Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [Mad is needed]

    [Mad is needed]

    Segunda-feira não tem prazo de validade…

    In my head you live and in your mind I fuckin’ stay. If my hair is crazy, let’s make a trip. Let’s plug n’ play. Toda noite tem rock n’ roll, meu amor. Toda noite tem. Todo dia tem. Tem verso ao inverso, tem começo e tem inteiro um universo bem de perto. Mad is needed, confesso. Meu olhar é teu ingresso, não precisa falar nada, você sabe que te amo calada.

    Tuas asas crescem a cada nova largada, a cada nova nota de música descompassada enquanto o mundo nos entrega toda a prosa, toda a bossa, toda a nossa nova alvorada. Descabelada na morada. Namorada. Afogada no teu pranto manso, sonho com estrelas que chovem beijos no meu seio esquerdo. Mad is needed. Tudo e nada.

    Alienada…

    Me apaixonei por você na noite passada. Que sorte, que susto. Surto. Absurdo. Não quero nada, já tenho tudo. Parece justo. Take a deep step. It was just a click, we haven’t care. Now we can fly and flare cheek to cheek through the sky… You and I, babe… You and I… Mad is needed. Be panic. Be my pride. You were bleeding, now you’re mine. 

    Monday to Monday. Side by side. From the darkest moon to the sunshine. 



    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    DiaboliqViolet

  • [Fuga]

    [Fuga]

    No íntimo do luar
    Um gatilho dispara em mim
    Leve brisa: profuso mar
    Passos desconhecidos sem fim

    Pinceladas de vento nos braços
    Sigo perdida no lilás do firmamento — absorta
    Luarais velhos e devassos
    Segunda-feira mágica, tempo em ondas

    Em vigília, o amor transborda meu corpo informe
    Sem destino, esse sentimento me leva
    enquanto o silêncio dorme

    Ampulhetas escondem estrelas
    Meu coração largo e aflito
    corre, louco, para seu infinito


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqViolet ♥ panicmonday 

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    DiaboliqViolet

  • [Quase]

    [Quase]

    Nunca a frase de Saint-Exupéry fez tanto sentido
    Vi a eternidade desbotar diante dos teus olhos tremidos

    Meu amor, não foi tua intenção me cativar
    Que será de mim agora se tua voz
    É só uma lembrança sussurrando no meu ouvido?

    Gosto de espelho, banheiro, edredom, chuveiro
    Do teu sorriso safado, inteligente, criativo, aventureiro

    No teu abraço apertado há demônios e outros amores
    Será que se deixar cativar por alguém é isso?
    É querer algo que não cabe nem na linguagem, nem no infinito?

    Quase o improvável substituiu a distância
    Quase nossas incoerências dissolveram a tolerância

    Nossos nós e nossos defeitos derreteram nossos sonhos
    Nossa incompetência escapou da filosofia careta
    Entre sua atmosfera interior e o resto do planeta

    O cotidiano superou a surpresa
    Teu gosto solúvel avistou meu amor de duquesa

    E as promessas veladas… Ah, as promessas veladas
    Estacionadas no quase imponderável
    Vencidas pela fugaz percepção inefável

    Até quem olhava de fora percebia
    Ancorada em nossos laços pairava a sintonia

    Onde foi parar a eterna responsabilidade?
    Aquele querer respirar junto e cativar a liberdade?
    Onde foi parar o futuro? Foi quase…

    Nós e nossos imperdoáveis medos
    Nós e nossos quases perdidos no tempo

    Tudo remetia ao caminhar conjugado
    Toda a matemática, a literatura, a ciência dos ventos trocados
    Tudo era quase, menos o imponderável

    Você e seu talento pra chegar atrasado
    A nós, resta assistir a tudo calados

    Até quando vamos alimentar essa companhia solitária?
    A quase união foi interrompida pelo abandono
    Os quase momentos viraram desertos sem sono

    Como posso lamentar o que não nos coube?
    Até cheguei a provar-lhe as lágrimas, o que houve?

