Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

segunda-feira

  • [Acho]

    [Acho]

    Sua vida não é um caso raro, muito pelo contrário.

    Você não quer incomodar, não quer interromper meu sono, não quer tomar meu tempo.

    Porém, só o que você faz são trapalhadas: vem quando não deveria, diz algumas bobagens, fica um pouco nervoso…

    Você diz que sou linda, agradece a acolhida, e então, no seu ímpeto de pensar demais, de viver uma utopia, de tentar apressar o dia-a-dia, você espera não ter me decepcionado “de alguma forma”.

    Espera equivocada, pois você decepcionou sim. Não foi a aparência, tampouco a insistência ou a falta de eloquência.

    Foi por pensar demais. Por não se deixar levar. Por não ser pontual, por não ser honesto, por achar que meu discurso era só resto de uma história que você não ouviu.

    Então você resolve fazer um relato. Mesmo já avisando que o acha irrelevante, desnecessário e indiferente.

    Tão indiferente quanto sua visita atrapalhada, sua presença atrapalhada, meu abraço frouxo.

    Sim, você errou em tentar explicar o inexplicável e apontar o invisível a alguém que sabe que está lá mas finge não existir nem em si corrompido pelo conforto de uma suposta permissão encontrada na passividade para analisar, subjugar, ignorar.

    Então você se lembrou da sua história, do mundo, do sistema, do marketing, da teoria da evolução, do ateísmo, do cristianismo, da hipocrisia, da mentira, da verdade, da realidade.

    Você se lembrou que não deve fazer isso novamente, e a razão é simples… você também analisa, subjuga, ignora.

    E por tudo isso é que eu acho que você é poeta numa segunda-feira discreta.

    Acho que você vê o mundo (e as pessoas) de uma maneira única e até um pouco doentia.

    Acho que você pensa demais. Sim, eu já disse isso, e continuo achando. E inclusive acho que é isso que te cega.

    Acho que você perde tempo demais tentando julgar, tentando entender, tentando justificar, tentando encontrar motivos que lhe abram os olhos ou os caminhos ou os sorrisos ou os braços para que o abraço seja apertado e não frouxo.

    Acho que você tem razão em tudo justamente por apenas pensar e na verdade não saber de nada.

    Acho que você vive em busca ao invés de ser. Ao invés de existir. Ao invés de acontecer.

    E eu também acho que você me inspira com sua incrível filosofia engatada. Com seu discurso “eu não devia” mas tentando. E ainda assim buscando. E não sendo.

    E eu acho que você mais diz do que faz.

    E também acho que seu relato não existe.

    No seu discurso há desabafo, sim. Há peso. E até há alma. Mas não há vida.

    Acho, ainda, que você treme enquanto pensa.

    E que você se sente obrigado a sorrir porque se você tem vencido todos os obstáculos que surgem em seu caminho, você deveria ser feliz, mas não é.

    Eu acho que é isso que você acha. Mas eu não sei. Eu apenas acho. Só acho.

    E também acho que você está mais preocupado em mostrar quem você é (ou quem você pensa que é, ou quem você gostaria de ser) e imaginar quem eu sou (ou quem você gostaria que eu fosse) a me perguntar quem eu imagino ser, quem eu quero ser, me ouvir, me conhecer.

    Você me dá informação demais, escolhas demais, opções demais, definições demais, conclusões demais, lamentações demais, decisões demais, trapalhadas demais.

    E eu também acho que você se precipita. Ok, eu só acho. Porém se eu só acho, você definitivamente não sabe de nada.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

    **
    Art: Hug me by Chuck-tan.

    Continue: [Acho]
  • [Pulp]

    [Pulp]

    Falei demais
    Brinquei com as palavras
    Poupei o pranto

    Dei de comer aos versos
    Sem querer, confesso,
    amei all the time…

    Sabe, the days of me forgetting are over
    And the days of me remembering have just begun
    I can enjoy the silence with a smile
    But if you play with my matches, you’ll get burned

    Como é que as coisas funcionam?
    Mocinhos nem sempre ganham no final
    De vez em quando as palavras nos abandonam

    If my answers frighten you…
    Then you should cease asking scary questions
    Don’t you think? Vamos rechear todo nosso resto?

