Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

Tina Teresa

  • [sintaxe do intervalo]

    [sintaxe do intervalo]

    __

    não procuramos respostas
    procuramos testemunhas

    alguém que impeça
    as coisas de desaparecerem
    no meio dos prazeres
    das dores
    e de todos os nossos odores

    há quem faça isso
    errando o nome de uma rua

    há quem desarrume
    uma frase
    num suspiro grave
    que bate na trave

    talvez por isso a linguagem
    nunca tenha pertencido
    apenas às palavras
    e sim a um copo esquecido sobre a mesa
    à demora entre duas sílabas
    entre frequências
    que não aprendemos a medir
    numa espécie de sintaxe
    feita de intervalo

    onde as lembranças
    continuam respirando
    e os vazios também conjugam verbos

    onde escutamos com os olhos,
    respondemos movendo uma cadeira,
    abrindo uma janela,
    arrumando os sapatos na beira do armário
    ou demorando um pouco mais
    antes de ir embora
    em plena segunda-feira

    há mensagens
    que chegam pelo corpo,
    pela pausa,
    pela hesitação,
    pela forma
    rearranjando o mundo
    dentro de uma frase
    ou dentro de um gesto

    contextos,
    tensões,
    ausências,
    frequências,

    há conversas
    que dispensam tradução
    há lembranças
    brincando com a repetição
    há presença
    sem disputa com ruído
    e há histórias
    encontrando quem permanece
    até a última palavra
    até a última segunda-feira
    até antes do que mesmo
    poderia ter ido, sido ou dito

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Foto by @helena.o.k

    **

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  • [bambolê]

    [bambolê]

    __

    lembro bem dos bilhetinhos trocados
    por debaixo dos cadernos calados
    entre folhas tortas 
    e refrões do Axl
    cheios de sorrisos tímidos
    e histórias próprias

    lembro bem das legendas
    deixadas nas agendas
    na hora da recreio
    no meio da segunda-feira lenta
    como se fosse lenda ou sonho
    merenda ou forro
    de cetim
    moletom com jeans
    elástico no cabelo
    um pedaço do mundo inteiro

    lembro das aulas
    das voltas
    das falas
    das portas
    das faltas
    das falhas
    das notas
    e do deleite de rir
    antes do motivo
    num idioma próprio
    que escrevia cicatrizes
    em letra cursiva
    desenhando sábados infinitos
    domingos de pijama
    e segundas de uniforme
    disformes
    fazendo do improviso
    um enfeite para o paraíso

    lembro bem do seu jeitinho
    de escolher a caneta certa
    para escrever o nome inteiro
    e dos planos mirabolantes
    para um futuro distante

    lembro das pulseiras coloridas
    do bambolê na cintura
    dos cadarços desamarrados
    das músicas divididas
    das tardes compridas
    dos telefones ocupados
    das conversas pela metade
    e das aventuras sem censura

    dos combinados impossíveis
    que quase sempre davam certo
    do chiclete no teto
    do poema incompleto
    do afeto indiscreto
    do segredo direto
    do futuro inquieto
    das segundas irrisíveis
    que sempre ensinavam a recomeçar
    a levantar
    e a olhar pro céu
    com o coração aberto

    lembro de rir até doer
    chorar até curar
    voltar antes de escurecer
    e correr sem perceber

    de perder a hora
    e ganhar o dia inteiro
    esperar o tempo passar
    e não deixar nada passar com o tempo
    apenas passar por dentro
    sem documento
    sem recreio
    sem roteiro
    sem receio

    lembro de você
    da mochila pesada
    da blusa amarrada
    da fita desbotada
    da calça rasgada
    da unha pintada
    da gargalhada
    no meio escada
    feito conversa atravessada

    lembro tanto
    lembro sim
    lembro bem
    o bambolê ainda girava
    o mundo girava também e,
    ainda assim, você partiu de mim

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: isamu noguchi‘s unrealized playgrounds hand painted animations.

    **

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  • [monday mood]

    [monday mood]

    __

    gosto da energia azul
    do som estilo blues
    tocando no som do carro
    enquanto tiro sarro
    dos contos bizarros
    que você me conta
    fazendo de conta
    que se importa
    com a trilha torta
    que se forma
    depois que a curva
    se deforma
    por detrás do espelho
    como se fosse bom
    o conselho
    que você me dá

    gosto da sede, da febre
    do simulacro em arco
    da segunda-feira no espaço
    monday mood no asfalto
    tão infinito e lindo
    nós dois
    dirigindo e rindo
    ouvindo tudo
    prometendo nada
    cantando, trotando
    trocando noite
    por cara lavada
    descobrindo acordes
    não demore
    não ensaie
    não falhe
    essa é a vibe
    apenas transborde

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: painting by @nogobed.

