Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Solar flare]

    [Solar flare]

    Meio sem querer
    Quase sem perceber
    Daqui parece tão longe
    De perto parece tão frágil
    No centro parece tão forte
    Tão quente, ardente, inconsciente
    Tão lindo, gigante, latente

    A luz que ofusca
    Esconde a busca
    Pela vida partida
    Que explode perdida
    E encontra na avenida
    Uma nova rota
    Subtraída

    Quero provocar um eclipse
    Pra tua luz me invadir
    Me vazar, me sobrar, me parir
    Pra tua voz me beijar
    Ainda com os olhos fechados
    E me embalar dançando, antes de dormir
    Pra eu seguir sonhando, antes de acordar

    Me apaixono por tua cumplicidade
    A cada passo que gente dá
    Como se as pegadas na areia da praia
    Fossem pequenas promessas
    Marcadas pelo peso dos nossos corpos
    Levadas ao mar pelo vento
    E seladas pelo firmamento

    Na velocidade que o mundo gira
    Não tem como ficar parado
    Tudo muda, tudo voa, tudo pira
    A cumplicidade, no entanto, permanece lado a lado
    Mas é preciso reinventá-la numa prece
    E cobrir a luz do sol
    Pra descobrir a explosão que verte

    Na segunda-feira a gente vê
    O que sobrou dessa explosão
    Se no final de semana a gente faz fuzuê
    Na segunda-feira a gente gruda
    Todas as memórias surdas
    E elimina a paranoia
    Antes que o cansaço fuja

    To be unremarkable for others is remarkable for me
    Just like a solar flare is how I imagine you to be
    Your voice broke my monday evening
    And everything in between
    Your heart beats my song
    Your eyes are my sky, my life, my world enough
    Please never leave me alone

    Be my atmosphere
    Let me shine
    Flare by my side
    My only sunshine
    Be Panic
    Take me to fly…
    Be mine


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

    Illustration: a look at the mid-level solar flare from Sunday, August 24th, 2014’s taken with the LASCO C2 coronagraph on NASA/ESA’s SOHO spacecraft. A coronagraph is a special type of telescope that uses a solid disk to actually cover up the Sun itself, completely blocking direct sunlight, and allowing us to see the atmosphere around. Taken 2 hours after the flare, this image allow us to see the hot plasma of charged particles being ejected towards the side of the Sun.

  • [Super]

    [Super]

    O céu fechou em riste
    Choveu em teu semblante triste

    Deixou tudo escuro
    Inundou teu coração impuro

    Até que era bonito
    Pra não dizer esquisito

    Teus demônios em luta
    Numa poça d’água funda

    Eternidade disfarçada
    Afogada na calçada

    Esperando a luz voltar
    Esperando o sol brilhar

    Pra eu poder compartilhar contigo
    E entender os teus motivos

    Tava tudo indo tão bem
    Mas o céu fechou em riste, meu bem

    Nos teus olhos d’água eu vi
    Feridas encharcadas so sweet

    Feridas vertidas em sal e poeira
    Ardendo, arranhando, rasgando tua vida inteira

    Chorando na frente do espelho
    Entre a abstinência e o vermelho

    Na sobra da segunda-feira seca
    Tua sombra cicatrizou tão lenta

    Pro mundo girar sozinho um pouco
    Pra tudo fazer sentido louco

    Será?

    Tem muita coisa pra superar
    Tem muito super pra descoisar

    Tem muita água pra rolar embora
    O céu fechou em riste e foi agora

    Mas vai passar

    Você é super e tá machucado
    Deixe a tempestade esvaziar teu passado

    Super limpo, super lindo
    De peito aberto, cravado de infinito

    Super forte, de toda a sorte
    Metáfora de morte

    Pra tua dor derreter
    Pra eu entender o teu ok


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Art: Superman in powerwashing

  • [Vontade inventada]

    [Vontade inventada]

    Sigo dormindo, acordada, chorando, viajando ou rabiscando nas suas costas com minhas unhas macias de segunda a segunda enquanto você sonha (ou não). Sei lá se você desconfia…

    Acredite você ou não, entenda ou não, aceite ou não… Eu sigo… E sinto uma vontade danada de trazer teus passos lentos direto pra minha armadilha. E quando eu sinto a tua pele, então? Sai faísca de mim… Ah, você sabe… Mas… E se for mentira?