    Não existe riso redondo, perfeito, completo
    Existe riso repleto de palavras escondidas
    Você fala a minha língua?

    Palavras consumidas fade away
    Esvaziando a memória que habita
    …ora densa, ora delicada…
    Na cortina da sua mordida

    I can’t count all the ways I’ve died for you
    All I can say is “my words’ got blue”
    Pra não desgastar, pra não afastar ou apagar
    Pra não consumir o seu sentido próprio

    Don’t let them make up your mind
    Minhas palavras cheias de intensidades
    São sinceras atmosferas
    Na melhor combinação

    Nem sempre simples, nunca óbvio
    Palavras são telescópios
    Que recheiam nosso pódio

    Dança comigo?
    Por uma manhã, uma tarde, uma noite, dois dias…
    Quero mais intensidade do que duração
    Sem obsessão ou possibilidade de frustração

    Não quero que a saudade roube a felicidade
    Quero somente o que a gente já tem
    Uma liberdade a dois cheia de depois
    Cheia de palavras imperfeitas
    Recheada de segundas-feiras

    Tudo bem? O quê que foi?
    Falei demais?
    Foi por amor


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Artwork by Genie Melisande

    Continue: [Pulp]
  • [Ao redor]

    [Ao redor]

    Sigo petiscando saudade
    Ao final de cada estação
    Na vibe entre o sim e o não

    Se o instante feliz vira desejo
    Choro diante do espelho
    (Ao redor) do meu sossego

    Lembro do timing que nos aproxima
    Tento enxergar a saudade na colina
    São seus braços misturados à neblina?

    O que temos em comum
    é o que nos diferencia
    (Ao redor) da luz do mesmo dia

    Deixo que as lágrimas levem
    Todo o traço, todo o cheiro
    Cicatriz de apego derradeiro

    Tão longe, tão perto
    Desalinha o meu deserto
    (Ao redor) do meu avesso

    Do outro lado da linha,
    a mesma lua, o mesmo teto
    O mesmo tempo incerto

    A nossa valsa, o nosso samba
    Na corda bamba a gente dança
    (Ao redor) da volta-e-meia da ciranda

    Cedo demais ou depois de horas?
    Andar pra trás te traz de volta?
    Atrás da porta eu guardo a bossa

    Essa demora faz bagunça
    Lambuza as noites, esfria os dias
    (Ao redor) das asas da alegria

    Cozinho o sono num banho morno
    Afogo a fome numa nuvem de espuma
    Atraso o sonho no edredom de outono

    Haja fôlego pra essa espera instável
    Até a segunda-feira pula a cerca
    (Ao redor) da mesma dúvida inefável

    Então a ressaca da resposta azeda,
    abandona na esquina da lembrança
    a vontade esmagada feito folha seca

    Quero cores, amores e beijos sem fim
    Vê se não esquece de ligar pra mim
    (Ao redor) do aroma do meu chá de jasmim

    Senão a saudade vira aperitivo, vira estopim
    Porque você escolheu meu jardim
    pra plantar suas flores de cetim

    Eternal sunshine, confunde a mente
    Difunde o brilho do sol ao ventre
    (Ao redor) da vida, bem na sua frente

    Onde será que guardei a memória
    Do nosso passo colorido na calçada
    Foi nessa spotless mind iluminada?

    Por isso deixo o dia à luz da noite
    Hipnotizo a liberdade absorta
    (Ao redor) de cada pétala solta

    Sobrevivo, sobrevoo, sinto, pouso
    Deixo todo meu destino envolto
    Pelo brilho do sorriso no seu rosto

    A mesma lua, o mesmo teto
    Petisco saudade até acabar o inverno
    (Ao redor) da lembrança deste brilho eterno


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Photo by @leodorio_

    Continue: [Ao redor]
  • [Talvez, carpe diem]

    [Talvez, carpe diem]

    Talvez seja melhor você não pagar suas dívidas comigo
    Talvez meu pânico vire sonho se pairar dúvida sem brilho
    Toda vez que eu sinto frio ou quando eu me viro