    Não dá pra ser quase feliz, quase pronto, quase quase
    Nossos tempos incompatíveis, nossos afazeres aqui e ali
    Quase é um advérbio de tempo que não sobrevive ao “vem dormir”

    Nada fácil viver no quase sem fresta
    Nada fácil deixar a porta entreaberta

    É uma irresponsabilidade extraordinária
    Cativar alguém e partir pra indiferença
    Cativar alguém e só agradecer a presença

    Não, o quase não é só isso
    Companhia sem compromisso

    Ou você acha que quase amar
    Permite fugir e se descontrolar
    Separar primeiro para depois se encontrar?

    Não é o acaso que nos prende na tempestade
    São nossas escolhas, nossas verdades e nossas amizades

    “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
    Não dissolva a eternidade no quase, minha vida
    Não permita que teu vazio abafe a despedida

    Tenho preguiça do teu vacilo que me definha agora
    Não faço mágica nem nada pra tirar sorriso da cartola toda a hora

    Vivo no quase esperando o depois
    Não me esqueço do antes, não esqueço nós dois
    Se houver vontade, a gente grita gol

    Já é quase segunda-feira e eu não decidi ainda
    Se adormeço ou se a dor meço enquanto a noite finda


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Art by Jarek Puczel, who approaches his work with the idea that life is a movie or a game of illusion and the world is a playground where different realities play with one another. Quase como um quase.

  • [Pulga ninja]

    [Pulga ninja]

    Ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Me disseram que você tinha mudado de estilo, mas contente fiquei ao ver-te daquele mesmo jeito pelo qual me apaixonei.

    Reparei, no entanto, em alguns arranhões novos. Quem te machucou assim? Você se envolveu em algum acidente? Alguém cortou a tua frente?

    Fiquei com receio de trocar olhares, mas sorri por dentro quando senti teu vento raspar meus cabelos dourados. E você ali parado quase do meu lado…

    Pode até parecer exagero, mas quando eu fecho os olhos, ainda sinto o teu cheiro.

    Lembro das noites que passamos em claro, dos banhos de chuva, das poças de lama que enfrentamos juntos, dos buracos no asfalto dos caminhos que desbravamos, das músicas que cantamos aos prantos enquanto o tempo parecia parar e o destino parecia se desintegrar diante de nossos faróis de neblina. Você tão ninja e eu tão menina.

    Ainda nem acredito que ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Eu te escolhi, eu te enfeitei, te dei presentes e tratos, te pintei de azul por dentro. Contei segredos e compartilhei abraços. Eu acolhi teu passado e te fiz de gato e sapato.

    Te salvei de tempestades, pisei fundo, balizei a monotonia com tua insanidade. Conheci cidades, calcei chumbo, decorei o dia com a cor da liberdade. Troquei engôdos por velocidade.

    Volta e meia penso em você. Volta e meia olho as placas dos carros imaginando te ver. Volta e meia procuro um sinal entre as luzes do asfalto tentando te reconhecer.

    Então, quando você estacionou ali brevemente, a alguns metros na minha frente, eu lembrei do quanto hesitei te deixar, do quanto investi no teu bem estar e do quanto eu vivi no teu colo, sem rumo, sem cloro, buscando assuntos e planos soturnos pra me encontrar.

    Tive vontade de te pedir uma carona, mas entendo, se a escolha foi minha, teu futuro me abandona.

    No entanto aceno, recostada no meu assento, pra tua nova trilha. A segunda-feira nos reservou essa armadilha. Apenas te aceno do meu assento, buscando consentimento.

    Ok, eu ainda lembro da euforia que você me trouxe, eu jamais me arrependeria. Com você, conheci magia, nostalgia, alegria e também injustiças que eu não merecia.

    Rodamos quilômetros, forjamos peças que não se encaixavam, trocamos óleo, ficamos de molho no imbróglio. Cantamos pneu sem motivo, avançamos sinais distraídos. Perdemos a hora, ganhamos o mundo. De tão gigantes, viramos pulgas. Amantes do submundo.

