Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Não sei lidar]

    [Não sei lidar]

    Com seus medos

    E seus desejos

    Com seus bom-dias

    E suas nostalgias

    Com suas palavras

    E suas almofadas

    Com sua fome

    E como soletra meu nome

    Com seu cheiro

    Importa quem chegou primeiro?

    Com sua cama

    E a palavra na sua boca

    Achando que me ama

    Achando que me acha

    Me chamando de louca

    Achando que logo passa

    Não sei lidar com essa sede

    Tampouco com a parede

    Nem com o recado

    Ou o retrato falado

    Já é segunda-feira
    E eu tenho sede

     –
    by @DiaboliqViolet

  • [Chuva Prata]

    [Chuva Prata]

    Não tinha motivo para não ir,
    mas rolava um receio,
    um aperto no estômago,
    não tinha explicação. 

    Desculpas pra ficar surgiam a todo instante.
    A chuva poderia ser a culpada.
    A pontinha de dor de cabeça, também.
    Assim como o trânsito, a preguiça,
    o desconforto no pescoço,
    a vontade de ficar debaixo das cobertas
    assistindo seriado atrasado… 

    Mas de repente
    a gente tinha hora marcada.
    E daí era pra valer.
    E o vidro do carro embaçado,
    o café adocicado,
    as voltas na quadra procurando vaga,
    a fruta trocada,
    o fone sem estéreo
    e o adaptador da tomada
    eram motivos de sorrisos. 

    A chuva nem atrapalhava.
    Eu fazia que nada era nada,
    que não tava nem aí,
    que pouco me importava.
    Mas a verdade me esmagava.
    A segunda-feira vai chegar atrasada.
    Eu não precisei falar nada,
    porque você já sabia de tudo. 

    Fosse preto ou fosse prata,
    não rolava mais medo de dar mancada.
    Mentira, rolava sim.
    Fosse mesmo você mesmo.
    Venha o que vier, seja o que for,
    se falei demais, se o que li foi muito,
    se duvidei um pouco,
    se entreguei o jogo… Foi. 

    E que seja o que tiver de ser.
    E que seja o que a gente quiser,
    haja o que houver, chova o que chover. 

    Porque existe um sol dentro da gente
    que brilha docemente,
    intensamente.
    Um sol eloquente.
    Que me faz ver estrelas
    no céu da tua boca.
    E que traz o aroma do mar
    para os seus olhos
    enquanto a chuva prata
    desenha arco-íris
    nos meus cabelos dourados. 

    E daí se estava nublado?
    Apenas sinta, não minta.
    O tempo tem a cor que a gente pinta
    quando estamos com os olhos fechados.


    by @DiaboliqViolet

  • [Inércia]

    [Inércia]

    Vamos parar o tempo
    No template do meu prato
    No tempero do teu vento
    No pedaço do nosso cansaço

    Vamos parar o tempo
    Na cadência do compasso
    Na ternura do momento
    No aconchego de um abraço

    Vamos parar o tempo
    Na batida do teu ato
    No frame do meu jeito
    No sorriso de um pensamento

    Vamos parar o tempo
    Na neblina da estrada
    Na pressa do efêmero
    Num sincero lamento

    Vamos parar o tempo
    Na aspereza de um beijo lento
    No mergulho de um fundo raro
    No suor de um passatempo

    Vamos parar o tempo
    Na maciez do amanhecer na praia
    Na palidez do outono pleno
    Na escassez da saudade

    Vamos parar o tempo
    Porque a vida pede um tempo
    Porque o tempo pede um tempo
    Porque esse é o nosso momento

    Vamos parar o tempo
    Na poesia das coisas todas
    No tic-tac das bodas
    Na inércia dessa segunda-feira tonta


    by @DiaboliqViolet

  • [Colo]

    [Colo]

    Não é só a chuva que cai do céu
    Cai formiga, cai mel
    Cai gelo que fere e queima a pele
    Cai canivete
    Cai balão na minha mão
    Cai folia, cai folha seca
    Qual a previsão?
    Se o céu no outono balança
    Quem concede a dança
    Rapunzel, jogue-me suas tranças!
    Cai confete e serpentina
    Cai o coração da menina
    No meio da escuridão
    Será que a chuva mansa
    Que ensopa a segunda-feira
    Faz o sonho vira lambança?
    E no meu colo
    To chegando, não demoro
    No precipício a mercê
    No meu colo cai você


    by @DiaboliqViolet

  • [Segunda-feira num segundo]