    Daí você aparece com esse sorriso largo improvisado, me olha de cantinho, meio de lado, e quando eu percebo eu te quero. E quero tanto que chega a doer e claro que rola um medinho gelado. Seja segunda-feira, seja meu casaco bordado, seja meu grito abafado.

    E eu fico cuidando pra não transparecer, pra não atropelar o destino, pra não mudar teu rumo ou direcionar teu caminho… Mas a verdade é que mesmo que as esquinas que você cruzou sem mim tenham roubado muito de você, eu não me importo de ficar com o que ficou. Acredito que tuas sobras são muito mais do que já me pertenceu e, junto com as minhas, formam mundos ainda mais belos e mais sinceros.

    Então… vem comigo. Vem que a gente traça novos rastros para os teus sonhos que se perderam. Porque eu to cansada dessa montanha-russa de gente na minha vida querendo sumir como se nunca mais fosse voltar e depois voltar como se fosse ficar pra sempre… e não ficar. Eu to cansada. E eu tenho vontade. E eu não quero mais nada que não seja você. Eu quero desenhar junto seja lá o que for, seja lá o que der, do jeito que a gente quiser.

    Talvez você sequer exista. Mas mesmo inventado você ainda é tudo e demais pra mim. O que não existe me pertence? O que eu invento é present tense? Eu trago um gole de café e te ganho com um pedaço de queijo… E te amo, te afago, te invento, te beijo. E te atento tanto que você, mesmo indiferente, de repente… Não, não se despeça, ainda estamos pendentes. Falta o meu presente, falta aquela promessa… Falta aquela vontade inventada de amar eternamente.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Illustration by Barbara Ana Gomez, inspired by the song ‘Sophia’ (Laura Marling) > and posted in her colection Illustrated Songs.

  • [De graça, nada]

    [De graça, nada]

    Nada vem de graça. 

    Nossa vida é uma constante transformação, momentos de paz e equilíbrio nos invadem, a segunda-feira vem toda a semana fazendo alarde.

    De repente parece que a rotina não tem graça e um choque de realidade, de pura maldade ou falta de maturidade nos confronta. Então tudo contrasta.

    Quando isso acontece, a acidez nos abraça e o instinto toma conta. Daí a visão se livra da neblina que nos afronta e o aconchego nos abandona.

    Mas é bom. Ignorance is a bliss. Conhecimento dói. Saudade corrói. Palavras ditas docemente criam promessas e desejos inconsequentes. E tudo se despedaça.

    É uma pena que você faça pirraça. É uma pena que nossos assuntos pendentes fujam do presente e se evaporem na vidraça dos nossos sonhos, feito fumaça…

    De ofegante, teu beijo virou tratante. Parecia passeio na praça. Ou na praia, numa agenda falsa. Virou desgraça. Passa ou repassa? Nada vem de graça.

    Mesmo que eu culpe aquela maquiagem frustrada ou a noite lotada de olhares tensos e desencontros intensos.

    Mesmo que uma simples fotografia seja motivo de agonia pelo brilho combinado entre o gole trocado e o pecado anunciado.

    Ou que o recado deixado fira feito adaga atirada nas costas que doem, machucadas. Se a noite é uma criança, que dizer da madrugada?

    Talvez a roupa amassada ou a toalha jogada sejam cartas marcadas. Ou só mais uma rodada, uma aposta inebriada. Uma ameaça atravessada por um oceano de trapaças.

    Do que você acha graça? Você pensa que um “bom dia, gata” disfarça? Você pensa que o teu cheiro grudado no meu travesseiro ainda te aguarda?

    Prepare o vinho que eu levo a taça. Ofereço um brinde à escolha nefasta. If it was a tinder, you better whatch out. #Simplesassim: nada vem de graça.

    Mas ainda há graça nas mancadas do destino. Não economize sorrisos nem esconda essa mágoa isolada sob uma capa mágica. É bom soltar as lágrimas. Tudo passa.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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  • [Mad is needed]

    [Mad is needed]

    Segunda-feira não tem prazo de validade…

    In my head you live and in your mind I fuckin’ stay. If my hair is crazy, let’s make a trip. Let’s plug n’ play. Toda noite tem rock n’ roll, meu amor. Toda noite tem. Todo dia tem. Tem verso ao inverso, tem começo e tem inteiro um universo bem de perto. Mad is needed, confesso. Meu olhar é teu ingresso, não precisa falar nada, você sabe que te amo calada.

