Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

segunda-feira

  • [Despedaçada]

    [Despedaçada]

    Você me deixou assim
    Numa tarde sem fim
    Despedaçada

    Desleixo premeditado
    Cabelo amassado, jogado pro lado
    Tentei me juntar, mas fiquei ali…
    Despedaçada

    Não gosto quando você demora
    A fome passa, mas não as horas
    Você me deixou jogada, dividida, recortada
    Pensei que era breve mas fui enganada
    Você me deixou despedaçada

    Tracei mil planos no ar
    Mudei os móveis de lugar
    Guardei todas as roupas jogadas na sala
    Fiz uma limpa na caixa de entrada
    Que tarde linda e eu aqui virada
    De pernas pro ar, despedaçada

    A casa vazia ecoa teu cheiro
    Fico abismada se não te vejo
    Fecho os olhos e engulo seco
    Sonhando com teu abraço forte
    A juntar meus cacos,
    meus afagos e meus tropeços
    Sou tua amada e estou despedaçada

    Não me deixe assim calada
    Contando vultos na calçada
    Ouvindo a saudade no ronco dos carros
    Ruminando a vontade do teu amasso
    Volte logo, senão eu grito
    Eu te adoro e assim não vivo
    Não quero mais flutuar nesse limbo
    Não me deixe mais despedaçada

    Em plena segunda-feira
    Não tenha pena, apenas queira
    Apenas venha ao meu encontro
    Esteja então apenas pronto
    Enquanto eu monto ponto por ponto
    Meu corpo torto que te aguarda
    Minha alma parda que te afaga
    Na varanda da minha casa
    Te espero aqui, despedaçada

    Dispa-se pra mim e serei tua
    Apenas existindo à luz da lua
    Talvez apenas crua
    Talvez nua, talvez linda,
      talvez rindo à toa
    Remendada na rua
    Costurada nos teus versos
    Amarrada no teu sexo
    Talvez nada, talvez apenas
    …despedaçada

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    ilustração deste poema: A arte consegue modificar ambientes e situações usando criatividade e sagacidade. Para fugir do tédio do dia a dia, o ilustrador francês Troqman decidiu apostar em seu bloquinho de notas e criou o projeto Cartoonbombing. No Tumblr do projeto e em seu Instagram, ele posta semanalmente, desde 2013, algumas intervenções que faz em cenários do cotidiano.

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  • [ कल ]Kala: presente, passado e futuro na Índia

    [ कल ]Kala: presente, passado e futuro na Índia

    Ainda não inventaram máquinas do tempo, mas garanto a vocês que visitar a Índia é como voltar ao passado. Tenho uma prima que se mudou pra lá há 5 anos e, depois de vários convites para uma visita, resolvi me organizar pra conhecer um pedaço do outro lado do mundo, afinal de contas, esse seria o último ano dela lá como “cidadã indiana” – sim, ela tem longos cabelos escuros, pele amorenada e olhos amendoados e passa fácil, fácil por nativa. Inclusive, em alguns dos lugares que visitamos, ela pagou preço local – eles cobram mais caro dos turistas, sabia?

    A mudança dela para o país aconteceu por conta de uma proposta de trabalho que o marido recebeu: fazer parte da equipe de implantação da fábrica da Volkswagen na Índia. No começo, tudo era místico e novo. Tudo parecia desafiador e colorido. A empatia pela história, pelas dificuldades que as pessoas enfrentavam do outro lado do mundo e pela busca por um entendimento de vida mais holístico ganhava proporções universais. E a vontade de falar sem parar preenchia a alma dela e as histórias que ela contava preenchiam a alma da gente.

    Depois de 5 anos, os hábitos de não dizer não, o pouco caso com a higiene, a confusão de idiomas entre castas que não se entendem, a pimenta em exagero em todas as receitas, a falta de compromisso com clientes, processos, pessoas, vontades, desvontades, crenças, diferenças… a convivência com pulgas que saltam até na areia da praia – já que eles não matam nenhum animal, nem os parasitas –, com os corvos que pousam nas mesas dos bares em busca de restos de comida, com as fezes de pombos nas calçadas, os lixos pelos cantos, e, principalmente, com o endeusamento do hipotético e o abandono da realidade, começam a incomodar. Muito. Não adiantava falar. Melhor calar.