    [Segunda-feira num segundo]

    Tão derradeira, tão assim, tão mundo
    Olhar noturno, luar soturno
    Que protege? Ou promete
    Uma freada brusca
    Vem aqui, me busca
    Traga confete
    A estrada segue em frente
    Nada mais se repete
    Tudo muda num acorde de trompete
    Tudo permanece
    No submundo


    by @DiaboliqViolet

  • [Grama]

    [Grama]

    Por quê eu gosto tanto do cheiro da grama recém cortada?

    Porquê me traz memórias da infância
    quando a nonna ajeitava o jardim de casa
    com todo o carinho do mundo?

    Ou seria porquê uma aranha
    me mordeu no joelho
    enquanto eu brincava de camuflagem
    na lateral da garagem?
    Ou porquê minha gata sapeca
    se faz de esperta
    e mordisca a folhagem,
    salta e corre, faz caras e bocas
    e fica de molecagem
    na grama crescida escondida?

    De repente talvez porquê
    os intervalos da aula, no primário,
    eram regados a piqueniques
    entre flores e cores,
    entre livros e dores?
    Entre medos e desejos
    e cheiros e temperos
    a grama permeia minha existência.
    Teve aquela vez que corri na lama
    e abri os braços aos céus,
    recebendo a chuva no rosto
    e sorrindo, torcendo o pescoço,
    fazendo no chão um esboço
    de um futuro gostoso.

    E teve aquele outro momento
    que corri feito louca,
    quase em choque,
    entrei na cozinha e me deparei
    com um prato de quentinho nhoque,
    cheiroso, saboroso…

    Lembro, ainda, de passear no colo da outra nonna,
    aquela que eu chamava de “two”,
    não só por ser bisa,
    mas por me mostrar os brotos de xuxu
    que ela plantava dentro das lâmpadas
    e que cresciam tímidos mas fortes
    como uma densa brisa.

    Hoje cedo caminhando,
    me deparei com um gramado sendo reciclado.
    E o aroma tomou conta
    e minha alma abriu um sorriso largo.
    Então as memórias iniciaram sua trajetória,
    e cada paisagem me levava
    a uma diferente viagem.

    Que sempre exista grama,
    que sempre chovam sonhos,
    que cada segunda-feira venha
    repleta de novas sutilezas,
    que cada lua guie novos passos,
    que cada dia ensolarado
    floresça conquistas e amizades,
    liberdades e coragens.
    Que nossa bagagem permaneça.
    Que venham outros jardins,
    outros cheiros,
    outras raízes, outros amores.
    Que amanheça a presença
    de uma música alta
    e que nunca grama nenhuma faça falta.

     –
    by @DiaboliqViolet

  • [Que feio]

    [Que feio]

    Que feio
    Cadê o compromisso?
    Cadê o devaneio?

    Segunda-feira fria
    Combina com vinho e poesia
    Combina com sinfonia

    Que feio
    Deixar na mão a rebeldia
    Largar a conversa no meio

    Segunda-feira arredia
    Presente ausente inconsequente
    O brinde virou nostalgia

    Que feio
    Esperei na tempestade
    Uma taça de vontade

    Segunda-feira sem malícia
    Traga um gole de liberdade
    Leve um trago de saudade

    Que feio
    Se tivesse bebido o presente
    Não teria vinho no meu seio


    by @DiaboliqViolet

  • [Palavras cortadas]

    [Palavras cortadas]

    Cada palavra recortada
    É um pedaço de madrugada
    Nesta segunda-feira imaginada

    Uma fala inacabada
    Um desejo de…

    Porque a flor que você não trouxe
    Trouxe nós sobre nós
    Trouxe notícias de papel
    Trouxe palavras de fel

    Trouxe palavras cortadas
    Retiradas do peito
    Recortadas meio sem jeito

    Meias palavras
    Meio duras
    Meio gastas
    Talvez um pouco devassas
    E escassas
    Recortadas
    Sem sentido
    Ah se eu tivesse mantido
    Minha boca fechada


    by @DiaboliqViolet

  • [Doer, dói sempre]

    [Doer, dói sempre]

    A cada dia fazemos escolhas.
    Da camisa amassada
    ao sapato embolorado,
    da calça que não serve mais
    ao futuro embriagado. 