    Tuas asas crescem a cada nova largada, a cada nova nota de música descompassada enquanto o mundo nos entrega toda a prosa, toda a bossa, toda a nossa nova alvorada. Descabelada na morada. Namorada. Afogada no teu pranto manso, sonho com estrelas que chovem beijos no meu seio esquerdo. Mad is needed. Tudo e nada.

    Alienada…

    Me apaixonei por você na noite passada. Que sorte, que susto. Surto. Absurdo. Não quero nada, já tenho tudo. Parece justo. Take a deep step. It was just a click, we haven’t care. Now we can fly and flare cheek to cheek through the sky… You and I, babe… You and I… Mad is needed. Be panic. Be my pride. You were bleeding, now you’re mine. 

    Monday to Monday. Side by side. From the darkest moon to the sunshine. 



    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Photo by Tina Teresa

  • [Fuga]

    [Fuga]

    No íntimo do luar
    Um gatilho dispara em mim
    Leve brisa: profuso mar
    Passos desconhecidos sem fim

    Pinceladas de vento nos braços
    Sigo perdida no lilás do firmamento — absorta
    Luarais velhos e devassos
    Segunda-feira mágica, tempo em ondas

    Em vigília, o amor transborda meu corpo informe
    Sem destino, esse sentimento me leva
    enquanto o silêncio dorme

    Ampulhetas escondem estrelas
    Meu coração largo e aflito
    corre, louco, para seu infinito


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday 

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    Photo by

    DiaboliqViolet

  • [Quase]

    [Quase]

    Nunca a frase de Saint-Exupéry fez tanto sentido
    Vi a eternidade desbotar diante dos teus olhos tremidos

    Meu amor, não foi tua intenção me cativar
    Que será de mim agora se tua voz
    É só uma lembrança sussurrando no meu ouvido?

    Gosto de espelho, banheiro, edredom, chuveiro
    Do teu sorriso safado, inteligente, criativo, aventureiro

    No teu abraço apertado há demônios e outros amores
    Será que se deixar cativar por alguém é isso?
    É querer algo que não cabe nem na linguagem, nem no infinito?

    Quase o improvável substituiu a distância
    Quase nossas incoerências dissolveram a tolerância

    Nossos nós e nossos defeitos derreteram nossos sonhos
    Nossa incompetência escapou da filosofia careta
    Entre sua atmosfera interior e o resto do planeta

    O cotidiano superou a surpresa
    Teu gosto solúvel avistou meu amor de duquesa

    E as promessas veladas… Ah, as promessas veladas
    Estacionadas no quase imponderável
    Vencidas pela fugaz percepção inefável

    Até quem olhava de fora percebia
    Ancorada em nossos laços pairava a sintonia

    Onde foi parar a eterna responsabilidade?
    Aquele querer respirar junto e cativar a liberdade?
    Onde foi parar o futuro? Foi quase…

    Nós e nossos imperdoáveis medos
    Nós e nossos quases perdidos no tempo

    Tudo remetia ao caminhar conjugado
    Toda a matemática, a literatura, a ciência dos ventos trocados
    Tudo era quase, menos o imponderável

    Você e seu talento pra chegar atrasado
    A nós, resta assistir a tudo calados

    Até quando vamos alimentar essa companhia solitária?
    A quase união foi interrompida pelo abandono
    Os quase momentos viraram desertos sem sono

    Como posso lamentar o que não nos coube?
    Até cheguei a provar-lhe as lágrimas, o que houve?

    Não dá pra ser quase feliz, quase pronto, quase quase
    Nossos tempos incompatíveis, nossos afazeres aqui e ali
    Quase é um advérbio de tempo que não sobrevive ao “vem dormir”

    Nada fácil viver no quase sem fresta
    Nada fácil deixar a porta entreaberta

    É uma irresponsabilidade extraordinária
    Cativar alguém e partir pra indiferença
    Cativar alguém e só agradecer a presença

    Não, o quase não é só isso
    Companhia sem compromisso

    Ou você acha que quase amar
    Permite fugir e se descontrolar
    Separar primeiro para depois se encontrar?

    Não é o acaso que nos prende na tempestade
    São nossas escolhas, nossas verdades e nossas amizades

    “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
    Não dissolva a eternidade no quase, minha vida
    Não permita que teu vazio abafe a despedida

    Tenho preguiça do teu vacilo que me definha agora
    Não faço mágica nem nada pra tirar sorriso da cartola toda a hora

    Vivo no quase esperando o depois
    Não me esqueço do antes, não esqueço nós dois
    Se houver vontade, a gente grita gol

    Já é quase segunda-feira e eu não decidi ainda
    Se adormeço ou se a dor meço enquanto a noite finda


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Art by Jarek Puczel, who approaches his work with the idea that life is a movie or a game of illusion and the world is a playground where different realities play with one another. Quase como um quase.