    Embarquei numa segunda-feira e eu nem estava em pânico, muito pelo contrário: eu estava preparada para muita coisa e tinha muita vontade de sentir toda essa realidade. Eu queria me calar e deixar o mundo falar. Não imaginei, no entanto, que efetivamente viver essa realidade me faria acordar ao som de bicadas de corvo na janela do quarto. Nem tampouco usar aqueles lenços lindos ao redor do rosto não apenas pra me proteger do calor escaldante e constante de 30ºC, mas pra limpar as mãos depois de comer lanches de nomes impronunciáveis e, ainda, pra cobrir o nariz e não sentir o cheiro forte de temperos misturados com carne podre, saliva e restos de comida pelas ruas. Complicado respirar. Impossível falar. Melhor mesmo calar.

    Quando você admira uma foto, você não ouve o que ela conta. Quando você tem a chance de fazer parte de uma foto, ela ganha cheiro, som, cor, textura, sabor, e aquela história passa a fazer parte de você. E então você percebe que a foto fala. E eu faria tudo de novo; exceto a parte de andar de elefante e observar o rapaz batendo com um bastão de ferro entre as orelhas do animal para ‘dizer’ se ele devia virar à esquerda ou à direita; sentir a saliva do bicho molhar-lhe o ventre a procura de refresco – será que ninguém lhe dera água? – e, ainda, perceber que seu cativeiro era um anel de ferro com garras internas que lhe feriam as patas. Eles não ouvem o que os elefantes falam? Ou se calam diante do que só acham que não os atinge?

    Ganesh – uma das mais conhecidas e veneradas representações de Deus no Hinduísmo, com corpo humano e cabeça de elefante, e considerado o mestre do intelecto e da sabedoria – é o “padrinho” da cidade de Pune, onde minha prima morou e onde fiquei por 15 dias. O povo endeusa o animal e o reproduz em tudo: no ímã de geladeira, na pequena estátua colada ao painel do carro, na bolsa, na almofada, nos saris, nas cortinas, nos chaveiros… Pedem proteção, fazem orações… Mas o bicho mesmo, o bicho vivo, o bicho que tem sede e fome, o bicho que sangra… Esse eles não cuidam. Apenas se calam.

    Ganesh é conhecido também como o destruidor da vaidade, egoísmo e orgulho. Ele representa o perfeito equilíbrio entre força e bondade, poder e beleza. Também simboliza as capacidades discriminativas que proveem a habilidade de distinguir entre verdade e ilusão, o real e o irreal. Não, pera… Como assim? Deixa eu falar…

    Sim, temos muitos valores divergentes aqui no Brasil, assim como em todos os demais países do mundo. Cada cultura tem suas peculiaridades, mas há inversões que fogem do senso comum, seja lá o que isso seja num país que deixa suas crianças dormirem ao sol e permite que estuprem suas mulheres. Não sei quem fala, não sei quem cala. Tampouco quem entende.

    Entretanto, quando falo que viajar à Índia é voltar ao passado, nem disso a que me refiro. Na praia de Candolim, no estado de Goa, onde passamos alguns dias, encontrei pessoas falando português. O estado, menor dos indianos em território e quarto menor em população – porém o mais rico em PIB per capita da Índia –, esteve sob o domínio de Portugal por mais de 400 anos e suas igrejas e conventos são até classificadas como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Toda a arquitetura da região lembra o Brasil-colônia que vemos em livros de história, em novelas de época ou em documentários. Parece que o estado ficou parado no tempo até porque as paredes não recebem novas pinturas há anos e as instalações elétricas decadentes – que um dia pegaram fogo – pretejam as esquinas e decoram os arredores – pois as pessoas não se importam em instalar seu comércio ali mesmo, no que sobrou depois que o fogo apagou. Não sei quem fala, não sei quem cala.

    Na praia, o solo estupidamente arenoso não convida ao banho de mar: uma onda mais forte pode cavar a areia debaixo dos teus pés e te levar embora Mar da Arábia afora. E não se sabe quem fala ou quem cala. Foi lá que vi pulgas saltando na areia, que praga.

    Na Índia bebi água das torneiras, entrei num abatedouro de porcos e cordeiros, vi gatos com olhos furados atacados por corvos e gaviões, búfalos com chifres pintados de vermelho, porcos sem uma das orelhas, cachorros mofados, automóveis abandonados, idosos cochilando em cima da sua bancada de verduras no mercado público, abraçados a cabritos, depois de almoçar e orar, paredes marcadas por cusparadas de tabaco. Falar ou calar: não importa. O som tem cheiro na Índia, basta observar.

