É, eu sei que sou séria quando quero, o problema é conseguir ser séria em momento lúdico, em que o perfume que ele usava, para que todos sentissem, não estava sendo sentido por outra pessoa naquele momento a não ser por mim.
Leviandade? Pode ser. Mas… Se a gente nunca se esquece de andar de bicicleta, por que parar de sentir assim tão forte, de se apaixonar e de se permitir à sorte? Se nossas memórias são armazenadas de forma difusa, trancadas num padrão de conexões entre diversos neurônios, por que não podemos ter amantes que nos provoquem sensações inesquecíveis; feromônios?
Afinal de contas, a recuperação espontânea das nossas memórias perdidas não pode ser ignorada… E então eu deixo de pensar e flutuo, mais leve que o ar, no aroma onírico dos meus sonhos e no brilho profundo daquele olhar que alcança minha alma e me embala… E então eu me entrego e me pergunto se estou errada, mas só consigo pedir para ser mais beijada.
Leviandade? Talvez. Mas fazer o quê se as memórias insistem em vir à tona? E olha que isso é cientificamente provado: a recuperação espontânea não é apenas possível, mas inevitável. A gente nunca se esquece de se apaixonar. Segundas-quentes, terças-confidentes, quartas-feiras, quintas-incandescentes, sextas-dormentes, sábados, domingos latentes.
Aliás, isso deve acontecer porque ninguém consegue preservar qualquer forma de prazer nos mesmos níveis por muito tempo. A intensidade da dor ou do prazer ao longo da exposição de um mesmo estímulo tende a diminuir com o tempo; um fenômeno inconsciente chamado de psicoadaptação. Isso quer dizer que por mais que a gente queira emoções cada vez mais fortes, logo, logo a gente se acostuma. E daí a gente quer mais uma, mais uma e mais uma.
Augusto Jorge Cury* explica que a energia emocional não é estática, mas dinâmica. Ela se organiza, se desorganiza e se reorganiza num fluxo vital contínuo e ininterrupto; assim, nossa capacidade de permanecer em estado de êxtase é limitada. Então, por conta disso, a sensação de felicidade é condicional e sem estabilidade. Mas daí ele aparece, a saudade pulsa, a boca estremece, os olhos cativam e beijo acontece. Uma amizade pode sim ser colorida e a vida, mais divertida.
Leviandade? E por que não? Quando ele vem de mansinho e me segura com firmeza e carinho, me devolve depois ainda mais viva… Por mais que exista uma tentativa frustrante de deslocar os pensamentos inoportunos, pelo menos aqueles que queriam antever os próximos acontecimentos soturnos, eu me entrego, não nego. A lógica é consistente, apesar de parecer inexplicável. Se eu estou certa ou não; eu não sei. Se paixão é sinônimo de isenção… Será que não?
As frustrações, as dores da existência, as preocupações cotidianas sufocam os lampejos de felicidade que possuímos. Assim… Por que ficar sempre consciente se a gente pode extrapolar e estratificar o sentimento ao menos por um breve momento? É claro que isso depende da definição de felicidade que a gente resolve adotar… Mas, o que os olhos não vêem o coração não sente, e… Às vezes, a gente fica carente. E daí a gente sente um cheiro diferente…
Leviandade? Talvez… A biologia justifica, a sociedade abomina. De quem é a vez?
Os olhos até mostram uma traição, mas aquele que acredita na sua própria verdade (ou mentira) não se trai com o olhar nem com a tensão. Amigos, inimigos, conhecidos, amores… A língua não se importa com o que sente o coração. E o coração não se importa com o que pensa o cérebro. Tudo é concentração. Tudo é atmosférico. Leviandade? Pode até parecer um paradoxo, mas não aposte nela sem ponderação nem sem cuidado periférico.
Neste planeta tudo é lindo e horrível na mesma amplitude. Enquanto isso, carrego em minha bagagem muita atitude, muitos olhares ora sinceros ora injuriados, e também muitas palavras falsas. Palavras ditas, escritas, pensadas, guardadas… E, assim como Fábio de Lima**, vejo o defeito da existência pendurado na língua. Nada é perfeito sempre e é comum se perder pela língua… Ambígua… Ah… Se a gente falasse menos… Mesmo sem guardar as provas, a memória fica. E daí já é suficiente, não precisa dizer nem guardar nada; só sentir, só pensar, só lembrar… Embriagada.
Leviandade? Qual é o problema? Se a adrenalina rejuvenesce e a rotina entedia, por que não se permitir amar a rebeldia, provocar a nostalgia e apimentar o dia-a-dia? E, se toda experiência é válida, eu vou me jogar; vem me pegar, me abraçar, me amar e se deliciar.
Depois a gente retoma nosso cotidiano, mas sempre escapando de vez em quando e curtindo, fugindo, porque senão a gente enjoa e a vida é muito curta pra ser levada à toa. Hoje cedo li um texto da Denise Tavares*** e me surpreendi. Depois de assistir Babel sozinha, ela sente-se frustrada por não ter com quem trocar ideias sobre o filme. Na volta pra casa, o céu recém aberto depois das muitas chuvas de janeiro não revela nem estrelas, nem o cometa McNaught****, mas traz a lembrança de um amigo que de lá, do céu, talvez estivesse sorrindo de sua tristeza. E então ela conclui, com delicadeza: estar vivo é cumprir uma travessia com algum sentido e depois partir, deixando saudade para ensinar que o presente deve ser vivido com toda intensidade.
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by @DiaboliqViolet
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*Augusto Jorge Cury > Psiquiatra, cientista, escritor e fundador da Academia de Inteligência, um instituto que promove o treinamento de psicólogos, educadores e profissionais de recursos humanos.
**Fábio de Lima > Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET (www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO.
***Denise Tavares > Jornalista, professora e diretora da Faculdade de Jornalismo da PUC – Campinas.
****McNaught > O cometa McNaught é atualmente o objeto celeste mais brilhante depois do Sol e da Lua e, em quarenta anos, é o cometa mais brilhante já visto no Brasil. Ficou visível a partir das 20h30 abaixo da linha do Equador durante meados de Janeiro/2007.