Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

drama

  • [A pé, a nado, divago e vago]

    [A pé, a nado, divago e vago]

    Resolvi te perdoar
    Por não saber mentir
    Por chorar
    Chorar de rir

    Pode parecer tendência
    Padecer na demência
    Mas entre ausências
    A segunda-feira permanece
    E beija
    Beija o que não fenece
    Nas minhas memórias pueris

    Nem desaparece
    No fundo dos meus passos
    Que nadam/vagam
    A procura de um chão 

    Debris

     –

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema: Mandy Blake > Lifestyle iPhone Photograph Awards2015.

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  • [Cumplicidade]

    [Cumplicidade]

    Feito giz
    Giz de cera
    Escrevo teu futuro ao meu lado

    Cada palavra me leva
    Leva longe, longe mais
    Sonho do avesso me distrai 

    Teu coração me conhece
    Mas não percebe
    Minha palavra decidida

    Quero morar no teu abraço
    Alma contemplativa
    Sorriso aprendiz 

    Cada segunda-feira me convida
    À vida
    Enquanto o tempo se esvai

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    In one of his many photo series, Moscow-based Alexander Yakovlev makes his images come alive by introducing flour as a dynamic element.

    The effect is nothing short of breathtaking — clouds of flour perfectly emphasize the power of a body in motion.

      

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  • [Depois]

    [Depois]

    Depois passa
    Depois melhora
    Depois apaga
    Depois não é agora
    Mas agora eu não quero
    Mesmo que o depois não venha
    Segunda-feira, veja
    Apenas seja 

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    ilustração deste poema:

    Anthropologie Knotted Melati Hanging Chair

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  • [Inércia]

    [Inércia]

    Vamos parar o tempo
    No template do meu prato
    No tempero do teu vento
    No pedaço do nosso cansaço

    Vamos parar o tempo
    Na cadência do compasso
    Na ternura do momento
    No aconchego de um abraço

    Vamos parar o tempo
    Na batida do teu ato
    No frame do meu jeito
    No sorriso de um pensamento

    Vamos parar o tempo
    Na neblina da estrada
    Na pressa do efêmero
    Num sincero lamento

    Vamos parar o tempo
    Na aspereza de um beijo lento
    No mergulho de um fundo raro
    No suor de um passatempo

    Vamos parar o tempo
    Na maciez do amanhecer na praia
    Na palidez do outono pleno
    Na escassez da saudade

    Vamos parar o tempo
    Porque a vida pede um tempo
    Porque o tempo pede um tempo
    Porque esse é o nosso momento

    Vamos parar o tempo

    Na poesia das coisas todas

    No tic-tac das bodas

    Na inércia dessa segunda-feira tonta

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Details]

    [Details]

    São detalhes, mas dizem muito
    São frases soltas que saem da tua boca
    E até me convencem, atônitas
    Mas não por mais de um minuto
    Porque eu vejo, ah, eu vejo
    Eu vejo à medida que sinto
    Eu tenho à medida que brinco
    Tenho certeza até quando minto
    Infinito enquanto vinco
    Segunda-feira eu findo
    Tão lindo, tão lindo, tão lindo
    Não sei até quando insisto… 

     –
    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: 3D fractals created by scotland-based laser physicist-turned-artist and web developer Tom Beddard, aka subBlue. “They are truly fractal in the fact that more and more detail can be revealed the closer to the surface you travel. The fascinating aspect is where combinations of parameters can combine to create structural ‘resonances’ of extraordinary detail and beauty—sometimes naturally organic and other times perfectly geometric. But then like a chaotic system it can completely disappear with the smallest perturbation”, said the artist.

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  • [Sobre o dia que queria ser noite]

    [Sobre o dia que queria ser noite]

    Só no mundo diluído
    quando o céu é distraído
    que eu consigo
    transformar o inferno cativo
    em pleno meio-dia
    esquecido

    Pesco afagos aturdidos
    colho asas de vagalumes perdidos
    e recito cânticos imaginários
    descubro defeitos encalhados
    e transformo tudo ao contrário

    Falo sem pensar
    pra quebrar o silêncio
    mesmo sem ninguém perguntar
    ou nem preparar o momento
    com certa prudência mental
    frente à tamanha impulsividade verbal 

    Mal a segunda-feira chegou
    meu sonho enfadonho evaporou
    enquanto o sol tropeçou
    nos teus calcanhares
    e você desmoronou
    de todos os meus andares

    Se a estrada é esburacada
    vamos construir uma escada
    que nunca se acabe
    meu amor, tudo ainda cabe
    na segunda-feira guardada
    da noite que se abre

    – 

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Magical long exposure photographs of fireflies parading about the forests of Nagoya City by Yume Cyan.