    Cheiro que repele mas que também alimenta. Lá, comi flor de lótus temperada, admirei mangueiras seculares, bebi o suco da manga mais alaranjada e doce que já existiu, comi frutas com sal e provei uma sensação sem igual, vi olhos brilhantes e sorrisos contagiantes, barganhei descontos nos artesanatos mais cativantes e carreguei comigo uma experiência incomparável. Eu queria falar, mas só conseguia calar.

    Em hindi, a língua oficial da Índia, existe uma única palavra para dizer tanto ontem quanto amanhã: “kala” (कल). Num país que não tem conceito de passado ou futuro, a máquina do tempo é o presente aqui e agora, e tudo acontece ao mesmo tempo: a vida, a morte, a chegada, a partida, o encontro, a despedida, as buzinas no trânsito, a desorganização, a limpeza, a troca, o trabalho, a família, o progresso, o acaso, a magia, o apego, a nostalgia. Lá, tudo fala. Enquanto o mundo kala.



    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: foto de um cartaz em frente a uma loja de instrumentos musicais em Pune, na Índia.

    Mais fotos? Clique aqui e não deixe de ler todas as legendas.


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  • [Sem teto] ou [Em queda livre…]

    [Sem teto] ou [Em queda livre…]

    Foi quando fiquei sem chão
    Que o céu se abriu sem nexo
    Depois de um dia comum, em vão
    O mundo se queixou perplexo
    O futuro estava tão perto
    E escorreu por minhas mãos
    De repente, não tinha graça
    Não tinha nada, não tinha teto
    Não tinha sexo, não tinha casa
    Não tinha som, nem alma, nem asa
    Em queda livre numa cova rasa
    Segunda-feira amarga

    Fiquei preso àquelas vontades
    Escravo de uma razão torta
    De uma carência ambígua
    Alimentada por um medo antigo
    E por um desejo infinito
    Quando me vi banido, varrido
    A vi absorta e um pouco afoita
    Até achei que ficaria diferente,
    Mas apenas uma árvore nova nasceu
    Onde antes o arrependimento
    Impregnava o presente
    Segunda-feira reincidente

    Sem teto
    Avesso ao universo
    E a tudo mais que prezo
    Esfolado da cabeça aos passos descalços
    Interrompido por uma visceral falta de sentido
    Surpreendido, bandido
    Na densidade do dia seguinte
    Acordado pelo coração nos olhos
    E as lágrimas no sorriso
    Rasgado pelo ralo entorpecido
    Em queda livre, bandido
    Segunda-feira acordei decidido

    Naquele dia não podia
    Eu até achei que não queria
    Mas quando me deparei com seus olhos
    Ah, seus mornos olhos
    Tudo mudou, tudo virou
    Num piscar de olhos
    Eu vi meu mundo caótico
    Por vezes psicótico e profético
    Tragi-cômico e patético
    Virar filme Technicolor
    Em queda livre eu te decoro
    Segunda-feira eu choro

    Minhas convicções imutáveis
    Se perderam nos teus passos rasos
    Meu coração arisco de repente ficou calmo
    Minha pressa áspera mudou teu repertório
    Sei lá, pelo menos é o que eu acho
    Você chegou falando baixo
    Sabe, repertório se faz com o que se vê
    E eu quero mostrar meu mundo pra você
    Em queda livre, sem teto
    De perto, de olhos abertos
    Até que nossos olhos pisquem pela última vez
    Segunda-feira talvez


    ❝ by Tina Teresapanicmonday


    ilustração deste poema: ‘Colourant’ is a series of images produced by the duo of artists Floto+Warner (Jeremy Floto and Cassandra Warner) that seemingly turns large splashes of colorful liquid into sculptures that hover in midair. The photos were shot at a speed of 1/3,500th of a second, transforming the non-discernible and ephemeral to the eternal. The essence of photography – immortalize the transitory.