    Então ontem te vi pela primeira vez depois de tanto tempo no acostamento. Ontem te vi e eu nem tava perdida. Sim, eu quero que tua presença me atinja. Quero te ver brilhando porque agora sou pulga ninja e já estive até na Índia.

    Mas as vidas que tive contigo… Ah, as vidas que tive contigo ninguém nos tira, nem que a gente finja.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Photo by DiaboliqViolet

  • [Chá comigo]

    [Chá comigo]

    Chá comigo
    Aroma infinito
    Amor sem destino
    Dança sem sentido

    Chá comigo
    Sol de domingo
    Você me convida
    Eu desafino

    Eu tava dormindo
    Não vi a tarde passar
    Você esperou sorrindo
    A segunda-feira chegar

    Vem ser meu patuá
    Faz um chá pra eu acordar
    Você e suas abreviações
    Transbordando condecorações

    Chá comigo
    Solte as amarras
    Mas salte sem taras
    É a cumplicidade que declara

    Chá comigo
    Respeite meu ciclo
    Sentimento aflito
    Não cabe no infinito

    Lá dentro, de onde eu sinto
    Não tem romantismo
    Minha paixão é um abismo
    Na infusão do destino

    Se for pra mergulhar
    Primeiro aqueça a água
    Só assim do chá desprendem
    A cor, o amor e a mágoa

    Chá comigo
    Já fiz isso antes
    Amigo ou amante?
    Infinito radiante

    Chá comigo
    Pode ser bonito
    De domingo a domingo
    Morango com suspiro


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Photo by Débora F. da Cunha

  • [Paraíso]

    [Paraíso]

    Para quem? Paraíso
    Para mim, apenas riso
    Seria mesmo tudo isso?

    Para tudo! Vem me acordar…

    Cochicha no meu ouvido que o café tá pronto
    Ajeita meu cabelo que ainda tá no sonho
    E beija minha boca enquanto eu durmo mais um pouco
    Então me ama num suspiro morno
    Na segunda-feira sem retorno

    Para com isso, tem pão com manteiga no forno
    Vem me dar um banho
    Lava o meu cabelo que ficou suado
    Você tinha até ajeitado o cabelo pro lado
    Mas do sonho só sobrou gemido
    Beijo teu no meu paraíso
    Segunda-feira tem arrepio

    Para quem? Não para não!
    Seca o meu cabelo que ficou molhado
    Amassa bem pra ficar ondulado

    Me amassa, meu bem, te quero jogado
    Aqui do meu lado, atravessado, entregue, caído
    Me deixa morder tua orelha, faz de conta, distraído

    Deixa eu me apaixonar pela rotina que você não tinha
    Deixa eu beber a mágoa que você não apaga
    Deixa eu te convencer que minha urgência é surreal
    E que meu paraíso não é artificial

    Espalha meu cabelo que você acabou de ajeitar
    Deixa eu me acostumar com teu bom-dia, todo dia
    Puxa meu cabelo que você acabou de espalhar
    E me ama com a saudade que bate na manhã fria
    Na segunda-feira ao raiar do dia

    Beija meu cabelo que você acabou de puxar
    Morde meu desejo que você acabou de matar

    Para quem? Para mim, só pra mim
    Paraíso insuficiente que eu acabei de inventar
    Paraíso verve em qualquer idioma
    Universo ferve enquanto a pressa me abandona
    Segunda-feira já era, paradise inflama

    Torce meu cabelo que você acabou de puxar
    Realiza o meu desejo que você acabou de beijar
    Combina tua rima com esse clima que acabou de surgir
    Escreve comigo uma nova estrofe pra gente cantar
    Uma estrofe que não deixe esse mundo ruir

    Para quem? Para-raio
    Pra qualquer coisa séria virar amenidade frágil
    Ou qualquer outra esfera me embriagar fácil

    Arruma o meu cabelo que você acabou de torcer
    Enquanto sobrevivo entre a desconfiança das aparências
    E o confronto da convivência
    Enquanto decido se me entrego ou me arrependo
    Se me insiro na fotografia e te surpreendo
    Ou se procuro o que não entendo

    Paraíso etéreo me recicla
    Acaso timbrado enamorado

    Para quem? Para tudo
    Pare o tempo, fique surdo
    Fique comigo, meu abismo
    Tempo desnudo
    Paraíso parado no mundo

    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqViolet ♥ panicmonday

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    Art ‘PARADISE’ by INSA x ROIDS, Painted for POW!WOW! Hawaii, Honolulu 2014.

