Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Aniversário]

    [Aniversário]

    Amigos vão e vem

    As pessoas mudam
    e todas as coisas mudam

    Envelheço por entre caprichos e desdém

    Enquanto as memórias flutuam

    Enquanto a pele esfarela

    A segunda-feira perece
    E o sorriso desfalece 

    Enquanto as plantas sorvem sangue

    E a terra fica amarela

    Outono que me tange

    Primavera que me tinge

    Mundo insano que me abrange

    Tempo ingrato que me aflige 

    Cresço e me farto

    Não te seguro nem te puxo
    de cima do muro

    Dou um passo e te largo

    No asfalto, de sobressalto, de leve

    Não me leve a mal

    É só mais um ano que chega e passa

    E muda tudo sem mexer em nada

    E troca tudo de lugar 

    Trocam os amigos,
    trocam os pedidos

    Troca a sorte,
    toca a vida

    Faço figa
    que um dia

    Enquanto mudo

    Todavia, porém, contudo

    Esse escudo se quebre

    E revele

    Um recorte

    Não que eu me importe

    Já que é breve
    a linha do norte

    Não me guie, desvie

    Delire e me pire,
    me vire, me gire

    Mais um ciclo

    Reciclo

     –
    by Tina Teresa

  • [Interfone]

    [Interfone]

    Depois da chuva, vapor no asfalto
    Não ouvi direito, fale mais alto
    Ou não, não fale não
    Não toque o interfone
    Deixe que eu me viro com o jantar
    Caso contrário, caio do salto
    E deixo o tornozelo torcido no passado
    Só pra matar essa fome
    Será que vou ou falto?
    Você disse o meu nome
    Eu digo “presente”
    Não pense que sair incólume
    É o mesmo que afundar sorridente
    Penso alto
    Já é segunda-feira de novo
    Alguém abaixe esse volume
    Cada história, cada vida, eu não pedi para ouvir
    “Sou eu”
    “Posso entrar?”
    “Abriu?”
    “Sobe aqui”
    “Vamos caminhar”
    Cada tecla, cada som, cada pedaço de pão
    Cada entrada, cada porta destravada
    Impossível insensatez
    Será que chove outra vez?


    by Tina Teresa

  • [O que te inspira?]

    [O que te inspira?]

    O barulho da cidade
    O zumbido do mosquito
    A poesia na garganta
    esmagada entre bordas
    breves vocais, leves cordas
    Leve-me aos teus locais
    Quero ver tua dignidade
    espalhada na lembrança
    de um passado aflito
    enquanto reflito
    e respiro
    teu cheiro morno
    com gosto de sereno
    que me arrepia
    Então pergunto: o que te inspira?

    — Você. Você me inspira.
    Com essas perguntas bobas
    e essas frases soltas
    Com esse jeito lento
    de querer ser eterno
    Com esse olhar incompleto
    e essas dúvidas todas
    É um tormento, uma nóia
    troco passos sem memória
    e você rodopia
    sem foco nem pouso
    Parece uma centopeia
    sambando uma nota torta
    Todo dia você me inspira

    Todo dia, o dia todo?
    Ou por todo um dia de quando em vez?
    De tanto em quanto
    por todo o pranto
    derramando teu encanto
    em toda a minha tez?

    Não diga que a segunda-feira
    é só uma anedota
    que te leva a rir e a esquecer meu nome
    que te espreita, que te derrota
    que te desenha assim, com essa paciência perfeita

    — Você escolhe o melhor dia
    Com ou sem essa roupa amassada
    Você escolhe chá ou café
    Já te disse: é você quem me inspira.

    Mas como escolher qual final de tarde ficará para a eternidade?
    E como escolher qual a melhor versão de mim?

    — Lá vem você
    Com tantas incertezas
    Com tantos planos
    Galgando, querendo, sofrendo
    Tão só
    Não ligue, tudo muda
    Tua incoerência me neblina
    Foi-se o tempo de menina
    Mas teus sonhos ainda pulsam
    Pra que tanto medo?
    Pratique o desapego
    Tenho eu receio de te inspirar
    E então você se jogar
    E aprender a amar o vento no cabelo
    E decidir que não há versão definitiva
    apenas a “de verdade”
    Que tal?