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  • [Ouça-me]

    [Ouça-me]

    Ouça-me
    Com sua pele tensa
    Sua vontade imensa
    E sua boca intensa

    Ouça-me
    Com seu olhar intrigante
    Seu abraço inebriante
    E seu sorriso ofegante

    Ouça-me
    Com sua rotina quebrada
    Sua ânsia esmagada
    E sua certeza esgotada

    Tenha-me
    Com sua memória
    Sua boemia ilusória
    E sua destreza transitória

    Cale-me
    Com sua sede insana
    Sua melodia plana
    E sua voz cigana

    Ouça-me
    Com seu corpo inteiro
    Mas dispa-se primeiro
    De todo o seu desespero

    Lace-me
    Com sua culpa adormecida
    Sua barriga mordida
    E sua promessa entorpecida

    Ouça-me
    Talvez eu fale agora
    Talvez eu abra a porta
    E espante o medo embora

    Leia-me
    Com sua risada faceira
    Sua rima primeira
    Ou segunda, se for feira

    Toque-me
    Com seu universo
    Seu carinho (in)verso
    E seu tempo incerto

    Beba-me
    Estrela por estrela
    Engula cada centelha
    Da vida que me incendeia


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Art: Fluorescent landscapes painted on female bodies by artist John Poppleton

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  • [Vestida de flores]

    [Vestida de flores]

    Visto-me de flores
    Pra te encontrar
    Perfumo sabores
    Provo cores
    Troco promessas por tenores
    Pra você não tergiversar

    Escondo dores
    Pra te fazer sorrir
    Rabisco poses
    Ensaio pequenos tremores
    Aperto o passo nos corredores
    Pra você não fugir

    Apago temores
    Pra te abraçar
    Desenho acrobatas e aviadores
    Desfilo sonhos e amores
    Disfarço pudores
    Pra te encantar

    Visto-me de flores
    Pra você me despir
    Desprendo-me do ir e vir
    Até teu beijo me invadir
    Reinventar meu devir
    E me nutrir

    Vestida de flores eu chego
    Misturada a teus enredos
    Coberta por pétalas e medos
    Descobrindo desejos
    Exalando aromas estreitos
    Segunda-feira eu tento…

    Vestida de flores eu quero
    Teu presente mais sincero
    Camuflado num buquê de alface
    Ou escondido num castelo
    Pra te encontrar sem disfarce
    Vestida de cetim belo e efêmero

    Roupa que se desfaz
    Cenário que jaz
    Pra te descobrir
    Te dobrar, te colorir, te seduzir
    Te inserir na minha rotina fugaz
    Pra segunda-feira fruir



    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Art by @grace_ciao

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  • [Solar flare]

    [Solar flare]

    Meio sem querer
    Quase sem perceber
    Daqui parece tão longe
    De perto parece tão frágil
    No centro parece tão forte
    Tão quente, ardente, inconsciente
    Tão lindo, gigante, latente

    A luz que ofusca
    Esconde a busca
    Pela vida partida
    Que explode perdida
    E encontra na avenida
    Uma nova rota
    Subtraída

    Quero provocar um eclipse
    Pra tua luz me invadir
    Me vazar, me sobrar, me parir
    Pra tua voz me beijar
    Ainda com os olhos fechados
    E me embalar dançando, antes de dormir
    Pra eu seguir sonhando, antes de acordar

    Me apaixono por tua cumplicidade
    A cada passo que gente dá
    Como se as pegadas na areia da praia
    Fossem pequenas promessas
    Marcadas pelo peso dos nossos corpos
    Levadas ao mar pelo vento
    E seladas pelo firmamento

    Na velocidade que o mundo gira
    Não tem como ficar parado
    Tudo muda, tudo voa, tudo pira
    A cumplicidade, no entanto, permanece lado a lado
    Mas é preciso reinventá-la numa prece
    E cobrir a luz do sol
    Pra descobrir a explosão que verte

    Na segunda-feira a gente vê
    O que sobrou dessa explosão
    Se no final de semana a gente faz fuzuê
    Na segunda-feira a gente gruda
    Todas as memórias surdas
    E elimina a paranoia
    Antes que o cansaço fuja

    To be unremarkable for others is remarkable for me
    Just like a solar flare is how I imagine you to be
    Your voice broke my monday evening
    And everything in between
    Your heart beats my song
    Your eyes are my sky, my life, my world enough
    Please never leave me alone

    Be my atmosphere
    Let me shine
    Flare by my side
    My only sunshine
    Be Panic
    Take me to fly…
    Be mine


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Illustration: a look at the mid-level solar flare from Sunday, August 24th, 2014’s taken with the LASCO C2 coronagraph on NASA/ESA’s SOHO spacecraft. A coronagraph is a special type of telescope that uses a solid disk to actually cover up the Sun itself, completely blocking direct sunlight, and allowing us to see the atmosphere around. Taken 2 hours after the flare, this image allow us to see the hot plasma of charged particles being ejected towards the side of the Sun.