  • [Acho]

    [Acho]

    Sua vida não é um caso raro, muito pelo contrário.

    Você não quer incomodar, não quer interromper meu sono, não quer tomar meu tempo.

    Porém, só o que você faz são trapalhadas: vem quando não deveria, diz algumas bobagens, fica um pouco nervoso…

    Você diz que sou linda, agradece a acolhida, e então, no seu ímpeto de pensar demais, de viver uma utopia, de tentar apressar o dia-a-dia, você espera não ter me decepcionado “de alguma forma”.

    Espera equivocada, pois você decepcionou sim. Não foi a aparência, tampouco a insistência ou a falta de eloquência.

    Foi por pensar demais. Por não se deixar levar. Por não ser pontual, por não ser honesto, por achar que meu discurso era só resto de uma história que você não ouviu.

    Então você resolve fazer um relato. Mesmo já avisando que o acha irrelevante, desnecessário e indiferente.

    Tão indiferente quanto sua visita atrapalhada, sua presença atrapalhada, meu abraço frouxo.

    Sim, você errou em tentar explicar o inexplicável e apontar o invisível a alguém que sabe que está lá mas finge não existir nem em si corrompido pelo conforto de uma suposta permissão encontrada na passividade para analisar, subjugar, ignorar.

    Então você se lembrou da sua história, do mundo, do sistema, do marketing, da teoria da evolução, do ateísmo, do cristianismo, da hipocrisia, da mentira, da verdade, da realidade.

    Você se lembrou que não deve fazer isso novamente, e a razão é simples… você também analisa, subjuga, ignora.

    E por tudo isso é que eu acho que você é poeta numa segunda-feira discreta.

    Acho que você vê o mundo (e as pessoas) de uma maneira única e até um pouco doentia.

    Acho que você pensa demais. Sim, eu já disse isso, e continuo achando. E inclusive acho que é isso que te cega.

    Acho que você perde tempo demais tentando julgar, tentando entender, tentando justificar, tentando encontrar motivos que lhe abram os olhos ou os caminhos ou os sorrisos ou os braços para que o abraço seja apertado e não frouxo.

    Acho que você tem razão em tudo justamente por apenas pensar e na verdade não saber de nada.

    Acho que você vive em busca ao invés de ser. Ao invés de existir. Ao invés de acontecer.

    E eu também acho que você me inspira com sua incrível filosofia engatada. Com seu discurso “eu não devia” mas tentando. E ainda assim buscando. E não sendo.

    E eu acho que você mais diz do que faz.

    E também acho que seu relato não existe.

    No seu discurso há desabafo, sim. Há peso. E até há alma. Mas não há vida.

    Acho, ainda, que você treme enquanto pensa.

    E que você se sente obrigado a sorrir porque se você tem vencido todos os obstáculos que surgem em seu caminho, você deveria ser feliz, mas não é.

    Eu acho que é isso que você acha. Mas eu não sei. Eu apenas acho. Só acho.

    E também acho que você está mais preocupado em mostrar quem você é (ou quem você pensa que é, ou quem você gostaria de ser) e imaginar quem eu sou (ou quem você gostaria que eu fosse) a me perguntar quem eu imagino ser, quem eu quero ser, me ouvir, me conhecer.

    Você me dá informação demais, escolhas demais, opções demais, definições demais, conclusões demais, lamentações demais, decisões demais, trapalhadas demais.