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  • [inventário dos conflitos guardados]

    [inventário dos conflitos guardados]

    __

    lá atrás do seu castelo
    tem uma segunda-feira guardada
    você a mantém dobrada
    para que nunca termine
    para que nunca acabe

    você a guarda
    na prateleira mais alta
    porque ela enferruja
    tudo o que toca
    ela rebusca
    tudo o que mofa
    ela busca
    ela afoga
    ela troca recomeço por conflito
    chama por grito
    no meio do infinito

    volta e meia
    você reorganiza a coleção
    como quem junta ímãs de geladeira
    de cidades onde nunca esteve
    mesmo os que já perderam a tinta
    ou os que ainda seguram a porta fechada
    velando bocas que nunca tremem

    lá atrás do seu castelo
    tem um armário
    só para desentendimentos
    você fica polindo cada atrito
    tentando apagar o arrependimento
    você pole tanto,
    como se fosse encanto
    até que ele reflita
    apenas seu próprio rosto
    e chame isso de memória
    causando zero espanto

    há conflitos de edição limitada
    alguns ainda vêm na embalagem original
    você sabe a procedência de cada um
    mas esquece que a vida precisa de sal

    há exemplares repetidos
    mas você insiste em chamá-los de inéditos
    nunca empresta os mais valiosos
    mesmo que pareçam fétidos

    seu armário já empenou
    com o peso das razões veladas
    com as brigas antigas restauradas
    e as noias emprestadas

    você tirou o pó das ofensas
    que ninguém mais lembrava
    conservou mágoas
    em temperatura ambiente
    só pra sentir a língua amarga

    você classifica seus conflitos
    com etiquetas escritas à mão
    você herdou alguns
    outros comprou usados
    }há falsificações na coleção
    mas você os exibe mesmo assim
    com orgulho da escuridão

    há conflitos que vencem
    mas você nunca confere a validade
    prefere fugir da verdade
    a viver na sanidade

    lá atrás do seu castelo
    você embrulha com laço de fita
    sua vida bonita
    faz inventário do desnecessário
    e chama de relicário
    compra silêncio usado
    vende sossego riscado
    troca descanso por recado
    dobra o desgosto do lado oposto
    para que todo remendo
    pareça pressuposto

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: By transforming her own old paintings into new works of art, Eliza Douglas raises questions about sincerity and cynicism.

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  • [gole ou golpe]

    [gole ou golpe]

    __

    tua festa começou quando

    o jogo acabou

    porque perder, pra você

    era o começo de um tropeço

    ou uma trapaça

    que ultrapassava a minha vidraça

    a segunda-feira raiava e você gritava

    tive que me entorpecer

    para que o mundo baixasse o volume

    a lucidez estava fazendo barulho demais

    a insensatez estava a um gole

    de distância da tua ganância

    buzina

    sinuca

    música ruim

    ninguém percebia

    que o dia iria

    começar cansado

    copos

    cacos

    cascos

    casacos jogados

    o resto

    eu já não sei

    se aconteceu

    ou fermentou

    se foi gole ou golpe

    se foi gol

    ou apenas falta de sorte

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Sculptor Frank Benson @frankbenson.info – image courtesy The Metropolitan Museum of Art.

    **

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  • [ímpar]

    [ímpar]

    __

    número ímpar me instiga

    não sei se por carência,

    independência

    ou talvez até ausência

    ímpar parece que repousa

    parede

    memória

    lousa

    segunda-feira

    asa de mariposa

    ímpar parece que insiste

    busca triste

    caminho torto

    garoa fina

    arrepia

    cabelo de menina

    sina

    retina

    comemoramos anos

    traçamos planos

    fazemos conta

    novos rumos

    novas plantas

    latidos

    miados

    perdidos

    achados

    obrigado

    de nada

    lado a lado

    me perdi nos teus braços

    talvez o ímpar nunca fosse um número

    mas o espaço antes do encontro

    nosso ponto

    escorreguei para dentro

    do resto do seu mundo

    profundo

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Pencil drawings by Chinese illustrator Gong Chen.