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  • [Super]

    [Super]

    O céu fechou em riste
    Choveu em teu semblante triste

    Deixou tudo escuro
    Inundou teu coração impuro

    Até que era bonito
    Pra não dizer esquisito

    Teus demônios em luta
    Numa poça d’água funda

    Eternidade disfarçada
    Afogada na calçada

    Esperando a luz voltar
    Esperando o sol brilhar

    Pra eu poder compartilhar contigo
    E entender os teus motivos

    Tava tudo indo tão bem
    Mas o céu fechou em riste, meu bem

    Nos teus olhos d’água eu vi
    Feridas encharcadas so sweet

    Feridas vertidas em sal e poeira
    Ardendo, arranhando, rasgando tua vida inteira

    Chorando na frente do espelho
    Entre a abstinência e o vermelho

    Na sobra da segunda-feira seca
    Tua sombra cicatrizou tão lenta

    Pro mundo girar sozinho um pouco
    Pra tudo fazer sentido louco

    Será?

    Tem muita coisa pra superar
    Tem muito super pra descoisar

    Tem muita água pra rolar embora
    O céu fechou em riste e foi agora

    Mas vai passar

    Você é super e tá machucado
    Deixe a tempestade esvaziar teu passado

    Super limpo, super lindo
    De peito aberto, cravado de infinito

    Super forte, de toda a sorte
    Metáfora de morte

    Pra tua dor derreter
    Pra eu entender o teu ok


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Art: Superman in powerwashing

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  • [De graça, nada]

    [De graça, nada]

    Nada vem de graça. 

    Nossa vida é uma constante transformação, momentos de paz e equilíbrio nos invadem, a segunda-feira vem toda a semana fazendo alarde.

    De repente parece que a rotina não tem graça e um choque de realidade, de pura maldade ou falta de maturidade nos confronta. Então tudo contrasta.

    Quando isso acontece, a acidez nos abraça e o instinto toma conta. Daí a visão se livra da neblina que nos afronta e o aconchego nos abandona.

    Mas é bom. Ignorance is a bliss. Conhecimento dói. Saudade corrói. Palavras ditas docemente criam promessas e desejos inconsequentes. E tudo se despedaça.

    É uma pena que você faça pirraça. É uma pena que nossos assuntos pendentes fujam do presente e se evaporem na vidraça dos nossos sonhos, feito fumaça…

    De ofegante, teu beijo virou tratante. Parecia passeio na praça. Ou na praia, numa agenda falsa. Virou desgraça. Passa ou repassa? Nada vem de graça.

    Mesmo que eu culpe aquela maquiagem frustrada ou a noite lotada de olhares tensos e desencontros intensos.

    Mesmo que uma simples fotografia seja motivo de agonia pelo brilho combinado entre o gole trocado e o pecado anunciado.

    Ou que o recado deixado fira feito adaga atirada nas costas que doem, machucadas. Se a noite é uma criança, que dizer da madrugada?

    Talvez a roupa amassada ou a toalha jogada sejam cartas marcadas. Ou só mais uma rodada, uma aposta inebriada. Uma ameaça atravessada por um oceano de trapaças.

    Do que você acha graça? Você pensa que um “bom dia, gata” disfarça? Você pensa que o teu cheiro grudado no meu travesseiro ainda te aguarda?

    Prepare o vinho que eu levo a taça. Ofereço um brinde à escolha nefasta. If it was a tinder, you better whatch out. #Simplesassim: nada vem de graça.

    Mas ainda há graça nas mancadas do destino. Não economize sorrisos nem esconda essa mágoa isolada sob uma capa mágica. É bom soltar as lágrimas. Tudo passa.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

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  • [Mad is needed]

    [Mad is needed]

    Segunda-feira não tem prazo de validade…

    In my head you live and in your mind I fuckin’ stay. If my hair is crazy, let’s make a trip. Let’s plug n’ play. Toda noite tem rock n’ roll, meu amor. Toda noite tem. Todo dia tem. Tem verso ao inverso, tem começo e tem inteiro um universo bem de perto. Mad is needed, confesso. Meu olhar é teu ingresso, não precisa falar nada, você sabe que te amo calada.