    E eu também acho que você se precipita. Ok, eu só acho. Porém se eu só acho, você definitivamente não sabe de nada.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Art: Hug me by Chuck-tan.

  • [Pulp]

    [Pulp]

    Falei demais
    Brinquei com as palavras
    Poupei o pranto

    Dei de comer aos versos
    Sem querer, confesso,
    amei all the time…

    Sabe, the days of me forgetting are over
    And the days of me remembering have just begun
    I can enjoy the silence with a smile
    But if you play with my matches, you’ll get burned

    Como é que as coisas funcionam?
    Mocinhos nem sempre ganham no final
    De vez em quando as palavras nos abandonam

    If my answers frighten you…
    Then you should cease asking scary questions
    Don’t you think? Vamos rechear todo nosso resto?

    Não existe riso redondo, perfeito, completo
    Existe riso repleto de palavras escondidas
    Você fala a minha língua?

    Palavras consumidas fade away
    Esvaziando a memória que habita
    …ora densa, ora delicada…
    Na cortina da sua mordida

    I can’t count all the ways I’ve died for you
    All I can say is “my words’ got blue”
    Pra não desgastar, pra não afastar ou apagar
    Pra não consumir o seu sentido próprio

    Don’t let them make up your mind
    Minhas palavras cheias de intensidades
    São sinceras atmosferas
    Na melhor combinação

    Nem sempre simples, nunca óbvio
    Palavras são telescópios
    Que recheiam nosso pódio

    Dança comigo?
    Por uma manhã, uma tarde, uma noite, dois dias…
    Quero mais intensidade do que duração
    Sem obsessão ou possibilidade de frustração

    Não quero que a saudade roube a felicidade
    Quero somente o que a gente já tem
    Uma liberdade a dois cheia de depois
    Cheia de palavras imperfeitas
    Recheada de segundas-feiras

    Tudo bem? O quê que foi?
    Falei demais?
    Foi por amor


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Artwork by Genie Melisande

  • [Ao redor]

    [Ao redor]

    Sigo petiscando saudade
    Ao final de cada estação
    Na vibe entre o sim e o não

    Se o instante feliz vira desejo
    Choro diante do espelho
    (Ao redor) do meu sossego

    Lembro do timing que nos aproxima
    Tento enxergar a saudade na colina
    São seus braços misturados à neblina?

    O que temos em comum
    é o que nos diferencia
    (Ao redor) da luz do mesmo dia

    Deixo que as lágrimas levem
    Todo o traço, todo o cheiro
    Cicatriz de apego derradeiro

    Tão longe, tão perto
    Desalinha o meu deserto
    (Ao redor) do meu avesso

    Do outro lado da linha,
    a mesma lua, o mesmo teto
    O mesmo tempo incerto

    A nossa valsa, o nosso samba
    Na corda bamba a gente dança
    (Ao redor) da volta-e-meia da ciranda

    Cedo demais ou depois de horas?
    Andar pra trás te traz de volta?
    Atrás da porta eu guardo a bossa

    Essa demora faz bagunça
    Lambuza as noites, esfria os dias
    (Ao redor) das asas da alegria

    Cozinho o sono num banho morno
    Afogo a fome numa nuvem de espuma
    Atraso o sonho no edredom de outono

    Haja fôlego pra essa espera instável
    Até a segunda-feira pula a cerca
    (Ao redor) da mesma dúvida inefável

    Então a ressaca da resposta azeda,
    abandona na esquina da lembrança
    a vontade esmagada feito folha seca

    Quero cores, amores e beijos sem fim
    Vê se não esquece de ligar pra mim
    (Ao redor) do aroma do meu chá de jasmim

    Senão a saudade vira aperitivo, vira estopim
    Porque você escolheu meu jardim
    pra plantar suas flores de cetim

    Eternal sunshine, confunde a mente
    Difunde o brilho do sol ao ventre
    (Ao redor) da vida, bem na sua frente

    Onde será que guardei a memória
    Do nosso passo colorido na calçada
    Foi nessa spotless mind iluminada?