    Talvez seja melhor essa sensação ilusória de certeza
    A permitir que a mente crie cenários dementes na aspereza
    Na tentativa de evitar que o bom humor vire tristeza
    Na defesa dos sorrisos, dos abraços, dos suspiros
    Toda vez que seu momento coincide com meu abrigo

    Talvez seja melhor sobreviver me lambuzando com geleia de amora
    A esperar seu bom-dia entorpecido num buquê de “onze-horas”
    A sonhar com seu desejo esquecido misturado com saliva
    Ou ouvir o que você me diz com suas palavras mofadas
    Toda vez que sua escolha coincide com minha alvorada

    A vida não é um teatro com tudo ensaiado e combinado
    Não tenho ideia do que é certo (ou errado?)
    Não tenho ideia do que é estar sempre por perto (ou do lado…)

    Não gosto de esperar. Nem de soluçar…
    Talvez seja melhor eu lembrar de respirar fundo
    Pra aliviar a voz ao falar contigo, toda vez que você ligar

    Paciência nunca foi meu forte
    I love and hate monday in panic
    Encontrar você foi um gole de sorte
    Uma vírgula sortida na delícia da despedida
    Na malícia da segunda-feira bandida

    Talvez seja melhor dizer o que se quer dizer
    Com palavras certas em frases incertas
    Ditas sem pensar no que se quis permitir
    Ditas sem pedir o que ficou prometido
    Do que calar e deixar o sonho fluir

    Será?

    Talvez seja melhor falar sem medir
    A fingir palpável o alcance frágil
    Toda vez que você me invade

    Talvez seja melhor aguardar a segunda-feira
    A esperar presença, sentença e aconchego
    Na crença de que sua alma me pertença

    Você pra mim é só isso e tudo isso
    Algo que ainda não defino
    Se é que algum dia ainda te sinto

    Talvez seja melhor carpe diem
    Mesmo que eu queira de segunda a segunda
    Por crer que momentos a gente aproveita ainda melhor
    Em companhia de quem nos incendeia
    Toda vez que amanhece uma nova segunda-feira

    Que te parece?

    Talvez seja melhor parar o mundo
    Toda vez, todo segundo
    Talvez eu queira existir, só existir
    Talvez eu queira partir
    Partir meu coração, abrir minha vida
    Dividir meu cheiro, meu caminho inteiro
    Pra ladear contigo e alardear sorrisos
    Talvez seja melhor beber um vinho
    Talvez seja melhor compartilhar seu limbo
    Toda vez que eu desafio
    A afinidade e a contrariedade nos nossos sons
    Que brincam entre ventos e marés
    Feito palavras que vêm e vão
    E ecoam e ressoam em modulações

    Talvez seja melhor…
    Secar o suor.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Photography by Josephine Sicad

    Continue: [Talvez, carpe diem]
  • [Intervalo]

    [Intervalo]

    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    The day I left behind was the day I lost in time
    No (con)fuso horário onde tudo é claro
    What’s yours? What’s mine?
    Não faz sentido, contudo eu calo
    E peço abrigo por onde passo
    Perdi um dia no fuso horário
    Segunda-feira virou relicário
    Você está perto do meu perigo
    Do meu silêncio, do meu castigo
    Do intervalo do meu dia perdido

    Tudo bem, querido…
    A despeito do meu cortejo
    Reflito de leve seu bocejo
    E lacrimejo meu soluço no seu umbigo
    Quem mora ao lado é o mendigo
    O que eu não falo é o que te mantém comigo
    O que eu sinto é o que te faz tão lindo
    Por tudo o que eu quero é que não brigo
    Tão distante, tão carente, tão latente
    Segunda-feira de bobeira eternamente
    Intervalo tão raro que persigo

    O que sustenta de repente
    Este dia tão quente que perdi na mente
    [Por permitir pairar feito um voo de parapente
    Todas as palavras que ficaram dormentes]
    É o que eu não digo e guardo discretamente
    No meu sorriso aflito
    No meu olhar decidido
    No meu abraço inerente
    No meu coração insistente
    Na segunda-feira impaciente
    No intervalo que inseri entre a gente