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  • [Poema puro, às vezes]

    [Poema puro, às vezes]

    Às vezes tenho vontade
    de adotar aquela frase
    que saiu inacabada
    da tua boca desenhada

    Às vezes, só às vezes
    tua saliva bordada
    parece ora um poema sedento
    ora uma prece, ora um segredo

    Ora um pranto lento

    Às vezes a segunda-feira chega
    como vírgulas no teu sorriso
    e me convidam ao abismo

    Às vezes eu nem ligo
    se teus cílios curvos
    são muros

    Ou se teu coração duro 
    quer me escrever no escuro

    Não precisa gritar, eu te escuto
    vamos fazer como da última vez?

    Pode cair, eu te seguro
    e às vezes até juro
    que este poema puro
    foi você quem fez


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: The pencil on paper drawings of Julia Randall from Lick Line Collection: a series of disembodied mouths floating in space. “Rendered in exacting detail, the tongues protrude and beckon the viewer to come close. The mouth is the body’s critical site, where we eat, speak, kiss and bite; it is both ferocious and tender. We see the mouth and tongue all the time, yet they are highly intimate. Seen as a group the mouths undulate and bounce. Like many voices talking at once, they strangely invade our space with humor and perversity”.

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  • [Fantasia]

    [Fantasia]

    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda rima
    Et cétera e tal
    Tudo bem, eu vou por cima
    Apoteose surreal

    Hirtos lábios
    Momentos nulos
    Fantasia especial
    Apetrechos fulos
    Gula, fogo, folguedo sábio

    Vicissitude simulada
    Ninfas enlaçadas
    Calafrio de vozes sombrias
    Salivas arredias
    Guelras frias

    Guerras minhas
    Segunda-feira colossal
    Curvatura tua
    Destroços sem igual
    Meus ossos chiam

    Então dance
    Deixe que o corpo balance
    Acabou o carnaval
    Be panic, acabou o romance
    Marchinha infernal

    Então, vem, me contamina
    Darei-te tudo, não me cobres
    Acabou o carnaval
    Mas teu disfarce ainda me consome
    Não precisa fechar a cortina

    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Basée en République Tchèque, la photographe Bara Prasilova possède un univers féminin, pastel et empli de doux rêves. C’est avec une bonne dose de surréalisme et d’inspiration qu’elle met en scène des femmes pourvues de longues tresses dans des situations renversantes. Elle alterne entre ce genre de mise en scène loufoques et des images poétiques en pleine nature.

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  • [Achados e perdidos]

    [Achados e perdidos]

    Potes, bolsas, mochilas, bags,
    sacolas, necessaires, copos, chicletes,
    xícaras, cálices, pacotes, não me esquece
    Caixas, contêineres, garrafas, calhambeque…
    Recipientes me perseguem
    Aconchego me apetece
    Mais uma bolsinha pra minha coleção
    de crochê, matelassê, couro ou papelão
    Chita, papel machê, popeline ou macarrão
    Prometo que guardo junto ao coração
    ou aguardo um “até breve”
    pra não perder a razão

    O que cabe aqui dentro
    não tem desculpa, nem perdão
    Brinco, afinco, corrente ou cordão,
    concorrentes, memórias, pulseiras, incensos,
    pretendentes, histórias, rimas, bocejos,
    fofices, achados, perdidos, apreços
    Fica tudo fechado a laço, a zíper ou a botão
    Fica tudo fechado a fita
    Enquanto a lua fita meu vício
    meu suplício, desperdício
    segunda-feira, que aflição
    Fica tudo guardado num beijo


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Zippers as Mouths by Fernando Lessa. These cosmetics photography shots take an avant-garde twist by incorporating wild accessories, hypercolor skin and ridiculously long eyelashes.

