aguda
    Catatônica
    Eu menti
    Foi por bobeira
    Fingi tristeza
    Por fraqueza
    Achei que era vantagem
    Foi travessura
    Misturei limonada com gin-tônica
    Lua manca
    Segunda nua
    Desbanca a janta
    Pura sacanagem
    Retranca atônita
    Faltou coragem?
    Que nada
    Só uma passagem no meio da paisagem
    Uma brincadeira
    Que ninguém soube, exceto eu
    Por fora, fico muda
    Por dentro, dou gargalhadas de cetim
    E disfarço
    Jogue fora essa cara lavada
    Infestada de cupim
    Volta, domingo
    Segunda sem fim


    by Tina Teresa

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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