    O dia que perdi no tempo
    Deixou meu cabelo esquisito
    O tempero que ganhei ao relento
    Foi regalo ou foi evento?
    Foi angústia que ainda lembro
    Do dia que tornou-se antigo
    Da promessa que não necessito
    Da segunda-feira que esperei afinco
    Do que você acha que eu não consigo
    De tudo o que escrevo e não digo
    Do intervalo que perdi contigo

    Praticamente não distinguo
    Não percebo, não atinjo
    Não escolho, apenas colho
    Tuas palavras que repousam no meu sonho
    Palavras presas me chamam de princesa
    E se desprendem da alegria e da tristeza
    E encontram uma segunda-feira travessa
    Palavras disfarçadas de Fio Vermelho do Destino
    Palavras destinadas a tocar vidas ao vento
    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    Do intervalo do beijo que paralisei no tempo


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **
    Art: cat yarn bowl by Felicia Nilson

    Continue: [Intervalo]
  • [Sob a orelha do elefante]

    [Sob a orelha do elefante]

    Sempre muda alguma coisa
    Passo manco
    Solavanco
    Toda a culpa
    Todo encanto
    Fico muda
    Fico estanque
    Guardo o pranto na estante
    Sinto passos de elefante
    Engulo seco e desço
    Do alto do meu tropeço
    Engulo sangue e esqueço
    Que grito não mata sede
    Que lacre não prende alma
    E corrente não acalma
    Rasgos de memória
    Nem remendos de história 

    O sagrado é degradado

    A cor nublada ganha sardas

    Duchas de saliva com terra

    De mordidas com treva

    Despedidas a ingressos contados

    Cada golpe, cada trote

    Cada pose, cada toque…
    grava um marco no meu ventre 
    Enquanto sopro de trás pra frente 
    E sua voz me faz demente 

    Então na lenda onde existo

    Penso no fino e leve cisco

    Que adentra meu sonho apertado

    E pousa no meu olho fechado

    Assim eu choro quando te vejo

    E me curvo ao teu desejo…
    de montar minha pança torta 

    E dançar feito gelatina

    E sentir-se maior que qualquer esquina

    Com o orgulho na retina

    Mas com o estômago encolhido

    E o coração ferido 

    Eu sei

    Eu sinto 

    Mesmo que eu já não ande

    E que o sol misture meu nome

    Com tua beleza radiante

    Sempre muda alguma coisa

    O depois é pra sempre

    Nunca mais é o que era antes

    Se orelhas fossem asas

    Não haveriam elefantes 

    … 

    Nem deuses, nem preces

    Nem causas despedaçadas

    Nem passeios deslumbrantes

    Ou rastros verdejantes

    Nem razão ou prosperidade

    É essa a sua prioridade?

    Segunda-feira por liberdade

    Ou vaidade por alma lavada? 
    …Deixe que te levo 

    Eu sei

    Eu sinto 

    Eu enxergo colorido

    Eu salto agora e já não minto

    Infinito largo meu passo

    Grito surdo no teu abismo 


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

    Arte by Robert Jahns.
    ..

    Continue: [Sob a orelha do elefante]
  • [Fadiga]

    [Fadiga]

    Que espécie de carinho é esse
    Que me irrita e ao mesmo tempo me intriga…
    E me convida a te provar

    Que agonia louca é essa
    Que aparece e some
    E me consome
    Em espasmos insondáveis

    Nem caminho, nem destino

    Esse seu olhar sozinho
    Me enerva
    Me irradia
    E me fadiga em sua companhia

    Esse seu andar mansinho
    Me apressa
    Me tropeça
    E me fadiga antes do raiar do dia

    E eu me canso
    E lanço um sorriso invertido
    Pra confundir esse seu querer dividido

    Então eu danço
    De olhos fechados, sem sentido
    De braços abertos e passos aflitos

    Dispenso os galanteios
    Evito a despedida
    Segunda-feira maldita
    Viro a cara pra monotonia
    Mas me perco na fadiga
    Do seu carinho ácido
    Que me irrita
    Que me intriga
    Que me agonia
    Que me convida
    E me consome
    Que me enerva
    E me irradia
    Que me apressa
    E me tropeça
    Que me cansa
    E me abocanha
    Que me inverte
    E me divide
    Que me pede
    E me decide
    Que me abriga
    E me fadiga