  • [Pulga ninja]

    [Pulga ninja]

    Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

    Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

    Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

    Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

    Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

    Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

    Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

    Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

    Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

    Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

    No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

    Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

    Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

    Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

    Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


    ❝ by Tina Teresapanicmonday

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    Photo by Tina Teresa

  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Photo by Débora F. da Cunha

  • [Paraíso]

    [Paraíso]

    Para quem? Paraíso
    Para mim, apenas riso
    Seria mesmo tudo isso?

    Para tudo! Vem me acordar…

    Cochicha no meu ouvido que o café tá pronto
    Ajeita meu cabelo que ainda tá no sonho
    E beija minha boca enquanto eu durmo mais um pouco
    Então me ama num suspiro morno
    Na segunda-feira sem retorno

    Para com isso, tem pão com manteiga no forno
    Vem me dar um banho
    Lava o meu cabelo que ficou suado
    Você tinha até ajeitado o cabelo pro lado
    Mas do sonho só sobrou gemido
    Beijo teu no meu paraíso
    Segunda-feira tem arrepio

    Para quem? Não para não!
    Seca o meu cabelo que ficou molhado
    Amassa bem pra ficar ondulado

    Me amassa, meu bem, te quero jogado
    Aqui do meu lado, atravessado, entregue, caído
    Me deixa morder tua orelha, faz de conta, distraído

    Deixa eu me apaixonar pela rotina que você não tinha
    Deixa eu beber a mágoa que você não apaga
    Deixa eu te convencer que minha urgência é surreal
    E que meu paraíso não é artificial

    Espalha meu cabelo que você acabou de ajeitar
    Deixa eu me acostumar com teu bom-dia, todo dia
    Puxa meu cabelo que você acabou de espalhar
    E me ama com a saudade que bate na manhã fria
    Na segunda-feira ao raiar do dia

    Beija meu cabelo que você acabou de puxar
    Morde meu desejo que você acabou de matar

    Para quem? Para mim, só pra mim
    Paraíso insuficiente que eu acabei de inventar
    Paraíso verve em qualquer idioma
    Universo ferve enquanto a pressa me abandona
    Segunda-feira já era, paradise inflama

    Torce meu cabelo que você acabou de puxar
    Realiza o meu desejo que você acabou de beijar
    Combina tua rima com esse clima que acabou de surgir
    Escreve comigo uma nova estrofe pra gente cantar
    Uma estrofe que não deixe esse mundo ruir

    Para quem? Para-raio
    Pra qualquer coisa séria virar amenidade frágil
    Ou qualquer outra esfera me embriagar fácil

    Arruma o meu cabelo que você acabou de torcer
    Enquanto sobrevivo entre a desconfiança das aparências
    E o confronto da convivência
    Enquanto decido se me entrego ou me arrependo
    Se me insiro na fotografia e te surpreendo
    Ou se procuro o que não entendo

    Paraíso etéreo me recicla
    Acaso timbrado enamorado

    Para quem? Para tudo
    Pare o tempo, fique surdo
    Fique comigo, meu abismo
    Tempo desnudo
    Paraíso parado no mundo

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Art ‘PARADISE’ by INSA x ROIDS, Painted for POW!WOW! Hawaii, Honolulu 2014.

  • [Acho]

    [Acho]

    Sua vida não é um caso raro, muito pelo contrário.

    Você não quer incomodar, não quer interromper meu sono, não quer tomar meu tempo.

    Porém, só o que você faz são trapalhadas: vem quando não deveria, diz algumas bobagens, fica um pouco nervoso…

    Você diz que sou linda, agradece a acolhida, e então, no seu ímpeto de pensar demais, de viver uma utopia, de tentar apressar o dia-a-dia, você espera não ter me decepcionado “de alguma forma”.

    Espera equivocada, pois você decepcionou sim. Não foi a aparência, tampouco a insistência ou a falta de eloquência.

    Foi por pensar demais. Por não se deixar levar. Por não ser pontual, por não ser honesto, por achar que meu discurso era só resto de uma história que você não ouviu.

    Então você resolve fazer um relato. Mesmo já avisando que o acha irrelevante, desnecessário e indiferente.