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  • [Se vira]

    [Se vira]

    A gente se vira
    Na medida da pedida

    A gente se torce
    E torce pra dar certo
    No meu abraço eu te aperto
    No meu colo eu te espero

    E te protejo 
    Do sol, da chuva, do trovejo
    De tudo o que não prevejo
    Mesmo que teu tropeço
    Te escape do meu beijo

    Segunda-feira eu acordei
    E não te encontrei aqui
    Do meu lado, jogado
    Meu amor, vem ser meu rei
    Te quero sorrindo
    Com o cabelo zoado
    Te quero pedindo
    Pra eu virar pro teu lado

    Meu amor, tentei ser lei
    É segunda-feira, eu sei 

    Se chover a gente espera
    Ou se joga pelas beiras
    A gente reinventa uma arandela
    Uma calçada, uma ruela 
    Uma casinha amarela

    A gente se vira
    Segunda-feira a gente vira
    A página, a lágrima, a formiga

    Eu que o diga

    Vem deitar na minha barriga
    Pra espantar o frio que me intriga

    Vem deitar na minha vida
    Me tirar da rotina

    Tudo bem, a gente se vira
    Eu te protejo e você me abriga 
    Ou vice-versa 
    Não tenho pressa

    Na próxima segunda-feira 
    A gente faz festa


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: reinventing the ubiquitous garden chair, by Bert Loeschner.

    **

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  • [Futuro desdobrado]

    [Futuro desdobrado]

    Eu quero um mundo perfeito
    Todo mundo tem esse direito
    Mesmo que o pânico nos teus olhos
    Deixe meu absurdo rarefeito

    Do fugaz ao plural
    Strawberry fields
    Borbulham sem igual

    O que naquele dia não podia
    Se transformou em rebeldia
    Contaminado por velhas juras
    Eu to aqui, eu te queria

    Dobras ralas se perdem
    Obras raras se encontram
    Encontro marcado não se mede
    Feliz pra sempre não se pede
    A nossa vida a gente monta

    Tenho um sonho dormente, no entanto
    Assim, bem do meu tipinho:
    um pacote de coisas boas e outras nem tanto
    E por isto mesmo interessantes
    E por isto mesmo nem me espanto
    Com teu sorriso em pranto
    Pois no meu peito te recolho
    Enquanto seco teu olho

    Segunda-feira taciturna
    Ilumina nossas diferenças
    Encanta nossas igualdades
    Desenha novas tatuagens
    E nos cola um no outro
    Perto o suficiente para nos vermos,
    nos ouvirmos, nos sentirmos,
    nos torcermos, nos esvairmos…
    Perto o suficiente para
    tornar o mundo perfeito

    Sabe quelas expectativas triviais que fazem nossos olhos brilharem?
    Pois é, você me desdobra e me descobre e me cativa
    Me faz ver o mundo por uma outra perspectiva
    Me faz sonhar à deriva no espaço de um beijo
    Entre um gole de café e um bocejo

    Então agora a gente comemora
    Com recheio de doce de leite com amora

    Então agora a gente vai embora
    Pra nossa lua de mel embrulhada em papel

    Então agora a gente se devora
    E sente que o presente é entorpecente

    Então agora a gente se demora
    Pois quem namora também chora
    E que venha o futuro afora
    Desdobrado, zoado, embarcado
    Já é hora


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Strawberry fields, acrylic on paper 24″x18″ by Marcelo Daldoce, a painter from Minas Gerais who lives in and works in New York City. His work is focuses on the terrain beyond the conventional two-dimensional landscape of paper and canvas. In bringing to life a flat surface, he strives to create a puzzle between what is real and what is illusion, what is painted and what is manipulated, turning paint to flesh, paper to sculpture. The figures are trapped on the folds of paper, representing old habits we gather from our parents, experiences, traumas… He believes nothing is more challenging than painting the human figure: it carries expression, feeling, history, and his goal is to bring it to life and make it say something (without saying anything at all).

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  • [Alfaiataria]

    [Alfaiataria]

    Deixe-me costurar minha vida na tua
    E admirar a estrela vespertina
    Que ilumina meus sonhos de menina
    E me leva pra rua

    Deixe-me recortar as bordas do teu peito
    Até achei que eu não tinha esse direito
    Só que tem coisa que merece o meu bocejo
    E minha fé pura

    Fatos versus argumentos
    Padecem no firmamento
    A causa é nobre, eu entendo
    Mas a batalha é podre

    E muita coisa não tem preço
    Muita coisa é só apreço
    Muita coisa fica em segredo
    Muito se quebra feito gesso

    Se foi assim desde o começo
    Eu faço um ponto e te costuro todo
    Num novo ensejo
    Vem comigo, vem ser meu aconchego

    Só assim eu apareço
    E aparento costurar teu futuro
    No meu peito
    Saudade, te despeço

    Deixa que eu seja teu sossego
    Segunda-feira te desejo
    Enquanto padeço
    Em teus lábios desfeitos…


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: Ukraine-based fine art photographer Oleg Oprisco’s imaginative photographs — featuring mysterious young women, fantastical props, and hazy, dreamy colors — evoke a strong sense of otherworldliness, as if they depict scenes from fairytales or ethereal realms.

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