    Prefiro não pensar
    Gosto dos teus argumentos
    Tua stamina me alimenta
    Não me canso de perguntar: o que te inspira?


    by Tina Teresa

  • [Desempate-me]

    [Desempate-me]

    Aparte-me

    Aperte-me

    Reparta-me 
    Segunda-feira à tarde
    antes que seja tarde,
    covarde

     –

    by Tina Teresa

  • [Restos]

    [Restos]

    Restos de domingo assombram a segunda-feira
    Dia sem fim, noite sem beira
    Prefiro um pedaço de caqui

    Choveu e eu nem vi
    A luz dos postes brilha na rua molhada
    Mas o piso da sacada continua quente
    Silêncios que só eu ouvi

    Nos pés descalços gruda o cheiro gorduroso
    Que vem pelo ar sem avisar
    Algum vizinho fez festa, será?
    Orvalho misturado com pedaços de almoço

    Criei minha própria tempestade
    Numa taça de cristal tão frágil, tão limpa
    Trincada por raios e trovões, sobrevivi

    Nem me dei conta que meus pés não estavam no chão
    Boiei em bolhas de champagne
    E esperei o arco-íris surgir


    by Tina Teresa

  • [Prazo de validade]

    [Prazo de validade]

    Será que tudo tem prazo de validade? Se sim, será que é o grau de intensidade o que determina esse prazo? Don’t panic! A segunda-feira está quase no fim e a música que embala minha preguiça conversa comigo. Aliás, é comum músicas conversarem comigo.

    Ah, se essa e outras canções tivessem o poder de transformar comportamentos. E então daí as atitudes teriam prazos de validade. Teria valia? Quanto vale uma nota musical? Uma nota, certamente. E um adágio? Um pedágio?

    Outro dia me disseram que o sentido da vida depende da relação que estabelecemos com as pessoas. Enquanto cantamos sentimentos debaixo do chuveiro ou detrás do volante do carro, percebemos que cada relação depende da admiração que temos por essa ou por aquela pessoa.

    Talvez por isso as relações tenham prazos de validade. Será que só admiramos até onde a vista alcança? Se ‘ad mirar’ é ter próximo aos olhos, que dizer das canções que choram amores ou provocam sabores sem nada mostrar mas tudo revelar?

    As roupas que escolhi não vestir vão se amontoando do lado de fora do armário, criando um mundo à parte, solitário, que só eu vejo enquanto bocejo. Enquanto canto embalada e sinto sua presença velada disfarçada de lua cheia que invade minha sacada pedindo para ser admirada.

    Teria a luz que reflete a lua validade prorrogada já que o escuro toma conta quando fecho os olhos? Qual o futuro do infinito se o que percebo são defeitos sem efeito, sem reflexo, sem pó de pirilimpimpim? Cabe a lua no meu jardim? Ou prefere ela adormecer um sonho bonito?

    Cabe este canto no canto do seu encanto? Quanto tempo ainda tenho nesse tenso embalo intenso? Be yourself. E quem sabe eu te admire mesmo de olhos fechados. Mesmo que o prazo de validade expire. Mesmo que eu pire. E que aquele mundo à parte gire.


    by Tina Teresa

  • [Bola de neve]

    [Bola de neve]

    Tão bola 

    Tão neve 

    Não demora 

    Não vá embora 

    Me leve 

    De leve 

    Na memória 

    Segunda-feira agora

     –

  • [Pronto. E ponto.]

    [Pronto. E ponto.]

    Se me apronto, é ponto?
    Se demoro, comemoro?
    Contra-ponto em prantos.
    Não, não choro, mas imploro…

    … por uma laçada, um alinhavo,
    um ponto.
    Inacabado, é claro. 