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    Continue: [Fadiga]
  • [Medo de escada]

    [Medo de escada]

    Cada vez que desço escadas
    Imagino o joelho travando
    O tornozelo torcendo
    O quadril desequilibrando
    E a queda acontecendo

    Vejo o futuro se desdobrando
    E despencando em tropeços
    Vejo o corrimão sumindo
    O chão se abrindo
    E todo meu pranto caindo

    Um passo de cada vez, vamos lá
    Atenção, chega pra cá
    Vem ser meu apoio
    Meu braço de ouro
    Desce comigo pra eu não me espatifar

    Cada vez que olho pra baixo
    Vejo degraus machucados
    Medo de fino trato
    Escada lesada
    Passada tonta

    Para descer as escadas
    Sorrio baixinho
    E me apoio de mansinho
    No corrimão gelado
    Enquanto olho devagar de lado

    Desço a tempo no meu tempo
    Desço sem respirar muito forte
    Desço aos poucos, num passo lento
    Pra não cair, pra não falhar
    Pra tentar abraçar

    Pra tentar chegar lá
    Ou logo ali
    Desço atenta numa tormenta
    Tem abraço lá embaixo?
    Ou só alívio imediato?

    Desço porque antes subi
    Desço pra voltar de onde vim
    Ou pra chegar de onde parti
    Desço mesmo com medo
    Segunda-feira que esqueci


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

    Photo by Tina Teresa

    Continue: [Medo de escada]
  • [Desembrulho]

    [Desembrulho]

    Laçada de orgulho
    Desembrulho
    Pedaço de euforia
    Kriptonita
    Segunda-feira maldita
    Pedregulho
    Saudade simples dos pés gelados
    Debaixo da coberta amassada
    Saudade de um drinque
    Enquanto você me olha
    E depois me brinca
    Me abafa em beijos
    Me afoga em carinho
    Me invade em silêncio
    E me desembrulha
    E me teletransporta
    O tempo todo
    Por todo o mundo
    Pra qualquer tempo
    Praquele momento
    Praquele “oi” dito de fora pra dentro
    Como que me convidando
    A fazer parte do seu tempo
    Sem pestanejar
    Porque você é o meu lugar
    Nossos pés se tocam
    E trocam
    Milhares de paisagens
    Em cada olhar uma mensagem
    Do alto do muro
    Abraço puro
    Amasso no escuro
    Eu te seguro
    E grito
    Em negrito
    O quanto eu quero
    Caramelo
    E desembrulho
    Seu coração
    No meu castelo
    Onde chove algodão
    E adormece um universo paralelo
    Sensação
    Presente terno
    Tão belo
    Te encontrar foi singelo
    Te querer é um novelo
    Que eu desembrulho
    E me enrolo
    Porque é em você que eu moro
    Porque é seu gosto que eu decoro
    E repito em goles cada vez melhores
    É com você que eu namoro
    E adoro
    E desembrulho
    E desenrolo
    Segunda-feira aflita
    Volte, eu imploro
    Repita
    Segunda-feira tem visita
    Que bonita
    Você é meu presente
    Que eu desembrulho
    E desenho nosso futuro
    Com meus cabelos
    Amarelos


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    Continue: [Desembrulho]
  • [Coração]

    [Coração]

    — Eu fico aqui…
    Minha mesa, meu note, meu cel, um guardanapo de papel… Um pedaço de céu.

    — Eu vou praí…
    Uma praia, uma varanda, uma risada, uma dança. Uma brincadeira de criança.

    — Musa é a lua.
    E não minha prece nua que despe em curva essa rua rasa. Musa é a sua morada.

    — Agradeço as memórias.
    E as noias. E as promessas veladas entre farpas. E os sorrisos invisíveis em patamares insondáveis.

    — E se houver brilho…
    A gente dispersa do mundo e foca um no outro. E troca os pratos e divide amassos.

    — E esconde a navalha.
    Pois se há corte que valha, já estiquei os braços e encolhi as pernas para o muito o que me resta.