    Por isso deixo o dia à luz da noite
    Hipnotizo a liberdade absorta
    (Ao redor) de cada pétala solta

    Sobrevivo, sobrevoo, sinto, pouso
    Deixo todo meu destino envolto
    Pelo brilho do sorriso no seu rosto

    A mesma lua, o mesmo teto
    Petisco saudade até acabar o inverno
    (Ao redor) da lembrança deste brilho eterno


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Photo by @leodorio_

  • [Talvez, carpe diem]

    [Talvez, carpe diem]

    Talvez seja melhor você não pagar suas dívidas comigo
    Talvez meu pânico vire sonho se pairar dúvida sem brilho
    Toda vez que eu sinto frio ou quando eu me viro

    Talvez seja melhor essa sensação ilusória de certeza
    A permitir que a mente crie cenários dementes na aspereza
    Na tentativa de evitar que o bom humor vire tristeza
    Na defesa dos sorrisos, dos abraços, dos suspiros
    Toda vez que seu momento coincide com meu abrigo

    Talvez seja melhor sobreviver me lambuzando com geleia de amora
    A esperar seu bom-dia entorpecido num buquê de “onze-horas”
    A sonhar com seu desejo esquecido misturado com saliva
    Ou ouvir o que você me diz com suas palavras mofadas
    Toda vez que sua escolha coincide com minha alvorada

    A vida não é um teatro com tudo ensaiado e combinado
    Não tenho ideia do que é certo (ou errado?)
    Não tenho ideia do que é estar sempre por perto (ou do lado…)

    Não gosto de esperar. Nem de soluçar…
    Talvez seja melhor eu lembrar de respirar fundo
    Pra aliviar a voz ao falar contigo, toda vez que você ligar

    Paciência nunca foi meu forte
    I love and hate monday in panic
    Encontrar você foi um gole de sorte
    Uma vírgula sortida na delícia da despedida
    Na malícia da segunda-feira bandida

    Talvez seja melhor dizer o que se quer dizer
    Com palavras certas em frases incertas
    Ditas sem pensar no que se quis permitir
    Ditas sem pedir o que ficou prometido
    Do que calar e deixar o sonho fluir

    Será?

    Talvez seja melhor falar sem medir
    A fingir palpável o alcance frágil
    Toda vez que você me invade

    Talvez seja melhor aguardar a segunda-feira
    A esperar presença, sentença e aconchego
    Na crença de que sua alma me pertença

    Você pra mim é só isso e tudo isso
    Algo que ainda não defino
    Se é que algum dia ainda te sinto

    Talvez seja melhor carpe diem
    Mesmo que eu queira de segunda a segunda
    Por crer que momentos a gente aproveita ainda melhor
    Em companhia de quem nos incendeia
    Toda vez que amanhece uma nova segunda-feira

    Que te parece?

    Talvez seja melhor parar o mundo
    Toda vez, todo segundo
    Talvez eu queira existir, só existir
    Talvez eu queira partir
    Partir meu coração, abrir minha vida
    Dividir meu cheiro, meu caminho inteiro
    Pra ladear contigo e alardear sorrisos
    Talvez seja melhor beber um vinho
    Talvez seja melhor compartilhar seu limbo
    Toda vez que eu desafio
    A afinidade e a contrariedade nos nossos sons
    Que brincam entre ventos e marés
    Feito palavras que vêm e vão
    E ecoam e ressoam em modulações

    Talvez seja melhor…
    Secar o suor.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Photography by Josephine Sicad

  • [Intervalo]

    [Intervalo]

    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    The day I left behind was the day I lost in time
    No (con)fuso horário onde tudo é claro
    What’s yours? What’s mine?
    Não faz sentido, contudo eu calo
    E peço abrigo por onde passo
    Perdi um dia no fuso horário
    Segunda-feira virou relicário
    Você está perto do meu perigo
    Do meu silêncio, do meu castigo
    Do intervalo do meu dia perdido