    Porque nada nunca está pronto.
     Porque agora eu me declaro…

    … amante de retalhos emendados.
    Ponto a ponto. Delicado.
    De cada lado encontro

    caracóis de linhas…

    … costurando amores temporários
    em corações imaginários.

    É tão tonto esse sonho
    que padeço pouco a pouco.
    Ponto a ponto. Quase pronto.
    De pronto.
    Segunda-feira eu conto. 

    Não me ame sem pesponto,
    não me abrace sem moldes,
    não me costure sem abraços apertados. 

    Só lamento, não aguento.
    É um tormento, falei, pronto.
    Agora chega?
    Teu dedo me dá choque
    e teu toque me dá medo,
     teu pelo me acorda
    e tua boca me dá corda.

    Não, não to morta.
    Não me morda.
    Pouco importa.
     Giro a chave, fecho a porta
    e logo adormeço. 

    É só o começo.
    Tô toda torta, mas nem ligo.
    Sei que apronto, volte logo
    que prometo mais um ponto. 

    Ou uma massagem.

    Teu leito comigo.
    Eu consigo.
    Teu acordo,
    meu abrigo.


  • [Das coisas mortas pelo caminho…]

    [Das coisas mortas pelo caminho…]

    Da borboleta tenho dó:
    o desfrute das asas coloridas
    chega de repente, resplandecente. 

    Vê-la caída no chão reflete
    a fatia de tempo cortada
    pelo rasante final. 

    Da ratazana, que dizer?
    Pelos amassados, olhos esbugalhados.
    Fim trágico de uma corrida mal sucedida. 

    Da barata passo perto por mero descuido.
    O que realmente quero
    é que seu último suspiro fique longe
    ou sou capaz de plantar bananeira no muro. 

    Das formigas que pisoteio,
    melhor deixar de escanteio o pensamento
    antes que venha um morcego. 

    Do passarinho, exclamo: “Oh!”
    e fico imaginando
    se foi acidente de percurso ou atropelo. 

    Da aranha, que drama. 

    A cidade invade e muita coisa nela mais não cabe. 
    A segunda-feira chama e tudo se reparte.

    Be part. Not apart.


  • [Violeta]

    [Violeta]

    Enquanto chove, floresço.
    Enquanto enquadro, anoiteço.
    Enquanto trago, violeta.
    Enquanto você não chega, percebo
    segunda-feira ainda é cedo  
    e cada paisagem que invento, borboleta.

  • [Amarelinha]

    [Amarelinha]

    Depois você me diz
    se é mesmo verdade
    essa sua mania
    de pular amarelinha
    em toda calçada quadrada
    encontrada no seu caminho,
    seja na segunda-feira ou
    no meio da madrugada.

    Se fosse você,
    eu desenhava com giz
    e tornava real
    essa brincadeira banal. 

    Eu pintava o céu e o inferno
    com fagulhas de cristal
    e esperava brilhar
    tua poesia no meu carnaval. 


    by Tina Teresa

  • [White tulip]

    [White tulip]

    Cada segunda-feira que chega
    é um novo começo.
    Um reset de tempo,
    uma tulipa branca.
    Um universo paralelo
    repleto de possibilidades.
    Uma página nova
    para sonhar,
    planejar,
    pestanejar,
    relembrar
    que uma história
    só tem dono
    quando é carimbada
    no coração.
    Panela de pressão.
    Coisas que vêm e vão.
    Coisas que aparecem
    de onde eu chego
    e nem por isso
    o dia amanhece mais cedo.
    Morcego.
    Pé gelado no verão.
    Vigilância solitária
    de um tempo
    que não foi meu.
    Pra que esforço
    ou alvoroço
    se o que sobra
    é apenas sobra.
    Manobra.
    Saudade que nem dói,
    mas corrói.
    Saudade de um novo dia
    que não tarda,
    que não chega,
    que não falha,
    que não pensa,
    que não nega
    nem tolera
    essa cega
    parcela de nós.

    by Tina Teresa

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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