    **

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  • [meio amargo]

    [meio amargo]

    __

    você organiza o caos em gavetas rotuladas

    mas o caos aprende a sair pelas frestas

    junto com seu café meio amargo

    seu chocolate meio amargo

    seu bom dia meio amargo

    seu humor ácido

    meu banho meio amargo

    nada prático

    apático

    redundante

    metódico

    pesado

    tentando domesticar o dia

    com listas que não respiram

    e prioridades que não se olham nos olhos

    em busca de uma segunda-feira perdida

    eu já não me perco mais no seu relógio de ponteiros retos

    que insiste em marcar horas que não chegam

    repetindo o seu o excesso de simetria

    eu já não viro página para caber no seu índice

    na geometria cansada do seu jeito de insistir

    criando notas de rodapé que você chama de afeto

    há uma beleza torta no que você desmonta

    enxugando gelo com a toalha pronta

    que decora a poltrona tonta da sala de estar

    e ainda assim

    eu sigo aqui

    sem retrucar

    sem concordar com o eco

    sem afronta

    rindo por dentro

    e chorando pelo tempo

    meio amargo

    meio pardo

    letárgico

    que ainda bate

    sem compasso

    na memória que tenho

    das noites de sopa de aspargo

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “The Weight of Thoughts” bronze sculpture by Thomas Lerooy.

    **

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  • [solstício]

    [solstício]

    __

    na noite mais longa do ano

    acordei com medo da solidão

    como se a luz tivesse pedido demissão

    e me desse de presente

    uma segunda-feira de inanição

    o inverno chegou alongando sombras

    desenhando manobras tontas

    encurtando certezas

    e ampliando sutilezas

    reposicionando o sol

    dentro das coisas todas

    o inverno conhece o segredo do recomeço

    ele já viu folhas desistindo da altura

    enquanto raízes negociavam profundura

    já viu desejos trocando de endereço

    e a demora aperfeiçoando o avesso

    o inverno sabe que a aparência

    tem péssimos antecedentes…

    ele já viu o jardim parado

    e o mundo jurando abandono

    m e t a f o r i c a m e n t e

    ele sabe que sob a terra

    sementes rasgam certidões

    trocam sobrenomes

    abafam segundas-feiras

    e mudam direções

    um pássaro atravessa o frio

    carregando verão no peito

    uma árvore atravessa o frio

    carregando primavera nos ramos aflitos

    e eu atravesso o frio

    carregando perguntas poentes

    esperando a segunda-feira pendente

    enquanto isso, do meu jasmim,

    uma pétala cai

    depois outra

    depois outra

    como se alguém

    estivesse lentamente

    apagando a pressa

    com uma borracha perfumada

    até que reste apenas

    o aroma

    e a demora

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Parade to the Solstice – pintura em óleo de Emily Woodard com animação criada por Levan Kvan sem uso de inteligência artificial.

    **

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  • [cone]

    [cone]

    __

    não sei porque
    você insiste em se mover
    pra frente dos meus dias
    me deixando vazia
    enquanto a segunda-feira arrepia

    não sei porque
    você insiste em só querer
    a segurança do padrão
    à beleza do avesso
    sem apreço
    mereço?

    não sei porque
    você escolhe permanecer
    no mesmo passo decorado
    no mesmo chão já mapeado
    no mesmo roteiro cansado

    não sei porque
    você insiste em repousar
    firme no mesmo lugar
    como se mudar de ideia
    fosse pior que tombar

    como se o erro fosse queda
    e não movimento
    como se a coragem exigisse
    certeza e consentimento

    não sei porque
    você insiste em proteger
    promessas que nunca cumpriu
    medos que o tempo já viu
    retratos que o futuro despiu

    não sei porque
    você passa os dias a dizer
    por aqui
    não por ali
    sem nunca querer saber
    o que mora depois dali

    não sei porque
    você insiste em ser cone
    quando a vida pede curva
    e cada segunda-feira nasce
    pra romper a paisagem turva

    não sei porque
    você insiste em conter
    tudo aquilo que transborda
    tudo aquilo que se move
    tudo aquilo que descobre
    que outro caminho resolve

    eu olho a segunda-feira
    e vejo uma porta entreaberta
    você olha a segunda-feira
    e confere se a fechadura está certa

    talvez por isso
    eu procure a vertigem do começo
    e você a repetição do endereço
    eu a beleza do avesso
    você o conforto do regresso
    cego
    tudo tem um preço

    laranja de vocação
    sentinela da repetição
    fiscal de imaginação
    plantado sobre o asfalto
    esperando o próximo empurrão
    ou que a próxima segunda-feira
    abra frestas na avenida
    embaralhe as faixas
    contrarie o mapa
    brinque com a despedida
    em favor da vida

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: CONES, 2024. Imagem © Grégoire d’Ablon, cortesia da artista Pia Hinz, que recria ferramentas industriais em delicados objetos de vitral.