    Tuas asas crescem a cada nova largada, a cada nova nota de música descompassada enquanto o mundo nos entrega toda a prosa, toda a bossa, toda a nossa nova alvorada. Descabelada na morada. Namorada. Afogada no teu pranto manso, sonho com estrelas que chovem beijos no meu seio esquerdo. Mad is needed. Tudo e nada.

    Alienada…

    Me apaixonei por você na noite passada. Que sorte, que susto. Surto. Absurdo. Não quero nada, já tenho tudo. Parece justo. Take a deep step. It was just a click, we haven’t care. Now we can fly and flare cheek to cheek through the sky… You and I, babe… You and I… Mad is needed. Be panic. Be my pride. You were bleeding, now you’re mine. 

    Monday to Monday. Side by side. From the darkest moon to the sunshine. 



    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Photo by Tina Teresa

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  • [Quase]

    [Quase]

    Nunca a frase de Saint-Exupéry fez tanto sentido
    Vi a eternidade desbotar diante dos teus olhos tremidos

    Meu amor, não foi tua intenção me cativar
    Que será de mim agora se tua voz
    É só uma lembrança sussurrando no meu ouvido?

    Gosto de espelho, banheiro, edredom, chuveiro
    Do teu sorriso safado, inteligente, criativo, aventureiro

    No teu abraço apertado há demônios e outros amores
    Será que se deixar cativar por alguém é isso?
    É querer algo que não cabe nem na linguagem, nem no infinito?

    Quase o improvável substituiu a distância
    Quase nossas incoerências dissolveram a tolerância

    Nossos nós e nossos defeitos derreteram nossos sonhos
    Nossa incompetência escapou da filosofia careta
    Entre sua atmosfera interior e o resto do planeta

    O cotidiano superou a surpresa
    Teu gosto solúvel avistou meu amor de duquesa

    E as promessas veladas… Ah, as promessas veladas
    Estacionadas no quase imponderável
    Vencidas pela fugaz percepção inefável

    Até quem olhava de fora percebia
    Ancorada em nossos laços pairava a sintonia

    Onde foi parar a eterna responsabilidade?
    Aquele querer respirar junto e cativar a liberdade?
    Onde foi parar o futuro? Foi quase…

    Nós e nossos imperdoáveis medos
    Nós e nossos quases perdidos no tempo

    Tudo remetia ao caminhar conjugado
    Toda a matemática, a literatura, a ciência dos ventos trocados
    Tudo era quase, menos o imponderável

    Você e seu talento pra chegar atrasado
    A nós, resta assistir a tudo calados

    Até quando vamos alimentar essa companhia solitária?
    A quase união foi interrompida pelo abandono
    Os quase momentos viraram desertos sem sono

    Como posso lamentar o que não nos coube?
    Até cheguei a provar-lhe as lágrimas, o que houve?

    Não dá pra ser quase feliz, quase pronto, quase quase
    Nossos tempos incompatíveis, nossos afazeres aqui e ali
    Quase é um advérbio de tempo que não sobrevive ao “vem dormir”

    Nada fácil viver no quase sem fresta
    Nada fácil deixar a porta entreaberta

    É uma irresponsabilidade extraordinária
    Cativar alguém e partir pra indiferença
    Cativar alguém e só agradecer a presença

    Não, o quase não é só isso
    Companhia sem compromisso

    Ou você acha que quase amar
    Permite fugir e se descontrolar
    Separar primeiro para depois se encontrar?

    Não é o acaso que nos prende na tempestade
    São nossas escolhas, nossas verdades e nossas amizades

    “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
    Não dissolva a eternidade no quase, minha vida
    Não permita que teu vazio abafe a despedida

    Tenho preguiça do teu vacilo que me definha agora
    Não faço mágica nem nada pra tirar sorriso da cartola toda a hora

    Vivo no quase esperando o depois
    Não me esqueço do antes, não esqueço nós dois
    Se houver vontade, a gente grita gol

    Já é quase segunda-feira e eu não decidi ainda
    Se adormeço ou se a dor meço enquanto a noite finda


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Art by Jarek Puczel, who approaches his work with the idea that life is a movie or a game of illusion and the world is a playground where different realities play with one another. Quase como um quase.

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  • [Pulga ninja]

    [Pulga ninja]

    Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

    Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

    Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

    Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

    Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

    Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

    Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

    Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

    Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

    Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

    No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

    Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

    Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

    Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

    Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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