    Ir ou não ir,
    comer ou não
    aquela torta recheada,
    beijar ou não
    aquela boca safada. 

    Pois é, do sabão a gente faz bolha.
    Da brincadeira de bombeiro ou astronauta
    surgem desenhistas, advogados, jornalistas. 
    Da segunda-feira nascem trapezistas.

    E, sabe de uma coisa?
    Crescer é colecionar sonhos.
    Decidir o que ser quando crescer é tão relativo.
    Fugir pode ser repetitivo.
    Seja em casa, na escola,
    no parquinho ou no trabalho.
    Seja desenhando tratores
    ou rufando tambores.
    Esteja o céu trovejando
    ou o sol brilhando. 

    Crescer é escolher viver.
    E crescer dói,
    já disse Raquel de Queiroz:
    “Doer, dói sempre.
    Só não dói depois de morto.
    Porque a vida toda é um doer.” 

    Entre passos no asfalto
    ou com barro no sapato,
    de moto ou de charrete,
    o que nos aguarda não tarda,
    de repente vem voando num tapete.


    by @DiaboliqViolet

  • [Lua crescente]

    [Lua crescente]

    Desafios, dias,
    noites frias, arrepios

    Cores se confundem,
    maquiagem escorre pela pia…

    Expectativas explodem em desejos

    Lua crescente

    Sorriso recente

    Segunda-feira quente
    Planos, sonhos, ciclos

    Momento

    Monumento

    Amor? Tormento

    Tempo corrente

    Água corrente

    Desprenda-me, corrente

    Lua crescente

    O bolo de ontem, comi hoje

    Para festejar
    o aniversário de amanhã

    Que nunca chega

    Que nunca acaba

    Pra sempre latente

    Lua crescente

    Lua de Abril

    Estado febril

    Grama cortada

    Roupa amassada

    Cheiro de fogo

    Eu sei, foi um jogo

    Mesa empoeirada

    Canela dormente

    Lua crescente

    Segunda-feira em frente

     –
    by @DiaboliqViolet

  • [Catatonic]

    [Catatonic]

    Segundas intenções
    Segundas-feiras
    Segunda aguda
    Catatônica
    Eu menti
    Foi por bobeira
    Fingi tristeza
    Por fraqueza
    Achei que era vantagem
    Foi travessura
    Misturei limonada com gin-tônica
    Lua manca
    Segunda nua
    Desbanca a janta
    Pura sacanagem
    Retranca atônita
    Faltou coragem?
    Que nada
    Só uma passagem no meio da paisagem
    Uma brincadeira
    Que ninguém soube, exceto eu
    Por fora, fico muda
    Por dentro, dou gargalhadas de cetim
    E disfarço
    Jogue fora essa cara lavada
    Infestada de cupim
    Volta, domingo
    Segunda sem fim


    by @DiaboliqViolet

  • [Aniversário]

    [Aniversário]

    Amigos vão e vem

    As pessoas mudam
    e todas as coisas mudam

    Envelheço por entre caprichos e desdém

    Enquanto as memórias flutuam

    Enquanto a pele esfarela

    A segunda-feira perece
    E o sorriso desfalece 

    Enquanto as plantas sorvem sangue

    E a terra fica amarela

    Outono que me tange

    Primavera que me tinge

    Mundo insano que me abrange

    Tempo ingrato que me aflige 

    Cresço e me farto

    Não te seguro nem te puxo
    de cima do muro

    Dou um passo e te largo

    No asfalto, de sobressalto, de leve

    Não me leve a mal

    É só mais um ano que chega e passa

    E muda tudo sem mexer em nada

    E troca tudo de lugar 

    Trocam os amigos,
    trocam os pedidos

    Troca a sorte,
    toca a vida

    Faço figa
    que um dia

    Enquanto mudo

    Todavia, porém, contudo

    Esse escudo se quebre

    E revele

    Um recorte

    Não que eu me importe

    Já que é breve
    a linha do norte

    Não me guie, desvie

    Delire e me pire,
    me vire, me gire

    Mais um ciclo

    Reciclo

     –
    by @DiaboliqViolet

[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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