    **

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  • [vestígios]

    [vestígios]

    __

    A segunda-feira carrega um mistério discreto. Nunca chega completamente vazia. Nunca revela todos os seus compartimentos secretos.

    Traz nos bolsos restos de sonhos, planos adiados, conversas interrompidas, amores perdidos, cafés por tomar e páginas divididas.

    Chega carregando vestígios.

    De ontem.
    De antes.
    De longe.

    Feito poeira de estrela com o hábito de aparecer nos lugares mais improváveis.

    Numa ideia que volta. Num encontro desmarcado. Numa página em branco. Numa qualquer-feira sem sal.

    Pequenos fragmentos à deriva.

    Nem tudo pede resposta.

    Nem tudo procura destino.

    A segunda-feira chega.

    Só isso.

    Na caneca com um gole esquecido de domingo. No mensagem não respondida. No bolso do casaco, num papel dobrado em quatro.

    Partículas de lugares distantes.
    Fragmentos de histórias antigas.

    A segunda-feira chega.

    Uma ideia reaparece.
    Uma lembrança muda de endereço.
    Uma frase espera o momento certo para pousar.

    Porque nem todo recomeço precisa de anúncio. Nem toda esperança precisa de discurso. Há momentos em que basta chegar.

    A segunda-feira sabe disso.

    Chega com seus bolsos cheios de pequenas tentativas, de coragem ainda amassada, de vontades que sobreviveram ao cansaço. Chega feita da mesma matéria dos sonhos que insistem, das histórias que continuam e das estrelas que, mesmo distantes, seguem deixando rastros.

    A segunda-feira faz algo curioso com os dias. Recolhe fragmentos da semana que passou e os reorganiza em novas possibilidades.

    A segunda-feira às vezes demora, mas chega.

    Só isso.

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Rob Rey’s ‘Stardust VI’, Oil, 16x20in.

    **

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  • [nona]

    [nona]

    __ 

    algumas lembranças florescem antes da primavera

    você é uma delas

    no jasmim

    na camélia

    na janela da memória

    nos acordes de Beethoven

    nos cheiros que nos movem

    vindos do forno ou do colo

    do choro ou da chama

    da cuca de banana

    nas artes que nos tocam o coração

    na canela no chá

    nos crochês no sofá

    o seu nome na sinfonia

    me desafia

    me instiga

    me acalma

    me irradia

    me encanta

    uma semente

    um suspiro

    um instante de confiança

    o resto pertence ao vento

    o dente-de-leão conhece o valor do desprendimento

    ele sabe que nem toda distância é perda

    pode ser destino

    caminho

    ou desatino

    pode ser lembrança

    a segunda-feira dança

    com pétalas de criança

    e eu permaneço aqui

    entre carências e dormências

    entre medo e saudade

    entre tempo e vontade

    dançando bonito

    enquanto sua alma debuta

    em outra estação do infinito

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: ‘The Quiet Hours’ by Inge Schuster.

    **

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  • [dia da toalha]

    [dia da toalha]

    __

    há quem carregue um poema decorado
    desde a adolescência

    há quem saiba de cor
    o nome de luas distantes

    há quem monte cidades inteiras
    sobre mesas de jantar

    há quem colecione histórias

    há quem colecione perguntas

    quarenta e duas
    ou quarenta e três
    ou nenhuma

    há quem encontre abrigo
    em páginas amareladas

    há quem encontre companhia
    entre personagens improváveis

    há quem desenhe dragões
    na margem do caderno

    ou estrelas
    ou centelhas
    ou nada

    há vogons por toda parte

    alguns escrevem decretos
    outros, comentários

    alguns medem a vida
    com réguas de normalidade

    e distribuem formulários
    para quem ousa sonhar fora da margem

    o fascínio ocupa espaço

    a curiosidade ocupa espaço

    a imaginação ocupa espaço

    a segunda-feira ocupa espaço

    e cada pessoa organiza
    sua pequena coleção de encantamentos

    um livro guardado na mochila

    uma nave espacial na estante

    um verso anotado às pressas

    coisas que acompanham caminhos

    coisas que ajudam a reconhecer
    a própria voz

    existem muitas maneiras
    de habitar o mundo

    e todas elas acrescentam
    novas estrelas ao mapa

    há quem levante uma bandeira

    há quem atire a primeira pedra

    há quem ame a segunda-feira

    há quem odeie qualquer feira

    qualquer feito

    qualquer causa

    há quem carregue uma toalha

    um lembrete de que existe uma coragem rara

    de permanecer inteira
    num planeta que insiste alheio
    em versões resumidas de quem somos

    vamos dar um passeio?

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: arquivo pessoal; Marvin em crochê by @crochetbybet.

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