    — Eu salto.
    De salto alto da beira do asfalto para a areia movediça dos começos e das fatias, das metades e das tardes vazias.

    — Eu sinto.
    E minto que não há saudade por pura maldade/faz-de-conta. Debaixo da sombra a gente sonha com o perto/longe que afronta.

    — E se houver sobremesa…
    Você escolhe manjar depois do jantar. Ou alfajor, só pra rimar com major. Ou sorvete de chocolate pra dar empate.

    — Mas se houver guerra…
    Não te espero não, não quero mais soldado machucado, tampouco safado, esfolado, escaldado, sem rumo, sem fardo, sem banca armada.

    — Se quiser, venha.
    Mas venha sem farda. Sem desculpas ou falhas. Sem agenda marcada, sem planos. Só com seu sorriso insano.

    — De coração…
    Desapego, logo chego. Decore, folclore, perfile, não demore. Dê alma, dê corpo, dê ventre, desejo, em vão?

    — Que seja segunda-feira.
    Que hajam estrelas e fagulhas e centelhas e rasuras. Que haja saga, mágica e tempestade. Entre, fique à vontade.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday


    Illustration by Julian Gallash [binary heart]

    Continue: [Coração]
  • [Música Miúda]

    [Música Miúda]

    Tudo o que a gente precisa
    Cabe no tempo de uma música
    To miúda
    To moída

    De pernas pra cima
    De cabeça úmida
    Encolhida
    Numa canção única

    Entro em mim
    E planto
    Em prantos
    Um jardim

    Foram tantos
    Vinte e tantos
    Que a Segunda
    É sem fim

    To moída
    To miúda
    Doida, doída
    To Neruda

    Nem te conto
    To desnuda
    To precisa
    To no ponto

    Tenho música
    Tenho teto
    Papo reto
    Fino trato

    Gato preto
    No concreto
    Tão discreto
    Tão quieto

    To miúda
    To moída
    Tenho música
    Na barriga

    Gato mia
    Freguesia
    Sou melodia
    Minha companhia

    Pois tudo o que eu queria
    Cabia numa cantiga
    Numa música perdida
    Engolida


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    Continue: [Música Miúda]
  • [Cresça]

    [Cresça]

    Apareça entre frestas e faça sua festa
    Descubra-se, desvende-se, desnude-se
    Abra os olhos para o tempo que lhe resta
    Tenha medo não, já é hora: mude!

    Mas não se mude nem emudeça-se
    Não culpe a Segunda-feira travessa

    Nem fique necessariamente triste
    Porque o jardim de girassóis está lá
    Iluminado iluminando seus guardados
    Burlando crenças em pequenas oferendas

    A previsão tem se contrariado
    Sinto-lhe adversário de si mesmo
    Frases bem vestidas, encontro marcado
    Por que você veio de olhos fechados?

    Casaco jogado no asfalto
    Falsete no canto da boca
    Fuga de uma vida breve sem marcos
    Momento avesso, ciranda rouca

    Seriam estranhos amigos que ainda não se conhecem?
    Seria um banho de orvalho se nada é por acaso?
    Nada por casaco… Nado por acaso num casaco de nada…
    Mais um caso ao acaso… nadando no nada…
    Caçando no ocaso por algo que o valha
    Navalha na veia da voz que me vaza

    Nunca aprendi a andar de patins
    Há um céu e um inferno dentro de mim
    Há cárceres e voos livres
    Será que é só cansaço?

    Então eu peço: cresça!
    E palavras me apunhalam pelas costas

    Deite-se comigo no jardim ausente
    Olhe-se pra dentro e floresça
    Desaperte-se do que quer que seja
    Alimente-se da sobremesa

    Amplie seu espaço interno
    Deite-se de braços abertos
    Sinta a chuva cair das estrelas
    Mude a dança, embale a planta e cresça

    Deixe que amanheça
    It’s Monday and it’s over
    Apenas cresça e viva as tristezas
    E as alegrias da vida que você escolheu

    Espectador de si mesmo
    Encantador de momentos
    Vá procurar sua alegria
    E cresça num encontro inédito
    Abrace mais um dia
    Respire e sorria já que é só sua essa melodia


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    Continue: [Cresça]