    Tudo bem, querido…
    A despeito do meu cortejo
    Reflito de leve seu bocejo
    E lacrimejo meu soluço no seu umbigo
    Quem mora ao lado é o mendigo
    O que eu não falo é o que te mantém comigo
    O que eu sinto é o que te faz tão lindo
    Por tudo o que eu quero é que não brigo
    Tão distante, tão carente, tão latente
    Segunda-feira de bobeira eternamente
    Intervalo tão raro que persigo

    O que sustenta de repente
    Este dia tão quente que perdi na mente
    [Por permitir pairar feito um voo de parapente
    Todas as palavras que ficaram dormentes]
    É o que eu não digo e guardo discretamente
    No meu sorriso aflito
    No meu olhar decidido
    No meu abraço inerente
    No meu coração insistente
    Na segunda-feira impaciente
    No intervalo que inseri entre a gente

    O dia que perdi no tempo
    Deixou meu cabelo esquisito
    O tempero que ganhei ao relento
    Foi regalo ou foi evento?
    Foi angústia que ainda lembro
    Do dia que tornou-se antigo
    Da promessa que não necessito
    Da segunda-feira que esperei afinco
    Do que você acha que eu não consigo
    De tudo o que escrevo e não digo
    Do intervalo que perdi contigo

    Praticamente não distinguo
    Não percebo, não atinjo
    Não escolho, apenas colho
    Tuas palavras que repousam no meu sonho
    Palavras presas me chamam de princesa
    E se desprendem da alegria e da tristeza
    E encontram uma segunda-feira travessa
    Palavras disfarçadas de Fio Vermelho do Destino
    Palavras destinadas a tocar vidas ao vento
    Cada vez você fica mais perto do que não digo
    Do intervalo do beijo que paralisei no tempo


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

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    Art: cat yarn bowl by Felicia Nilson

  • [Amor, adorno, deslize ou abandono?]

    [Amor, adorno, deslize ou abandono?]

    Te cansastes de mim, foi isso?
    Preferistes o tempero ácido
    ao meu olhar nostálgico?

    Escolhestes a rebeldia
    ao meu abraço no final do dia?
    Te cansastes da minha poesia?

    Nas noites de anteontem
    Deparei-me com tuas pupilas brilhantes
    Mascando faíscas crocantes

    É evidente, ninguém é vidente
    Mas o que salta aos olhos dói no ventre
    E o que ecoa fica à toa, dormente

    Queria ser odalisca
    Orbitar tuas pupilas distantes
    Te cansar e te deixar ofegante

    Para que não me deixes
    Para que me desejes e me incluas nos teus planos
    Para que me convertas em momentos insanos

    Queria te gostar menos
    Pois se te cansastes de mim quando te recebi sempre contente
    Foi por tonta sintonia, por entrega, por magia

    Te cansastes de mim e não me avisastes
    Logo vi que a demora eram horas gastas em novos semblantes
    Everybody lies, não precisa me lembrar, não te quero petulante

    Te cansastes de escolher?
    Ou de pagar pra ver? Te cansastes do meu café?
    Te cansastes de querer que o mundo girasse em marcha à ré?

    Falando em passado…
    Na segunda-feira, do teu lado
    Notei que a gentileza era fachada

    Te esquecestes de manter a boca fechada
    Te entregastes nos comentários marcados
    E me perdestes num suspiro estalado

    Quantas vidas queres levar?
    Quantos sorrisos partidos ainda esperas ganhar com tuas investidas sortidas?
    Quantas figurinhas queres colecionar com esse discurso amassado?

    Queria tanto saber quem tu és
    Se é que algum um dia sabemos quem realmente somos
    Se é que algum dia entendemos se o que escolhemos é amor, adorno, deslize ou abandono

    Queria tanto entender por quê me perguntas tanto
    Se eu me largo aos cantos, se eu me esmago em prantos
    Eu te aguardo, por enquanto. Apenas por enquanto… Porque eu também me canso.


    ❝ by Tina Teresa ★ @DiaboliqVioletpanicmonday

    **

[LIVRO]

Versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
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