    Tão indiferente quanto sua visita atrapalhada, sua presença atrapalhada, meu abraço frouxo.

    Sim, você errou em tentar explicar o inexplicável e apontar o invisível a alguém que sabe que está lá mas finge não existir nem em si corrompido pelo conforto de uma suposta permissão encontrada na passividade para analisar, subjugar, ignorar.

    Então você se lembrou da sua história, do mundo, do sistema, do marketing, da teoria da evolução, do ateísmo, do cristianismo, da hipocrisia, da mentira, da verdade, da realidade.

    Você se lembrou que não deve fazer isso novamente, e a razão é simples… você também analisa, subjuga, ignora.

    E por tudo isso é que eu acho que você é poeta numa segunda-feira discreta.

    Acho que você vê o mundo (e as pessoas) de uma maneira única e até um pouco doentia.

    Acho que você pensa demais. Sim, eu já disse isso, e continuo achando. E inclusive acho que é isso que te cega.

    Acho que você perde tempo demais tentando julgar, tentando entender, tentando justificar, tentando encontrar motivos que lhe abram os olhos ou os caminhos ou os sorrisos ou os braços para que o abraço seja apertado e não frouxo.

    Acho que você tem razão em tudo justamente por apenas pensar e na verdade não saber de nada.

    Acho que você vive em busca ao invés de ser. Ao invés de existir. Ao invés de acontecer.

    E eu também acho que você me inspira com sua incrível filosofia engatada. Com seu discurso “eu não devia” mas tentando. E ainda assim buscando. E não sendo.

    E eu acho que você mais diz do que faz.

    E também acho que seu relato não existe.

    No seu discurso há desabafo, sim. Há peso. E até há alma. Mas não há vida.

    Acho, ainda, que você treme enquanto pensa.

    E que você se sente obrigado a sorrir porque se você tem vencido todos os obstáculos que surgem em seu caminho, você deveria ser feliz, mas não é.

    Eu acho que é isso que você acha. Mas eu não sei. Eu apenas acho. Só acho.

    E também acho que você está mais preocupado em mostrar quem você é (ou quem você pensa que é, ou quem você gostaria de ser) e imaginar quem eu sou (ou quem você gostaria que eu fosse) a me perguntar quem eu imagino ser, quem eu quero ser, me ouvir, me conhecer.

    Você me dá informação demais, escolhas demais, opções demais, definições demais, conclusões demais, lamentações demais, decisões demais, trapalhadas demais.

    E eu também acho que você se precipita. Ok, eu só acho. Porém se eu só acho, você definitivamente não sabe de nada.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Art: Hug me by Chuck-tan.

  • [Pulp]

    [Pulp]

    Falei demais
    Brinquei com as palavras
    Poupei o pranto

    Dei de comer aos versos
    Sem querer, confesso,
    amei all the time…

    Sabe, the days of me forgetting are over
    And the days of me remembering have just begun
    I can enjoy the silence with a smile
    But if you play with my matches, you’ll get burned

    Como é que as coisas funcionam?
    Mocinhos nem sempre ganham no final
    De vez em quando as palavras nos abandonam

    If my answers frighten you…
    Then you should cease asking scary questions
    Don’t you think? Vamos rechear todo nosso resto?

    Não existe riso redondo, perfeito, completo
    Existe riso repleto de palavras escondidas
    Você fala a minha língua?

    Palavras consumidas fade away
    Esvaziando a memória que habita
    …ora densa, ora delicada…
    Na cortina da sua mordida

    I can’t count all the ways I’ve died for you
    All I can say is “my words’ got blue”
    Pra não desgastar, pra não afastar ou apagar
    Pra não consumir o seu sentido próprio

    Don’t let them make up your mind
    Minhas palavras cheias de intensidades
    São sinceras atmosferas
    Na melhor combinação

    Nem sempre simples, nunca óbvio
    Palavras são telescópios
    Que recheiam nosso pódio

    Dança comigo?
    Por uma manhã, uma tarde, uma noite, dois dias…
    Quero mais intensidade do que duração
    Sem obsessão ou possibilidade de frustração

    Não quero que a saudade roube a felicidade
    Quero somente o que a gente já tem
    Uma liberdade a dois cheia de depois
    Cheia de palavras imperfeitas
    Recheada de segundas-feiras

    Tudo bem? O quê que foi?
    Falei demais?
    Foi por amor


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    Artwork by Genie Melisande

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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